Por que achei The Last of Us 2 melhor que o primeiro


Quando o primeiro foi lançado, em 2013, eu não tinha mais tempo pra jogar videogame, tampouco dinheiro para comprar um PS3. Por isso, eu só tomei conhecimento do jogo em 2014, quando uma pessoa recomendou que eu ao menos acompanhasse o gameplay pelo youtube.

Resumindo, no início do jogo há um outbreak “zumbi” (os inimigos do jogo não são zumbis, mas infectados por um fungo), onde Joel perde sua filha Sarah após um soldado receber ordens de matá-los. Depois de 15 anos, Joel tornou-se um ser frio e sem vida, que vive traficando mercadorias numa base de Boston. Ele e sua parceira Tess recebem a proposta de levar uma menina para uma outra base, do outro lado do país.

A menina, Ellie, é imune ao fungo, mesmo após ser mordida por um infectado. Por isso, Joel deve levá-la até os vagalumes para que estes consigam extrair dela uma cura e salvar o mundo da praga da qual eles estão sofrendo. Com o passar da história, Ellie e Joel começam a desenvolver um relacionamento quando um salva o outro por diversas vezes. Aos poucos, Joel passa a ver em Ellie a filha que ele perdeu no passado.

Ele, que era tão resistente ao criar vínculos emocionais a alguém num mundo em que a qualquer momento as pessoas tem fins trágicos, criou uma proteção interna para evitar traumas futuros. Mas ele não resiste e assume uma postura paterna em relação a Ellie. No final da jornada, quando ele entrega Ellie para que os vagalumes a operem, Joel decide resgatá-la. Descumpre sua promessa e mata todo literalmente todo mundo saindo com Ellie, ainda dopada, em seus braços.

Quando ela acorda, ele mente para ela dizendo que a operação não ocorreu e dá uma desculpa esfarrapada para Ellie, que finge acreditar. O jogo termina de forma a questionar qual seria o futuro do elo de confiança entre os dois e o final fica em aberto.

Quando foi lançado, o jogo recebeu muitas críticas de jogadores que queriam ter a opção de não libertar Ellie no final e de assim tentarem salvar o mundo. Muitos alegaram que Joel foi egoísta, mas creio que qualquer jogador que era pai entendeu bem o que Joel fez no final. Para um pai, salvar o seu filho nunca é uma “opção”.

Logo, para entender o primeiro TLOU era necessário ter uma maturidade que boa parte do público não tinha. Não por acaso, sempre escuto pessoas que, ao jogarem esse jogo depois de alguns anos têm sensações completamente mais profundas e conseguem absorver melhor as nuances da mensagem.

TLOU não é um jogo de “zumbis”. É uma história de amor entre um homem e uma mulher. Uma história de redenção. Uma história de segunda chance. Uma história familiar, na qual um homem perdido se encontra ao descobrir a pureza da vida pelo olhar de uma criança. Ele contém uma forte mensagem de esperança na humanidade. A relação paterna entre os protagonistas é algo com que a maioria das pessoas consegue se conectar e por isso é um jogo que não poucas vezes nos emociona.

Partindo daí, resolvi “youtubar” o segundo TLOU. Na minha primeira assistida, eu me senti mal. Muito mal. O jogo me provocou muito desconforto, raiva, impotência. Senti que o segundo desconstruía boa parte do que o primeiro tinha feito. Definitivamente não era a história que eu queria ver. Creio que a história agradaria a todos caso continuassem a saga de Joel e Ellie fugindo dos vagalumes ou de outras facções, e que durante essa aventura eles poderiam evoluir a relação deles e tratar melhor a questão da mentira por ele contada no final do primeiro.

Os produtores largaram essa narrativa segura para mergulhar num terreno muito perigoso. TLOU 2, diferente do primeiro, não é para todos. A começar pela sexualidade da protagonista, muitos jogadores não se sentem a vontade em controlar uma personagem lésbica. E nem é por preconceito. Simplesmente eles não veem como a menina que eles adoraram proteger pode quebrar as expectativas deles e se tornar lésbica. Imagino que as mesmas pessoas que não gostaram disso seriam as mesmas que ficariam frustradas ao descobrir que sua filha está saindo com meninas.

O jogo recebeu fortes críticas pela presença de personagens trans. Hoje em dia, parece que existe uma percepção de que incluir personagens LGBT´s em jogos por representatividade seria lacração. É importante denotar que no primeiro jogo já há um personagem gay, mas ele é tão bem construído que sua sexualidade é algo praticamente irrelevante e basicamente imperceptível para a maioria. Por isso mesmo isso não foi ponto de polêmica. Acho que o segundo jogo teria causado bem menos mal-estar caso não tivesse deixado explícita a homossexualidade, mas não parece que TLOU tem o objetivo de evita mal-estar. Muito pelo contrário.

Uma das principais acusações feitas ao jogo seria a que ele aderiu a “lacração”. Para muitos, ele teria deixado o foco da história principal para focar em pautas de inclusão, representatividade e para ensinar uma lição politicamente correta aos seus jogadores “preconceituosos”. A verdade é que os jogadores não compram jogos para ter um debate sobre direito das minorias e sim porque querem diversão. Se eles querem um jogo lacrador, que façam um novo e não destruam a história que todos teriam aprendido a amar.

Um outro ponto que as pessoas odiaram na história é que Joel é torturado e morto. Ele morre de forma idiota, revelando seu nome para uma estranha, algo que ele jamais deveria fazer. Outra coisa que eu mesmo detestei é ter que ver o seu personagem favorito torturado e morto para depois ter que passar mais de 10 horas do jogo controlando Abby, a pessoa que a matou. Eu detestei tudo sobre a Abby. Foi simplesmente impossível pra mim pegar empatia por ela.

Por fim, no final do jogo, no momento em que Ellie finalmente tem a oportunidade de se vingar da morte de Joe e matar Abby, ela simplesmente deixa ela ir embora. Sim. Isso mesmo. Nem mesmo a vingança por Joe nós temos.

A minha primeira impressão do jogo foi dividida. No meio do turbilhão de emoções pelas quais o jogo me fez passar eu precisava de um tempo para depurar aquilo que eu havia visto. Após reassistir pela segunda e terceira vez, muito do sentimento de ódio que eu estava sentindo se dissipou e eu pude perceber melhor sobre o que era o jogo que eu estava assistindo.

TLOU 2 é um jogo sobre ódio e sobre o que ele faz com você. Ele te faz desperdiçar coisas maravilhosas da vida, uma vez que ele te cega. O mesmo ódio que faz com que milhares de pessoas nem queiram entender melhor o jogo é o mesmo que motiva Ellie a perseguir seu plano trágico de vingança.

Caso o jogo terminasse com Ellie vingando Joe e matando Abby, o jogo seria mais uma ode à vingança que justificaria todo o ódio por ela sentido. Esse seria um final que todos gostariam, mas ele deixaria de nos ensinar uma lição valiosíssima acerca da vingança. No jogo vemos que ao perseguir o caminho do ódio, Ellie não só não recupera Joe de volta mas apenas perde mais amigos e ela mesma no meio do caminho. Se no primeiro TLOU vemos Joe se encontrando através de Ellie, no segundo vemos Ellie se perdendo em busca da vingança por Joe.

Durante a minha segunda e terceira visita ao jogo, meu ódio por Abby se diluiu e pude apreciar melhor suas motivações. Pude realmente entender porque ela fez o que fez e que ela, após evoluir ao se deparar com o personagem de Lev. Ao desenvolver uma relação paternal com Lev Abby entende o que Joe fez.

Ela entendeu que sua vingança contra Joe custou um preço muito alto e ela percebeu que a vingança não compensa. Por isso ela resolve poupar Ellie e a história recompensa sua piedade, uma vez que, por ter poupado sua algoz, ela é futuramente salva por essa mesma. Em contraponto, Ellie poderia ter aprendido que a vingança não compensa, mas ao dar vazão ao seu sentimento odioso acaba perdendo sua família e seus dedos, além de ficar incapaz de tocar o violão, que era a sua maior lembrança de Joe. No final, a vingança tirou tudo dela, até as lembranças da pessoa que ela mais amava.

TLOU pode até ter me deixado com uma ligeiríssima vontade de ter um filho, mas não passou de um divertimento dotado de alguma reflexão. TLOU 2, diferentemente, ensinou-me uma dura lição. Eu, graças a esse jogo, pude sepultar fantasmas do meu próprio passado e, após ver o que aconteceu com Ellie, eu definitivamente aprendi a aceitar as tragédias da vida, entendi que toda a história tem dois lados, que é importante me colocar no lugar dos outros, inclusive dos meus inimigos, e que mesmo decisões moralmente certas têm suas consequências. Essas são lições duras que requerem muita maturidade para assimilar.

Sim. O jogo me deixou mal. Ofereceu-me péssimas sensações. Porém, pelo menos pra mim, essa lição foi muito maior que qualquer sensação.

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