Precisamos falar sobre Damares Alves


Anos atrás -se não me engano em 2009- estava na igreja, pela manhã, quando fui avisado que nosso culto contaria com a palestra de uma importante militante pró-vida. Eu, como bom cristão, fui obrigado a ver 1 hora de palestra, na qual uma mulher esquizoide fazia terrorismo psicológico desenhando slide após slide um governo demoníaco que queria transformar nossas crianças em LGBT´s, legalizar a pedofilia e aprovar o aborto — vejam só!- para vender os fetos para a indústria farmacêutica.

Já naquela época eu reparei que aquilo era um alarmismo absurdo. E pior. Boa parte dos ali presentes já estavam condicionados a acreditar nesses tipos de baboseiras. Evangélicos são ensinados desde cedo a terem mania de perseguição, muito devido a suas crenças escatológicas de que um dia um “Governo Mundial do AntiCristo” irá persegui-los. Vivem alertas, esperando por uma perseguição que nunca vem. E se o anticristo está demorando, uma hora aparece alguém pra inventar um inimigo imaginário pra que possam massagear seus medos. Por isso gente como Damares pode rodar o Brasil, falando besteiras de igreja em igreja, sendo que eu “NÃO SEI” se essas visitas são cobrada$.

Qual não é a minha surpresa ao descobrir que aquela senhorinha caozeira, dez anos depois, tinha sido apontada pelo nosso líder máximo para ocupar o papel de ministra dos direitos humanos. Na prática, sua indicação teria sido um pedágio que ele pagou ao eleitorado evangélico, que constituiu sua maior base de apoio nas eleições.

Não demorou muito para que Damares virasse notícia. A imprensa, sedenta por criticar o novo governo por qualquer motivo, e com uma longa história de profunda aversão aos evangélicos, viu em Damares uma figura perfeita para que pudessem garimpar, numa de suas milhares de palestras em igrejas evangélicas, declarações polêmicas que pudessem ser tiradas de contexto e usadas contra ela. No entanto, o primeiro tiro saiu pela culatra.

Ao criticarem Damares por uma declaração dita numa igreja, na qual ela disse ter visto Jesus no alto de uma goiabeira, a ministra conseguiu usar essas críticas a seu favor, alegando que esse acontecimento tinha ocorrido devido aos abusos sexuais que sofria quando criança, que a teriam motivado a subir numa goiabeira para se matar. Dessa forma, ao criticarem a alucinação de Damares, a imprensa estava zombando de uma vítima de violência sexual.

Contudo, Damares voltaria às manchetes semanas depois, quando, ao tomar posse, publicou um vídeo no qual dizia “menino veste azul, menina veste rosa”. Tal declaração foi facilmente distorcida e mal interpretada, e muitos alegaram que uma ministra não tinha autoridade para ditar a cor com a qual vestimos nossos filhos. E isso é verdade.

O que creio que ela quis enfatizar com a frase foi uma crítica à ideologia de gênero, que prega que não deve existir diferenciação nos papéis de homens e mulheres. Se a intenção foi essa, é preciso ter boa-vontade para entender o que ela disse, o que certamente a imprensa e a “resistência” jamais terão.

No caso da diferenciação da vestimenta entre homens e mulheres, isso é um forte tabu no meio evangélico. Em algumas igrejas, mulheres não podem vestir jeans, pois calça seria roupa de homem, e vestir roupa do sexo oposto seria contra os mandamentos divinos.

A mulher não usará roupas de homem, e o homem não usará roupas de mulher, pois o Senhor, o seu Deus, tem aversão por todo aquele que assim procede.” Deuteronômio 22:5

Este mandamento, COMO TODOS OS OUTROS CONTIDOS NO VELHO TESTAMENTO, tinha razão prática. À época, o povo hebreu estava peregrinando rumo à terra prometida. E às vezes, na pressa para se arrumarem para a partida, homens vestiam roupas de mulheres e vice-versa. O problema é que, naquela época, não havia modelitos femininos ou masculinos. Homens e mulheres se vestiam de um mesmo tecido, da mesma cor, que tinha função de protegê-los do sol do deserto.

Assim, se a mulher estivesse menstruada ou o homem tivesse ejaculado no manto no dia anterior, e alguém do sexo oposto porventura vestisse tais roupas, isso seria considerado impuro (hoje se sabe que era uma questão mais de higiene do que propriamente religiosa).

Entretanto, tentar explicar coisas simples como essas para alguém como Damares é virtualmente impossível. O Deus de Damares quer que você cumpra seus mandamentos simplesmente porque ele decidiu, assim, arbitrariamente. Na cabeça de fundamentalistas, mandamentos não são frutos de um contexto com o intuito de evitarem mazelas sociais reais, e sim ordenanças divinas perenes, sem qualquer utilidade prática ou nexo positivo de causa e efeito.

Damares é um figura exótica que dará muito pano pra manga nos próximos meses. Por mais que ela seja produtiva em falar coisas que usarão como munição contra ela, creio que esses descuidos possam não ser o suficiente para acarretar na sua saída do cargo. É importante saber que ela está ali como “cota” de agradecimento aos evangélicos, e que se sair, será substituída por alguém com uma agenda semelhante. Ao ser criticada pela imprensa por suas posições evangélicas fundamentalistas, Damares pode ganhar ainda mais moral com a classe que representa e ainda deixar descarada a evangelicofobia da mídia.

Damares é a voz e o rosto de um Brasil que sempre existiu, só que escondido debaixo do tapete, deliberadamente ignorado pela imprensa. E o que a mídia irá aprender nos próximos anos é que nenhuma minoria abandona seu representante se julga que ele está sendo criticado justamente por dizer exatamente o que essa minoria acredita.

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Um comentário

  1. Não entendo por que ela não cala a boca, afinal, ministério é cargo tecnico não palco pra discurso… E sobre a ligação dela com o Malta? Você não explorou muito mas parece-me que ela serve como uma especie de fantoche para não alarmar os contra ele(bem jogado assessoria de Bolsonaro!). belo texto, o mais impressionante: a bosta que ela disse não afeta ninguém(o br médio ta se fodendo para o que um ministro fala) e a lacração também não, apenas um teatrinho estilo regime de corte, puramente superficial…

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