Donald Trump se prepara para voltar em 2024


Sonhar é uma das atividades mais fascinantes do ser humano. Isso é que nos motiva a seguir em frente e acreditar que nosso esforço será recompensado. Nem sempre sonhos são factíveis com a nossa situação. Pelo menos até hoje, sonhar sempre foi de graça. No entanto, caso você seja Donald Trump, e seu sonho seja permanecer na Casa Branca ano que vem, seu sonho tenderá a custar muito caro.

Olhando em perspectiva, o próprio fato de Trump ter ventilado meses atrás a possibilidade de adiar as eleições já parecia ser uma atitude desesperada para evitar que o vírus chinês prejudicasse suas chances de reeleição. Enquanto escrevo esse texto, a vantagem de Biden no voto popular já ultrapassou os 5.3 milhões de votos e tudo indica que não parará de crescer. Contudo, nos swing states, as margens de vantagem de Biden foram bem magras, como na Georgia e Arizona, onde ficou apenas a 10 mil votos de Trump, ou no Winsconsin, onde a margem ficou na casa dos 20 mil votos. Dessa forma, ainda há muitos republicanos que sonham que Trump consiga virar algum desses estados numa recontagem. Entretanto, a média de mudança de votos até hoje é de 500 votos. Logo, crer que Trump será reeleito nas recontagens tem a mesma chance de você, vendado, achar um alfinete dentro de um frasco vazio.

É ai que entra a narrativa da fraude. Muitos brasileiros – mas muitos mesmo – creem que essa eleição ficará marcada na história pelas fraudes escancaradas e que devido a isso Trump foi roubado. Já vi até gente dizendo que se a democracia não funciona nem na América, não dá pra confiar nas eleições aqui do Brasil. A realidade é que ainda é cedo demais para tirar essas conclusões.

Todas as eleições americanas tem registro de fraude. Só na de 2016 mais de 100 pessoas foram presas. Nunca vi o resultado de uma eleição ser alterado devido a fraude. Assim, não há motivos para crermos que esse ano as fraudes foram tamanhas a ponto de alterar o resultado, ou que, mesmo havendo fraude, elas serão descobertas a tempo de evitar a posse Biden. A única certeza que temos é que, pelo fato do voto americano ser registrado em papel, ele é auditável, e por isso caso de fato haja uma fraude de milhões de votos, que acabou mudando o resultado, todos nós saberemos disso no futuro.

Por hora a realidade dura é que Trump se encontra numa situação desconfortável no colégio eleitoral, onde não precisa apenas virar um estados, mas no mínimo 3. Ele pode apelar à Suprema Corte para invalidar determinados tipos de votos que deram vantagem para Biden, mas como os efeitos das decisões da Suprema Corte são vinculantes, eles se aplicariam para todos os estados e teria força de lei. É até possível que a Suprema Corte, como fez em 2000, dê uma forcinha para os republicanos num estado, como fizeram na Flórida naquele ano paralisando a recontagem, porém, imaginar que a Suprema Corte pode conferir 3 decisões favoráveis ao partido republicano em menos de um mês é algo que beira a loucura.

Para Trump de fato conseguir ser reeleito, hoje, ele precisaria de mais que um milagre. Ele precisa comprovar que houve fraude, ter provas incontestáveis de suas existências e de que foram grandes a ponto de mudar o resultado de um estado. Somado a isso ele precisa judicializar tipos de votos que deram vantagem a Biden, e vencer esses casos nas cortes estaduais ou no Supremo em tempo hábil. E como se isso não fosse difícil o bastante, ele ainda tem de contar que a recontagem consiga demonstrar que houve falhas que beneficiaram os democratas. Somados todos esses fatores, é impossível que Trump vire os mais de 5 milhões de votos de vantagem de Biden nacionalmente, mas assim ele conseguirá virar os resultados de estados como Pensylvania, Arizona, Georgia, Winsconsin e Michigan.

Dentro dessa missão impossível do presidente Trump, essa semana ele começou a apurar obituários de pessoas que supostamente votaram, mas estão mortas. Estima-se que pelo menos 20 mil mortos tenham votado nessa eleição. E isso não é algo sobrenatural, uma vez que nos EUA em todas as eleições há registros de mortos votarem. O que me chama a atenção é a predileção dos mortos em votarem sempre nos demoniocratas. Esse tipo de apuração certamente não mudará o resultado eleitoral, mas a intenção de Trump é construir uma narrativa de que foi injustiçado.

Além disso, agora Trump planeja continuar em modo de campanha, mesmo depois do fim da campanha. Não entendeu? Explico. Trump precisa de milhões de dólares para pagar os processos judiciais e recontagens para que possa ter chances de vencer a eleição. Ele, milionário, poderia gastar seu dinheiro nesse intento, mas ele irá preferir continuar fazendo eventos e discursos para conseguir arrecadar de seus fiéis apoiadores o recurso para isso. Pessoalmente, acho justo.

A realidade indigesta é que, mesmo com Trump se negando a admitir sua derrota, algumas pessoas de seu círculo pessoal já o aconselharam a conceder, como sua filha Ivanka e seu esposo, Jared. Hoje, segundo conversas privadas enviadas ao site Axios “duas pessoas familiarizadas com o assunto” afirmam que o presidente já cogita concorrer às eleições presidenciais de 2024. Isso seria um reconhecimento, pelo menos parcial, da perda nas urnas.

Sendo assim, vencendo ou perdendo, Trump continuará sendo o principal influenciador do partido republicano. Como um vencedor em toda sua vida, é muito difícil acreditarmos que ele aceite sair da história derrotado e humilhado, pela porta de trás. Tudo indica que ele, ou seus filhos, ou seus seguidores, tendam a tentar influenciar o partido republicano. E não seria impossível visualizarmos um cenário onde Trump possa vencer as primárias republicanas e ter uma revanche contra Biden em 2024. Contudo, o partido republicano precisa entender que, se quer voltar ao poder, precisa usar mais a cabeça e menos o coração. Nem sempre o candidato mais querido é aquele com mais chance de vencer. É possível que Trump permaneça popular e de fato seja a melhor opção para 2024. Assim como também é possível que ele não seja a melhor opção e que seja melhor um nome mais novo. De qualquer forma, uma coisa é certa. Uma hora ou outra o partido republicano saberá escolher se o trumpismo deve ou não continuar em voga. Isso é certo, já que nada ensina mais um partido sobre quais rumos seguir no futuro que derrotas eleitorais.

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