Dragon Ball Super Broly: Livre arbítrio contra Determinismo


Estava vendo um vídeo no youtube esses dias e fiquei bastante interessado pela análise do novo filme do Dragon Ball. No filme, são contadas as histórias de origem de dois personagens, Goku e Brolly. Enquanto que Goku foi enviado a Terra para ser salvo da destruição de seu planeta, depois sendo amparado e criado por seu avô, que lhe deu carinho e educação, Broly, como todo guerreiro sayajin, foi criado para oprimir os mais fracos e pra vingar a destruição do seu planeta.

Durante o prosseguimento da história, quando Goku e Broly entram em confronto, o que realmente está sendo debatido são duas diferentes noções, a do livre arbítrio e a do determinismo.

Se Goku possui a mesma raça de Broly, por que ele é bom quando poderia seguir o caminho do seu povo sendo mal? Para alguns, a bondade de Goku é fruto de sua mera opção pelo bem; para outros, ela é consequência dos valores sob os quais foi criado. Seguindo essa linha de raciocínio, Broly, ao ter sido criado para ser ruim, é determinado para ser mal, não tendo sequer a opção de ser bom, uma vez que seu cérebro aprendeu a raciocinar sem as variáveis às que Goku foi submetido.

Esse debate pode parecer bobo — e é -, mas essa é uma questão importantíssima na nossa sociedade, principalmente se fazemos julgamentos de valor sobre outras pessoas. Se acreditamos no livre arbítrio, cremos que bandidos cometem crimes simplesmente porque quiseram; já se acreditamos no determinismo, cremos que os bandidos foram condicionados à cometerem crimes por fatores a eles impostos totalmente fora de seu controle, não tendo portanto, total culpa pelas suas ações.

No Brasil, o determinismo baseia a ideologia de “direitos humanos” defendida pela esquerda, ao passo que o “livre arbítrio” é uma das colunas do pensamento da direita que quer encher a cadeia de bandidos. Não por acaso, o catolicismo, principal moldador da nossa cultura, tem no livre arbítrio seu cerne.

Por perceber que existem injustiças que ficam impunes nesse mundo, o catolicismo acredita que no além-vida um Deus todo-poderoso irá fazer justiça, castigando os maus e recompensando os bons. Só que, como condição senequanon para que haja esse julgamento, é preciso que haja arbítrio por parte das pessoas, pois se não houvesse livre arbítrio e fôssemos apenas “robôs” pré-determinados a fazermos atitudes previamente delimitadas pelo destino, não haveria culpa para que fôssemos julgados.

O problema do Livre Arbítrio é que, ao sermos submetidos a regras morais IGUAIS PARA TODOS — aqui vale o mesmo para as leis ou para os mandamentos religiosos — , sendo que somos submetidos a condições de nascimento DIFERENTES E ÚNICAS PARA CADA INDIVÍDUO, ao não se mensurar essas diferenças de contexto, o julgamento é injusto. 

Se alguém cresceu num lugar em que não sabia que algo era errado, ou que esse algo lhe foi ensinado, sendo parte de sua cultura, ou até mesmo que essa pessoa tem um impulso involuntário de fazer esse algo, essa pessoa não pode ser comparada, sob a égide da moral, com outra que não foi submetida a essas circunstâncias.

Em contrapartida, o problema do determinismo é que ele exclui por completo as nossas responsabilidades pelas nossas atitudes, dando assim uma “desculpa convincente” para que termos nossos defeitos e sermos quem somos, o que pode impedir que possamos nos libertar das circunstâncias a nós impostas e melhorarmos.

Negar a existência ou da influência do livre arbítrio ou da ação do determinismo é cair num purismo complicado, uma vez que um não necessariamente anula o outro (compatibilismo). Uma pessoa pode decidir roubar algo de alguém por simples maldade, mesmo que tenha fatores como vício em drogas, alta necessidade, cleptomania, etc. Assim como os fatores sociais negativos na maioria das vezes não motivam a decisão do indivíduo pelo mal, a existência de tais fatores nem sempre é o que de fato motiva suas ações maldosas.

Se o determinismo social fosse algo fatalista, todas as pessoas que nascem em condição de pobreza seriam bandidas — o que sabemos que não é o caso. Logo, por isso os conservadores dizem que essa minoria de pessoas que vem da pobreza e delinquem, fazem-no por opção. No entanto, esses mesmos conservadores que dizem que a pobreza não influencia a entrada de uma criança pobre abandonada pelo pai na criminalidade são os mesmos que lutam para que a ideologia de gênero não seja ensinada nas escolas e que querem impedir ao máximo a doutrinação esquerdista nos colégios. Dizem que ninguém é influenciado pelo meio na hora de decidir ser bandido mas, na hora de impedir o filho de virar gay, ai o meio importa.

Tão hipócrita quanto esses conservadores são os esquerdistas que advogam pelo determinismo e, por isso, são contrários a redução da maioridade penal, pois, para eles, os menores criminosos seriam “vítimas da sociedade”. Pois bem. Esse mesmo esquerdista que defende penas “socioeducativas” para o menor pobre que estupra e mata uma jovem de classe média é o mesmo que defenderá penas máximas caso se descubra que quem matou a vereadora Marielle Franco, símbolo da esquerda, seja menor de idade. Ou pior, alguns querem aumentar as penas para crimes como racismo, violência doméstica e homofobia, mas acham ok que tais crimes tenham penas ínfimas caso o criminoso tiver 17 anos, 11 meses e 28 dias de idade.

Qualquer pessoa racional sabe que uma criança criada num ambiente de extrema necessidade, com altas demandas por bens de consumo e pouco acesso a meios legais de obtê-los, terá muito mais PROBABILIDADE de ser cooptada pelo tráfico que uma criança rica advinda de um lar estruturado. Nesse sentido, qualquer pessoa que queira ser justa, para avaliar a culpa de alguém acerca de uma atitude, deve mensurar que todos estamos sujeitos a casualidade e ao probabilismo.

Voltando ao caso de Broly, ele cresceu num ambiente tão desfavorável que até as pessoas a sua volta usam sua origem como justificativa para suas ações perversas. Apesar disso, o filme, como um belo de um conto de fadas para crianças inocentes, conclui toda essa celeuma de forma simplória, mostrando que ainda que você tenha sido criado numa condição que te motive ao mal, você pode lutar contra sua própria história, reescrevendo um novo começo para a sua vida a partir do momento em que você decida mudar.

A falha desse tipo de raciocínio é que nem todos tem a consciência do porquê de sua maldade, ou aceitam que são maus, ou até mesmo têm condições para reescrever suas próprias histórias. A ideia de “Se o Broly decidiu melhorar, então você também pode” pode ser verdadeira para alguns, mas é extremamente falsa para a maioria. Portanto, se queremos menos Brolys no mundo, não basta apenas induzi-los a refletir e convencê-los dos seus atos, temos que produzir um mundo em que menos pessoas cresçam para virar Brolys.

A decisão é do Broly, e também de todos nós.

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2 comentários

  1. Cara, vc conhece a história dr dragon ball? Ou só viu esse vídeo e o resto supôs?
    Goku quando foi encontrado por Gohan seu avó, era bastante violento e arteiro. Depois de um acidente, onde ele caiu de um penhasco e aterrisou dr cabeça, é que ele ficou calmo. Ou seja, um traumatismo craniano meio que reiniciou sua personalidade. Criado por Gohan, onde realmente teve amor, carinho e gentilezas e que ele de tornou um igual. Todo o tempo o anime/mangá diz que a raça guerreira Sayajin é dotada de atributos físicos e psicológicos voltados para ser um guerreiro. Eles são o tempo todo tidos como selvagens. Até as tecnologias que utilizam era roubada.

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