COMO ERAM AS MULHERES DE ANTIGAMENTE


De todas as músicas que eu já escutei, apenas uma me faz chorar toda vez que eu a escuto. Sempre que ouço Ai! que saudade da Amélia (1942), escrita pelo comunista Mario Lago, não tenho como não lembrar de um tempo que já existiu e que infelizmente não voltará nunca mais. Tempo esse que eu só tive alguns resquícios pelo contato e histórias da minha avó Helena Knuth, cujo sobrenome orgulhosamente carrego.

Ela, que na verdade não era minha vó biológica – havia adotado minha mãe -, compartilhou pouquíssimos anos nessa vida comigo. Morreu com 78 anos, quando tinha apenas 8 anos, porém recordo muito bem dela porque ela contava muitas histórias sobre como era a vida na primeira metade do século 20. Os costumes, os tabus, os preconceitos, tudo naquela época parecia ser mais romântico.

Minha vó nasceu em 1918 e era uma descendente de alemães criada em Laranjeiras, no Rio de Janeiro. Filha de uma dona de casa (Catarina) que tivera 10 outros filhos e de um pai (Delfim), dono de uma pequena fábrica de pneus. Naquela época as mulheres tinham muitos filhos e eram criadas desde cedo para serem boas mães. Diferente de hoje, praticamente toda as meninas já novas aprendiam a cozinhar, lavar, passar, costurar, etc. Com minha vó não foi diferente. Ela estudava num colégio de freiras (Colégio Providência, já fechado) e frequentava DIARIAMENTE as missas da Igreja do Largo do Machado, juntamente com sua família. A vida, segundo ela, era permeada por um misto de inocência e simplicidade.

Aliás, a praça do Largo do Machado, hoje um ponto repleto de moradores de rua, pedintes e cracudos, naquela época era um lugar familiar, onde os homens frequentavam de terno, gravata e chapéu. Naquela época, segundo minha vó, todos se conheciam pelo nome. Parece bizarro como a simples ida a uma pracinha encontrar conhecidos e papear era tão valorizada no vestuário. Até o mais pobre dos cidadãos não saia de casa sem seu terninho. As pessoas faziam questão de se vestir com dignidade.

1- AMARRANDO CACHORRO COM LINGUIÇA

As mulheres naquela época não ficavam expondo os corpos como hoje em dia. Por sinal, até mesmo as prostitutas daquela época se vestiam com mais decoro que as modernetes atuais. Havia inclusive o hábito das mulheres vestirem vestidos de veludo, super calorentos pro nosso clima, como as atrizes do cinema da época.

Naquela época já haviam vagabundas, mas diferente de hoje, em que são estimuladas pela cultura e legitimadas pelo feminismo, as “mulheres de má fama” sofriam severo preconceito e uma dificuldade enorme para conseguirem um bom partido. Mulheres honradas evitavam andar com as de má fama para não ficarem mal faladas e essas também evitavam convidá-las para eventos sociais.

O homem fazia questão de conhecer o passado da mulher que estava cortejando, e se descobrisse que ela já havia sido deflorada, ele terminava tudo na hora. Minha vó tinha várias histórias de conhecidas que tiveram sua reputação manchada e tiveram que mudar de cidade para prosseguir na vida. Não era incomum também histórias de mulheres que engravidavam e, para não terem suas vidas destruídas, viajavam para não serem vistas na gravidez, e então entregavam a criança pra adoção.

Antigamente o que pensavam de você contava muito. E isso valia tanto para homens como para mulheres. A honra e a palavra de um homem eram coisas sagradas. Muitas vezes negociações eram feitas “no fio do bigode”. Pra simbolizar o comprometimento, muitos homens tiravam um fio do seus bigode como garantia que cumpririam um contrato.

Já a honra era algo que nenhum homem queria perder. Caso um rapaz engravidasse uma moça, o pai, por mais pobre e fuleiro que fosse, achava-se no seu direito de ameaçar o cara de morte caso ele não quisesse casar com a filha dele. Os pais sabiam que a menina, grávida, não teria como conseguir um marido e então faziam de tudo para que o cara que a engravidou assumisse sua filha.

Agora, talvez a principal diferença de hoje seria a questão da traição. Ela já acontecia, não de forma natural e desenfreada como hoje, mas acontecia. A diferença é que hoje o cara descobre que virou corno e fica tudo por isso mesmo. Alguns até aproveitam a situação pra virar cantor de gadonejo. Já naquela época era completamente aceitável que um cara matasse a mulher que o traiu. Creio que esse próprio medo já era suficiente para que muitas infiéis pensassem duas vezes antes de cornearem seus maridos.

Parece difícil acreditar, mas naquela época era possível um homem comum, que não era bonito ou rico, encontrar uma moça virgem para ser sua esposa. O risco de divórcio era mínimo, pois havia um preconceito enorme contra mulheres divorciadas e a própria religiosidade, que na época ainda era levada a sério, obrigava a mulher a permanecer com o marido, não podendo ela sequer comungar caso se separasse. A separação do marido equivaleria a separação da comunhão com Cristo. Ademais, as leis não eram como as atuais. A mulher, sem independência financeira, não tinha direito a pensão alimentícia caso se separasse, tampouco poderia expulsar o marido da própria casa acusando-o falsamente de agressão ou estupro.

2- A HISTÓRIA DA VOVÓ

Pois bem. Nem tudo eram flores também. E a minha família é a prova disso. Meu bisavô Delfim, depois de alguns anos, tornou-se alcoólatra e agressivo, passando a gastar seu dinheiro todo na bebida e com jogo. O que minha bisavó Catarina fez? Ela assumiu o controle da família, passando a trabalhar como parteira para ajudar nas contas. Também pôs os filhos maiores pra trabalhar (naquela época o trabalho infantil não era ilegal). Aos trancos e barrancos, ela conseguiu com muito esforço fazer a família continuar de pé mesmo depois que meu bisavô, endividado, teve de vender a fábrica.

E como qualquer história do Nelson Rodrigues, famílias grandes sempre eram vítimas de alguma tragédia. Uma das irmãs da minha vó morreu pequena, de sarampo. Outros filhos não sobreviveram ao parto. Tinha um que devido a um problema de má gestação, ficou aleijado numa época em que não havia cadeira de rodas. Um dos irmãos dela, Carlos, era sempre tema das histórias, pois ele era sensitivo. Segundo minha vó, ele conseguia adivinhar acontecimentos antes deles acontecerem, o que a deixava abismada. Carlos conseguiu adivinhar até a idade da própria morte. Ele, com 17 anos, morreu de uma infecção na garganta após beber num copo sujo num bar.

Por mais que a vida fosse difícil, as dificuldades eram encaradas em família. Um apoiava o outro e ninguém deixava ninguém pra trás. O respeito à figura dos progenitores era algo inquestionável e o filhos pediam a benção dos pais, beijando a mão deles assim que chegavam em casa.

Minha vó Helena sofreu bastante. Devido a falência do seu pai ela foi obrigada a trabalhar numa fábrica pra ajudar a família. O problema é que existia um preconceito violento contra mulheres que trabalhavam. Elas eram preteridas pois achava-se que as mulheres que trabalhavam eram mais suscetíveis a trair e a se divorciarem. Ela apenas conseguiu se casar com 20 anos, uma idade muito tardia para aquele contexto, com um padeiro chamado Fidelix.

Segundo minha vó, os primeiros anos de casamento foram os melhores da vida dela. Mesmo pobre, seu marido era um homem bom. Ela parou de trabalhar e passou a cuidar apenas de casa, sendo que ela contava que conviver com o Fidelix a fez feliz pela primeira vez na vida. Ela dizia que era como se a vida dela só tivesse começado quando eles se conheceram. Ele era extremamente carinhoso, gostava de cozinhar pra ela e de fazer todas as suas vontades.

Infelizmente, os anos foram passando e minha vó não conseguia engravidar. Isso começou a virar um problema porque o Fidelix queria ter filhos. Naqueles dias havia uma pressão social enorme entre os homens para que esses casassem e tivessem filhos. Um homem muitas vezes só era respeitado quando fosse visto como um chefe de família. Aconteceu que um dia o Fidelix ficou doente e sua família pegou ele e levou para morar com eles em outro estado. Aquilo foi o fim da relação deles. Minha vó se viu sem ninguém, sozinha, abandonada, e como não trabalhava acabou sendo despejada, tendo que voltar pra casa dos pais com 30 anos de idade.

Quando minha vó tinha 40 anos, sua mãe, Catarina, começou a ficar muito doente. Ela ficou desesperada e começou a ir em várias igrejas a procura de um milagre. Numa delas, um pastor disse que alguém estava ali porque a mãe estava doente, que ela havia sido abandonada pelo cônjuge e que Jesus tinha um grande obra pra fazer na vida dela. Fragilizada, minha vó se converte a Igreja Assembleia de Deus de Madureira, em 1958. Como estava na pior, minha vó então passa a fazer trabalhos domésticos nas casas de umas senhoras da igreja em troca de uns trocados ou de um prato de comida.

Nesse tempo, ela conhece Joaquim, um senhor cearense da mesma igreja, que trabalhava vendendo água sanitária e estava noivo de uma outra senhora. Ela, precisando de dinheiro após a morte dos seus pais, oferece o aluguel de um dos quartos da sua casa pra ele, que aceita e logo depois eles passam a viver como casados até o fim da vida. Com os anos, minha vó tornou-se dirigente do círculo de oração da igreja, alcançando uma posição de prestígio e destaque dentro da igreja.

Mesmo casada e com um cargo elevado na igreja, ainda faltava a minha vó realizar o sonho de ser mãe. Com 51 anos ela descobre uma menina de 2 anos de idade, filha de uma ex-prostituta com fortíssimas sequelas psicológicas e incapaz de cuidar da criança. Minha vó Helena resolve criar essa menina como se fosse sua filha, com todo amor e carinho. Essa menina era minha mãe.

Em 1985, poucas semanas depois de ter a alegria de ver a sua filha se casar na igreja de véu e grinalda, meu avô Joaquim é atropelado e deixa minha vó Viúva. Eu nasci em 1988 e nos primeiros anos da minha vida ia todo dia na casa da minha vó Helena, onde passava os dias escutando suas histórias saudosistas de como “tudo era melhor no meu tempo”.

Um dia, alguém bate no portão da minha vó e bate palmas. Era um senhor muito bem vestido, magro, de terno e gravata, bem idoso. Ela vai ver quem é, já que ela costumava receber visitas da igreja todos os dias. Quando ela abre o portão ela reconhece o Fidelix, depois de mais 40 anos. Ele havia ido num enterro de um amigo e resolveu ver se ela ainda morava ali. Minha vó a primeira vista ficou constrangida. Ela estava mal vestida e não tinha mais o corpo da sua juventude, enquanto que o Fidelix, tirando as rugas e os cabelos brancos, era o mesmo. Os dois conversam rapidamente. Ela pergunta como ele estava e o que se passou com ele nesses anos e descobre que ele conseguiu formar a família que ele queria. Ele então se despede dela. Aquela foi a última vez que ela viu aquele que sempre disse ter sido o maior amor da sua vida.

Em 1996, Helena sofre um infarto e, como não tinha nenhum plano de saúde, é internada num hospital público onde passa por muitos maus tratos e dores escruciantes, chegando a ser amarrada na cama. Seu quadro piora rapidamente. Quando minha mãe e as pessoas da igreja a visitam, ela já não reconhecia ninguém. Não sabia quem era a sua filha que havia criado desde pequena nem os irmãos da igreja que convivera por décadas. Minha mãe então pergunta se ela lembrava de mim, já que ela era tão apegada a mim, e minha vó diz que não me se lembrava. No entanto, quando minha mãe lhe perguntou se ela ainda se lembrava de Jesus ela e a olhou nos olhos e disse que Jesus sempre estaria com ela.

Minha vó morreu naquela semana. Ela nunca se esqueceu de Jesus. Mesmo não sendo minha vó biológica, tirando meus pais, foi o parente que eu mais nutri afeto na minha vida. Foi ela a principal responsável não só pela criação da minha mãe mas também por incutir os valores que até hoje eu carrego.

3- CONCLUSÃO

Todas as vezes que escuto alguém dizer que nenhuma mulher presta, não apenas penso na minha mãe, mas na minha vó Helena e na minha bisavó Catarina. Essas mulheres de antigamente, diferente das modernetes que só querem sugar o que temos e depois nos descartar, eram mulheres que valiam a pena se casar. Mesmo na pobreza, mesmo na doença, mesmo quando traídas, mesmo humilhadas, mesmo quando o marido não valia nada, elas não deixavam de cumprir o papel delas. Foram mulheres que se sacrificaram e fizeram tudo o que podiam em prol da família, e por isso sempre serei eternamente grato a todas dessas que existiram e que ainda restam por ai.

Hoje a nossa sociedade doente vilaniza a mulher que se preserva para o casamento e decide deixar de trabalhar para priorizar a família. E pior. O que é incentivado é a figura da mulher que prioriza apenas a si mesma. Se o relacionamento está em crise, ao invés de estimularem perseverar, as amigas fazem a cabeça pra pedir o divórcio. Ainda pregam que a mulher não pode ser julgada pelo seu passado, ou presente, podendo ela dar pra vários machos sem camisinha que você não tem direito de dar um pio.

E é pensando nisso que lembro de uma música que minha vó gostava muito, que é Ai que saudades da Amélia, na voz de Nelson Gonçalves. As feministas odiavam essa música por acharem ela uma ode a submissão feminina. Não, as Amélias não mereceram essa música por se rebaixarem a ninguém. Elas mereceram, porque diferente das feministas, na hora das dificuldades, ao invés de criticarem e virarem as costas, as Amélias davam apoio. Diferente das modernetes, que amam enquanto podem dar-lhes algo, as Amélias amavam seus maridos incondicionalmente.

Que me desculpem as modernetes, mas pra mim, as Amélias continuam sendo as mulheres de verdade.

 

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