O Brasil e o plano de dominação global da China


Essa semana o Brasil recebeu com surpresa as ameaças do embaixador chinês no Brasil após o filho do presidente brasileiro, o deputado Eduardo Bolsonaro, fazer duras críticas à China. Muitas pessoas na imprensa preferiram defenestrar o deputado brasileiro demonstrando que em qualquer celeuma envolvendo Brasil e China, eles nunca perderam uma oportunidade de bandear para o lado dos chineses. Mas a pergunta que importa é a seguinte: qual deve ser a posição do Brasil frente à ascensão chinesa? Devemos defender nossa soberania, nossos valores, mesmo que isso seja custoso, ou devemos nos prostrar docilmente perante o imperialismo do Partido Comunista Chinês?

A resposta para essa pergunta parece óbvia, mas cabe aqui demonstrar o que está em jogo e porque a China vê o Brasil como um país estratégico para seu plano de dominação mundial. Por exemplo, hoje o maior terminal de contêineres da América Latina fica em Paranaguá. Após sua últimas reformas o terminal possui capacidade de suprir as demandas de exportação do Brasil para os próximos 30 anos. Isso é maravilhoso, não é? Seria, caso tal terminal não fosse de domínio da CMPORT, empresa chinesa que investiu na melhoria do terminal e hoje controla esse ponto vital da infraestrutura brasileira para exportação.

Lendo isso, qualquer pessoa poderia concluir que a China está na verdade comprando o Brasil bem debaixo do nosso nariz e que deveríamos ter feito algo para impedir isso. Contudo, a realidade é que a China não apenas está dominando os portos brasileiros, mas os de mais de 50 países. Controlando os portos, a China garante que sua bugigangas feitas através de espionagem industrial e trabalho escravo possam inundar o planeta, conferindo bilhões de dólares para o Partido Comunista Chinês. O modelo é sempre o mesmo. A China se oferece para reformar portos abandonados e depois os usa como plataforma pra ganhar os mercados desses países.

A ousadia chinesa é tão ilimitada que eles chegaram a fazer isso no terceiro maior porto dos EUA. Os EUA, governados por Trump, logo se viram ultrajados alegando que aquilo correspondia um risco para a soberania nacional, impedindo que o porto fosse comprado por um grupo chinês. O que os EUA sacaram e o que o mundo inteiro parece não querer ver é que os chineses tem um plano para monopolizar o comércio internacional, explorando a vulnerabilidade de países quebrados para então lhe emprestarem dinheiro barato, e quando estes não puderem pagar, os chineses continuariam emprestando contanto que estes países lhe oferecessem seus pontos estratégicos. Essa estratégia descarada não tem nem 10 anos e aparentemente apenas Donald Trump parece ter se tocado de que as consequências podem ser tenebrosas se isso avançar.

Hoje a China tem como prioridade construir “A Nova Rota da Seda do Sec. 21”. Hoje esse plano já está quase concluído com a hegemonia chinesa dos portos do Singapura, Sri Lanka, Iemen, Egito e Grécia, ela é capaz de escoar boa parte de sua produção, em pouco tempo, saindo das fábricas chinesas até chegar na Europa, seu principal alvo comercial uma vez que os EUA se fecham cada vez mais para eles.

Entretanto, a China tem outras preocupação além de comprar portos e dominar a indústrias de metalurgia de embarcações. A China carece de um grande problema que pode desestabilizar seu regime: a falta de independência alimentar. Hoje, para alimentar os mais de 1 bilhão de chineses com um preço adequado para os salários ínfimos que estes recebem a China não pode se ver dependente de flutuações nos mercados de alimentos. É por isso que eles são tão dependentes do nosso eficiente setor agrário. Caso hoje o Brasil se fechasse para a China, por mais irracional que isso seria para as finanças brasileiras, quem mais poderia sofrer com uma falta de alimentos seria o governo chinês, que iria ter que se virar para controlar protestos de milhões de “cidadãos” famintos.

É por isso que a China procura construir uma opção para não depender da soja brasileira. Hoje a China tem no Leste Africano vários países quebrados que eles dominam através de investimentos em infraestrutura. Eles emprestam dinheiro barato para países, e esses mesmos investimentos em infraestrutura empregam trabalhadores chineses e são feitos empresas chinesas. E no final quem se beneficia por essas obras é a própria China, que ganha mais eficácia pra escoar sua produção ou receber suas commodities. Por isso, quando os países não conseguem pagar ela de volta, os chineses nem ligam, pois os investimentos já lhes foram pagos de outra forma. É um ganha-ganha pra eles.

É nesse contexto que os chineses pretendem transformar o Leste Africano numa área de produção de soja para rivalizar com o Brasil. Esse é um processo demorado e que eles terão muita dificuldade de realmente se tornarem independentes, mas faz-se necessário que o Brasil observe esses movimentos com bastante cuidado.

Ainda essa semana a China conseguiu criar o RCEP, mais um bloco comercial envolvendo países asiáticos. Na prática, esse bloco é uma resposta a dois movimentos americanos feitos nos últimos anos. Preocupado com a possibilidade da China dominar o comércio da região, o governo Obama tentou construir a TPP para avançar sua participação nessa área e escancear a China. No entanto, a TPP foi criticada por não beneficiar os americanos o suficiente e, com a vitória de Donald Trump, esse plano foi por água abaixo.

Uma vez eleito, ao invés de construir um bloco comercial na região, Trump preferiu partir para acordos bilaterais com os países e encarar uma guerra tarifária com a China. Não deu certo. A China, sabendo que não tinha mais como escoar sua produção para os EUA, mandou suas fábricas para outros países periféricos a ela para escapar dos boicotes. Então, por mais que o comércio com a China tenha de fato diminuído, este foi complementado por países cujas fábricas são controladas pelo Partido Comunista Chinês.

Trump até conseguiu um acordo com os chineses para finalizar a guerra tarifária por cima e ganhar um trunfo perante seus eleitores. Entretanto, qualquer um sabia que os chineses não são conhecidos por respeitarem acordos. O acordo de mentirinha se traduziu numa vitória de mentira. Meses depois disso a pandemia de COVID começou e o mundo inteiro se viu dependente dos produtos hospitalares vindo da China, até mesmo os EUA. Enquanto o mundo inteiro entrou em crise a China não se abalou e aproveitou a oportunidade da queda do valor acionário de milhares de empresas para aumentar ainda mais a sua participação em vários mercados que lhe são importantes, como é o caso de várias empresas agrícolas brasileiras, hoje cada vez mais chinesas.

Sendo assim, o Brasil, que havia feito uma aliança com Trump e que por vezes peitou a China usando uma retórica confrontacional, agora se vê na obrigação de mudar sua postura. Trump foi derrotado e agora não sabemos se Biden terá bons olhos para o Brasil após algumas falas de Bolsonaro pouco elogiosas contra ele. O grande perigo atual é o nosso isolamento. Por isso, precisamos escolher de forma pragmática de onde buscaremos os investimentos que tanto precisamos para sair dessa crise. Se é dos Estados Unidos de Biden, ou da China do Partido Comunista Chinês. A resposta para esse dilema me parece óbvia.

2 comentários

  1. Qual deve ser a posição do Brasil frente à ascensão chinesa? Trabalhar, investir em inovação, ter uma política externa que não seja tola, investir em educação. Esse medo do “imperialismo chinez” é algo que me surpreende.

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  2. O Brasil deve investir e apostar no mercado interno, deve apostar em politicas econômicas nacionais, para não servir de capacho para quem quer que seja, os Estados Unidos ou a China.

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