Dois escalpos para a vingança trumpista


Séculos atrás, na época do descobrimento do Oeste Americano, milhares de pessoas comuns, armadas apenas com espingardas, cruzavam o país da Costa Leste para Oeste, com o intuito de conseguir se apossar de terras e assim garantirem suas independências financeiras. Já aí já estavam presentes algumas características inatas do povo americano: a força de vontade, a ambição, o desejo de possuir seu próprio destino, o vínculo com o armamento, a propensão para a guerra e principalmente a necessidade de expansão.

Milhares de americanos, desde quando o país ainda era uma colônia inglesa, tinham o hábito de “invadir terras indígenas” e isso causava muitos problemas e conflitos, que na maioria das vezes eram vencidos pelos melhor armados, os “cara pálida”. No entanto, muitos americanos acabaram conhecendo assim uma prática indígena não muito agradável. Não raras foram as vezes que indígenas, ao capturarem homens brancos, praticassem contra eles algo chamado de escalpelamento. Mas o que seria isso? Escalpo é a parte superior do couro cabeludo. Escalpelar significaria então retirar, normalmente a força, o topo do couro cabeludo, cabelo e pele. Os indígenas então seguravam os escalpos dos povos vencidos por eles em guerra para mostrar sua braveza. Já o escalpelado, as vezes era obrigado a ver seu próprio escalpo na mão dos indígenas antes de morrer dolorosamente.

Mais tarde, os americanos acabaram assimilando esse saudável costume indígena. Sabe-se que o costume passou a ser utilizado como prova da morte dos índios pelos seus caçadores. Isso pode ter levado a banalização do costume pelos índios, que passaram a tirar o escalpo dos brancos e outros índios também. Com o passar do tempo, escalpelar ganhou um novo significado na psiquê americana. Passou a ser um símbolo de vingança, de revanche, de justiça com as próprias mãos. “Tirar o escalpo” tornou-se uma expressão usada para designar tirar do jogo seus inimigos mais desprezíveis que não merecem nada senão o seu desprezo.

Nesse sentido, em face da derrota de Trump na eleição de 2020, o partido republicano parece que será palco de uma cruel guerra civil. E muitos escalpos estão em jogo. Uma ala, ligada ao antigo establishment do partido, repudia Trump, e seriam denominados os “nevertrumpers”. Já outra ala, mais populista e totalmente alinhada com Trump e suas pautas seriam os trumpistas, que hoje seriam cerca de 90% do eleitorado. Contudo, esses 10% de nevertrumpers ainda ocupam postos-chave dentro da política do partido e não parecem que irão desaparecer tão cedo. A cada derrota republicana numa eleição eles tornam-se mais animados para tirar suas asinhas pra fora.

O que ocorre no partido republicano é que suas pautas econômicas nunca foram o seu principal mote, uma vez que historicamente o partido sempre foi percebido com o partido dos ricos visitantes dos Country Clubs. Para manter sua viabilidade eleitoral, o partido sempre teve de apelar para as pautas culturais que o conectavam com o zeitgeist da época e com o espírito conservador de uma religiosa nação de protestantes brancos de centro-direita. No entanto, o país mudou, e o partido republicano teve dificuldade em mudar.

Das 3 principais pautas culturais do partido, nos últimos 50 anos o partido viu perder as três. Primeiro foi a pauta do aborto, que passou nos EUA após uma polêmica decisão na Suprema Corte, a Roe vs Wade. Mais tarde, em 2004, o partido conseguiu sua última vitória no voto popular apelando para seu eleitorado religioso, transformando aquela eleição num referendo contra o casamento gay, que mais tarde acabou sendo aprovado. E por último, o partido entrou numa cruzada contra a legalização da maconha.

Cada uma dessas três batalhas foram perdidas. Hoje a maioria dos americanos infelizmente aprova a legalização do aborto, é favorável ao casamento gay e também se mostra entusiasta da legalização da cannabis. Em face dessas derrotas, o partido não soube se reinventar e acabou sendo tomado de assalto pelos trumpistas, extremamente conectados com os anseios populares, que souberam perceber na imigração e na China as duas importantes pautas que o partido poderia usar para retomar a Casa Branca. Funcionou. Trump venceu em 2016.

O problema é que essa fórmula não foi o suficiente para garantir a sua reeleição. Agora os mesmos republicanos que perderam as eleições de 2008 e 2012 querem criticar os trumpistas por terem perdido a eleição de 2020, na ilusão de que banindo e marginalizando os trumpismo eles voltarão a Casa Branca mais cedo. Ledo engano. O que eles não parecem notar é que eles são a minoria no partido republicano, e que com ou sem Trump, o partido não voltará a ter as pautas reaganistas de antes. Trump mudou o partido a sua imagem e semelhança, e quem quiser desafiá-lo com certeza sentirá as consequências.

Nesse sentido, os 10 deputados republicanos que votaram pelo impeachment de Trump já estão na lista negra de muita gente. Roger Stone, operador de Trump no partido, já disse que os 10 terão adversários nas primárias de 2022. A mensagem é muito clara. Todos os republicanos que se manifestarem contra Trump terão seus escalpos cassados. Dentre eles, Liz Cheney, filha do ex vice-presidente Dick Cheney, que votou para afastar Trump, parece ser o escalpo mais provável de ser arrancado. Nenhuma outra pessoa na Câmara simboliza mais o establishment do partido que ela, que hoje representa o Wyoming, estado no qual Trump venceu por mais 20 pontos. Por isso tudo indica que 2022 terá nas primárias do Wyoming e de tantos outros estados, batalhas sangrentas onde trumpistas tentaram unificar o partido e banir sua oposição interna.

Mas nem tudo são flores. Você pode ser contra alguém, mas você não vence alguém com ninguém. Para derrotar os nevertrumpers os trumpistas precisam de nomes competitivos. Não só para vencerem as primárias, mas também para derrotar os democratas nas eleições gerais. É por isso 2022 será um ano tão importante para o trumpismo. Caso Trump não consiga implacar seus candidatos na Câmara, saberemos que o trumpismo sem Trump poderá dar espaço para uma volta dos candidatos nevertrumpers do establishment.

Se Liz Cheney é um escalpo vulnerável para ser exposto em 2022, do lado trumpista os nevertrumpers já namoram o escalpo da deputada Marjorie Taylor Greene. Devota de Trump e entusiasta de teorias da conspiração como o Q Anon, Marjorie está sendo incensada pela mídia como o símbolo do que se tornou o partido republicano. Sendo assim, ainda é cedo para dizer qual é o futuro do partido republicano, mas as primárias de 2022 dirão muito sobre qual o rumo que o partido tomará nos próximos anos. Se parece que muitos republicanos não sabem onde perderam suas cabeças nos últimos anos, que façam a si mesmos o favor de acharem. Do contrário podem encontrá-las sem seus próprios escalpos.

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