Trump reeleito?


Todos nós temos alguma atividade que gostamos de fazer nas horas vagas. Algumas pessoas gostam de transar. Eu gosto de acompanhar a política americana. Por mais que não seja algo tão excitante, ao menos não é algo suscetível a DST´s. Pelo menos não por enquanto.

Confesso que quando comecei a acompanhar política americana os tempos eram outros. Para vocês terem alguma ideia, havia uma crise financeira cobrindo o planeta, o presidente republicano era pessimamente avaliado abaixo dos 30% e havia um candidato negro que era o queridinho de todos na mídia. Eram dias ingratos para ser um “conservador” ( termo que eu usava na época para me definir).

Como um belo imbecil, diariamente, ao invés de ver algum vídeo de banheira de Nutella no Youtube ou algum vídeo novo de interracial da Sasha Grey no XVIDEOS, eu passava minhas noites acompanhando o “idôneo e imparcial” canal de TV FOX NEWS. Lá, durante anos a fio, eu aprendi que o Obama era socialista e malvado e que os republicanos eram bonzinhos. Sim, nesse nível de profundidade.

Acompanhar política americana parecia muito mais legal que consumir notícias daqui do Bostil. Na época, Lula tinha 80% de aprovação e eu era um dos únicos anti-petistas fanáticos que eu conhecia. Ademais, não havia ninguém para trocar ideia sobre política americana. Sempre que eu comentava isso em conversas eu conseguia notar aquele ar de ignorância no interlocutor, como se ele não fizesse ideia do que eu estava falando.

Recordo-me que em 2012 eu estava numa sala virtual jogando poker, e por algum motivo, a conversa descambou para as eleições. Todos ali eram americanos – e democratas. Um deles, negro, era o mais agressivo contra mim, fazendo questão de dizer que tudo o que estava falando era merda. Mesmo tendo sido esculachado, eu fiquei feliz de poder ter conversado sobre um assunto que a tanto tempo estava entalado na minha garganta.

Anos mais tarde, conheci uma americana. A primeira coisa que fiz ao vê-la foi conversar sobre o cenário político, as eleições, os candidatos cotados nas primárias. Ela ficou surpresa de eu saber o nome de vários senadores e confessou que sabia muito menos desse assunto que eu.

Bem ou mal, os dias de solidão acabaram. De uns anos pra cá acompanhar política americana ficou POP nos círculos direitistas brasileiros. Isso não necessariamente foi percebido como positivo pela minha pessoa. Durante décadas, eu sempre torci e apoiei político conservadores centristas ligados ao establishment do partido, enquanto desprezava populistas fanfarrões ultra-ideológicos. Essa minha visão centrista se dava porque, com o passar dos anos, eu passei a consumir várias fontes de informação, com pluralidade ideológica, e não somente fontes de “direita”.

Em 2016, eu estava bastante atuante num site chamado REDDIT. Lá, eu acompanhava e debatia sobre as primárias americanas. Um belo dia, numa discussão, uma pessoa me respondeu me chamando de macaco e me mandando voltar para a África. Achei aquilo super estranho. Como a pessoa sabia que eu era negro? Por que ela estava me atacando de forma tão baixa e virulenta? Mal eu podia imaginar, mas o reddit naqueles dias estavam sendo infestados de Trolls ligados a Alt-Right, gente vinda de fóruns online sem o menor pudor de fazer piadinhas racistas e antissemitas.

Por incrível que pareça, esse mesmo comportamento que me chamou atenção em 2016 no reddit hoje chegou no meu twitter. No passado, grupos extremistas eram escanteados pela direita, mas com a ascensão da polarização, o discurso anti-esquerda de extremistas passou a ser tolerado pelos moderados.

Nas primárias de 2016, meu candidato de escolha, Marco Rubio, foi massacrado pelo furacão daquele ano, Donald Trump, alguém por quem sempre nutri muita simpatia ATÉ entrar na política. Os ataques sórdidos e as mentiras descaradas de Trump naquela primária fizeram-me associá-lo as piores pessoas que já conheci na minha vida. Simplesmente, após a sua nomeação, sequer torci por ele na eleição geral, ao contrário de milhões de brasileiros entusiasmados que vibraram com sua eleição “histórica”.

Durante todo o mandato de Trump, tentei observá-lo de forma analítica. Percebo que ele conseguiu ser mais ideológico que Obama e que surfou muito bem na melhora da economia, que começou já nos anos Obama mas que se intensificou na sua chegada e posterior corte de impostos. Trump, que criticava seu antecessor pelos déficits por ele alcançados, acabou gerando déficits ainda maiores.

Trump revogou o acordo do clima, o acordo nuclear com o Irã, o acordo com Cuba, travou a Parceira Trans-Pacífico e mergulhou numa audaciosa guerra fiscal com a China. Nenhum outro candidato teria feito isso, e o tempo dirá se foram decisões corretas ou não. Já para os ideólogos, não basta análise alguma. Se ele fez, está correto e ponto final. O ponto é que Trump, mesmo com a economia bombando e em pleno emprego, nunca conseguiu se manter com 50% de popularidade.

Durante a maior parte do seu mandato, a popularidade de Trump ficou próxima de 45%. Num país em que o voto não é obrigatório, isso é mais do que suficiente para se reeleger. Boa parte dessa baixa avaliação se dá pelo fato da polarização e do caráter divisivo do presidente, porém eu creio que o principal viés tenha sido os ataques da mídia. Com números tão bons, seria natural que ao menos nas pesquisas de órgãos republicanos ou da Fox News, que sua popularidade chegasse aos 60%.

Olhando os mapas eleitorais, percebe-se que Trump afastou dos republicanos o voto dos brancos escolarizados. Nas eleições de 2018, um padrão se repete. O partido perde votos em subúrbios povoados por brancos escolarizados ao mesmo tempo que ganha MAIS votos de rednecks e homens idosos. Isso é negativo, uma vez que nas zonas rurais, onde os republicanos já ganhavam, hoje ganham por margens maiores. Entretanto, em regiões suburbanas, onde ganhavam por pouco, passaram a perder. Isso foi responsável pela perda de cadeiras no Congresso.

Para o conservador brasileiro, que consome apenas mídia conservadora e está preso na narrativa “conservadora”, Trump é o maior presidente da história dos EUA. Não raramente, escuto gente alegando que ele vencerá de lavada. Isso, no momento, não passa de wishful thinking causado por viés de confirmação.

Eles confundem aquilo que eles querem que aconteça com o que realmente está acontecendo. E como só consomem notícias positivas, tendem a resumir a opinião do americana a do Red Neck cristão que segura uma bíblia numa mão e uma arma na outra. Como sabemos, os EUA são muito mais complexos que isso.

Tendo isso em consideração, irei pontuar alguns motivos pelos quais acho que Trump está em apuros. E digo isso baseado em pesquisas. Sei que para muitos as pesquisas não são confiáveis, mas muitas dessas pesquisas são de institutos republicanos.

1- Até mesmo o IBD, o único instituto que apontou a vitória de Trump em 2016, hoje aponta vitória democrata.

2- O número de americanos que diz que o país está na direção errada é de 66%

3- Nas dezenas e dezenas de pesquisas realizadas no ano passado, Donald Trump liderou Joe Biden em exatamente quatro delas.

4- Joe Biden é o político democrata vivo mais famoso que não é ex-presidente. Ele é uma figura nacional há 40 anos. Ele é o último vice-presidente democrata. A maioria das pessoas também sabe o que pensa dele. Sua rejeição é menor que a de Hilary em 2016.

5- O índice de aprovação de emprego de Trump tem sido significativamente subaquático, com seu número total de aprovação raramente chegando a 43%. Esses números também foram notavelmente estáveis.

6- O número pessoal de Trump – e não a aprovação do cargo – tem sido negativo em toda a administração, com um spread médio de cerca de -15. Ele é atualmente um líquido -13. Biden está -1,4.

7- A liderança das pesquisas de Biden sobre Trump é a maior e mais durável vantagem que qualquer desafiante já teve sobre um presidente em exercício desde o advento das pesquisas modernas.

8- Hoje, no site RCP, agregador de pesquisas, Trump perde em TODOS os swing states, por margem pequena, mas levando em consideração que ele precisa de alguns deles, o cenário é muito desvantajoso. Ao mesmo tempo que ele aparece atrás na Flórida, estados que nunca foram democratas aparecem empatados, como Texas, Arizona e Georgia. Até Utah e Missouri, estados notoriamente republicanos, Trump detém uma margem apertada de vantagem. Enquanto isso, em estados que votaram democrata em 2016, Trump não aparece apertado em nenhum.

9- Trump tem um grande problema. Na verdade, dois. O principal é a economia, que era seu grande trunfo. Com ela bem, Trump tinha sua reeleição garantida. Mas com o número de desempregados elevado fruto do COVID, é possível que boa parte do ânimo do eleitorado se reduza, e uma alta abstenção favoreceria os democratas.

10- A crise do COVID, inicialmente considerada por Trump como FAKE NEWS, fez record de mortes nos EUA e avança atualmente para estados conservadores, onde deve ser ainda mais fatal, levando em consideração que lá não existe sistema público de saúde em muitos estados (como Texas, Flórida e Georgia), quem não tem plano de saúde (milhões de pobres americanos, muitos dos quais, rednecks), estão ferrados. Some a isso os péssimos hábito que o americano médio possui e tudo indica que até Novembro a COVID matará muito mais gente. Hoje 60% dos americanos desaprova a ação do governo em relação a COVID.

11- As tensões raciais podem ser um vetor pró-Trump nessas eleições, caso os protestos fiquem violentos. Sua retórica de Lei e Ordem pode trazer milhões de eleitores de classe média para ele. No entanto, ainda é cedo para fazer conclusões. Hoje, 66% desaprovam a resposta de Trump em relação a morte do americano George Floyd. Tais protestos podem aglutinar boa parte do eleitorado negro para Biden.

Sendo assim, por mais que tudo indique uma eleição acirrada, dentro do colégio eleitoral, há chances do eleitorado negro fazer a diferença em estados como Flórida, Geórgia e Ohio. E perdendo apenas um desses 3 estados as chances de Trump se tornam diminutas. Logo, se eu pudesse apostar dinheiro nessa eleição, apostaria no Biden. Cobrem-me.

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