Por que Bolsonaro não foi derrotado nessas eleições municipais


Muitos brasileiros acordaram apreensivos essa semana. Para milhões, o destino deles seria selado através de um pleito. Eu mesmo presenciei o nervosismo e ansiedade de muitos conservadores. Nunca antes em toda a minha vida eu vi conservadores tão engajados numa eleição. No entanto, não estou falando da eleição municipal ocorrida ontem no Brasil, e sim das presidenciais americanas, cuja a apuração se estende até agora. Enquanto boa parte dos conservadores brasileiros passaram os últimos meses apenas torcendo para Trump – que só pensa nos EUA e está nem aí para os brasileiros -, a extrema-esquerda obteve ganhos históricos bem debaixo do nosso nariz.

Os resultados da eleição municipal foram bem amargos. Presenciamos uma troca de pele na esquerda. O Partido dos Trabalhadores recuou e deu espaço para grandes votações de partidos ainda mais tenebrosos como PSol e PC do B. É como se o Bolsonarismo tivesse cortado a cabeça de uma hidra petista e em seu lugar tivessem nascido mais cabeças comunistas pra enfrentá-lo. Do ponto de vista eleitoral isso não é tão ruim. Sabemos que partidos mais radicais tendem a ter menos viabilidade eleitoral. Logo, ao trocar um inimigo por outros mais fracos a direita teria espaço de crescer nessa eleição. Digo, teria, pois a direita nem sequer participou dessa eleição direito.

Bolsonaro foi extremamente tímido nos seus apoios. E ainda assim, seus candidatos não foram tão bem assim. Dos 45 vereadores que ele apoiou em suas lives, apenas 12 foram eleitos. Já quando o caso são seus apoiados nas prefeituras, o cenário foi ainda pior. Apenas 2 candidatos apoiados por Bolsonaro foram ao segundo turno, e ambos em segundo lugar. E pior, Carlos Bolsonaro obteve 70 mil votos na eleição para vereador do Rio, um evidente decréscimo comparado com sua eleição com 100 mil votos em 2016. Esses e outros fatores poderiam indicar que o Bolsonarismo estaria em decadência.

No entanto, ainda é cedo para tirar essas conclusões. O que de fato aconteceu é que o Bolsonarismo não pode ter perdido essa eleição, uma vez que ele mal participou dela. Seu apoio, principalmente nas grandes cidades como Rio de Janeiro e São Paulo, foram totalmente tímidos, já que ele próprio não se identificava com suas próprias opções nessas cidades. No Rio, Bolsonaro apoiou Crivella para conseguir ter ainda a simpatia do partido Republicanos, da Igreja Universal e da Rede Record. Deve ter sido uma escolha indigesta, uma vez que Crivella é um dos prefeitos mais mal avaliados do país e que sua derrota é mais do que certa. Já em São Paulo, Bolsonaro teve de apoiar o cavalo paraguaio Celso Russomano. Conhecido pela sua luta pelos direitos dos consumidores, Russomano até começou bem nas pesquisas. Liderou como sempre, mas despencou – também como sempre – porque o consumidor não quis levar a sua candidatura inteira. Só o quiseram por um pedacinho da campanha.

Provavelmente o resultado mais temerário de ontem foi a ida do Boulos para o 2° turno em São Paulo. Isso mostrou que o anti-comunismo não foi entendido senão como anti-petismo. O eleitorado aprendeu a repudiar um símbolo, mas não o significado desse símbolo. Por isso que a mesma esquerda derrotada em 2018 por ser associada com escândalos de corrupção, agora renasce e se radicaliza debaixo do nariz de uma direita desorganizada que não foi sequer capaz de se aglutinar num partido.

Contudo, não foi a esquerda que venceu as eleições. O principal vencedor desse pleito foi o DEM e demais partidos fisiológicos. Na falta de um partido conservador e com o PT ainda com enorme rejeição, esses partidos ocuparam um espaço que deveria ser do Bolsonarismo. Além disso, o recado que as urnas nos deixaram é que o eleitorado brasileiro não se pauta pelas mesmas prioridades que são percebidas na direita. Para muitos direitistas, os prefeitos que impuseram o lockdown seriam castigados nas urnas pelo povo. Entretanto, o eleitor comum, por mais que não seja a favor da quarentena, não vota unicamente pensando nisso. Dentro dessa lógica, vários candidatos tidos como impopulares pela direita, como Bruno Covas, acabaram excedendo expectativas, já que a COVID se mostrou um tema federal, enquanto o que de fato contou para a decisão de ontem foram os problemas internas de gestão dentro dos municípios.

Portanto, seria inocente avaliar os resultados dessa eleição como uma derrota a Bolsonaro. Bolsonaro ainda não criou seu partido e esse não disputou as eleições. Ele mal fez campanha e quando apoiou alguém, fez isto por conveniência ou necessidade, não por afinidade ideológica. E além disso, muitos dos candidatos por ele apoiados eram visivelmente fraquíssimos e ele mesmo sabia de antemão que não tinham chance alguma. Sendo assim, é ilógico usar essa eleição como termômetro do que acontecerá em 2022. Porém, é bom que Bolsonaro mude sua postura e melhore sua organização, pois, ele pode não ter perdido essa eleição, mas se não se preparar, pode perder a próxima.

Um comentário

  1. Sim… concordo com sua abordagem, mas acho que nessas eleições ficou bem claro para o governo o sinal de alerta para se tomar uma postura mais audaciosa e ouvir mais as expectativas do seus eleitores, fato que ele tem se descuidado disso com atitudes muito brandas e tímidas.

    Curtir

Comente com polidez!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s