Por que amamos as minorias, mas não os movimentos que as defendem


Esses dias vi um vídeo que me chamou atenção. No vídeo, um ateu militante dizia que o verdadeiro problema do mundo não era o Islã(?) e sim a religião, e que deveríamos lutar pra acabar não só com uma religião mas com todas elas.

Ateus graças a Deus

Ocorree que esse tipo de comentário acaba fomentando preconceito para com a própria classe que ele queria defender: a dos ateus. Por quê? Porque uma coisa é a pessoa não crer em Deus (o que é algo inofensivo), outra é pregar o ateísmo às demais (o que é um direito), outra, bem diferente, é querer acabar com a religião (sempre que isso foi tentado, houve tragédias). Digo isso porque, para acabar com a religião, tem de se convencer todos os religiosos de que creem numa mentira (o que é impossível) ou se tem de perseguir os religiosos. Ao escutar uma coisa dessas, muitos religiosos — que são a maioria — podem se sentirem agredidos e assim verem ateus como pessoas que, se tivessem poder, lutariam contra sua liberdade.

Enquanto luta pelo direito não-crença ateus contam com a simpatia de qualquer pessoa. Ninguém em sã consciência seria à favor que outra pessoa fosse obrigada a crer em algo.

O problema do movimento ateísta — e de qualquer movimento identitário — é quando ele sai da esfera do direito individual para demandar efeitos que impliquem a vida dos outros. Como por exemplo, quando movimentos ateístas no EUA lutam legalmente para impedir que monumentos religiosos sejam construídos, ou que o discurso religioso seja disseminado em ambientes públicos, como universidades. Nesse casos, a liberdade deles de viverem num mundo livre desse câncer que chamam de religião esbarra na liberdade que as pessoas têm de expressar e viverem suas crenças.

Não por acaso, quanto mais uma pessoa não gosta de ateus, quando questionada do porquê, ela não argumentará falando que eles não creem em Deus e sim que eles querem implementar o ateísmo como lei, e que onde isso foi tentado, na China e URSS, deixaram um rastro de milhões de mortos. Nesse caso, a distorção comum é não atacar a minoria em si, e sim o movimento que a defende, taxando-o de autoritário.

Definição de racismo

Se há um preconceito que o brasileiro não tolera, esse é o racismo. Digo isso porque vejo pessoas comuns me falarem que são machistas e homofóbicas, nunca que são racistas. As pessoas racistas, quando o são, não falam que são, pois sabem das repercussões sociais e legais de emitirem tais ideias.

Como o racismo, graças às leis, só sobrevive nas sombras, muitas vezes ele é mascarado sob pequenas atitudes. Por exemplo, negros têm mais dificuldade de pegar táxi ou preterido para serem atendidos em lojas. Então poderíamos dizer que os taxistas e lojistas são racistas? Talvez sim. O problema é que, como a negritude está associada à pobreza, muitos agentes tratem um negro de forma indevida, não por serem racista, e sim classistas contra os pobres.

O fato de serem sacaneados tanto durante a vida faz com que muitos negros se acostumem com isso, enquanto que outros ficarão revoltados -com razão -com essa dura realidade. O problema é que, como racismo é crime, quando um negro chama alguém de racista, por ter feito uma dessas ações que podem ser motivadas por racismo ou por qualquer outra variável -,o negro, incapaz de conhecer a verdadeira motivação do seu algoz, mas muito capaz de sofrer por causa dela, acaba podendo imputar um crime a uma pessoa inocente.

Essa celeuma fica ainda mais confusa quando se entra na seara da definição de racismo. Para a maioria das pessoas, ser racista é tratar uma pessoa negra mal, diminuí-la ou inferiorizá-la. OK, acho que todos concordamos que tratar mal um grupo historicamente prejudicado seja sim passível de punição.

Acontece que não é essa a definição de racismo usada pelo movimento negro. Para eles existe algo chamado racismo estrutural. Segundo essa definição, como vivemos numa estrutura que favorece o racismo, qualquer ação em favor dessa estrutura seria uma ação racista. Por exemplo, se mais negros recebem salário mínimo, a defesa da não elevação do salário mínimo seria uma atitude racista. Se mais negros estão reclusos no sistema penal, querer colocar mais pessoas nas prisões seria uma atitude racista. E por aí vai. Como qualquer um pode perceber, ao se perder o nexo causal entre a motivação do ato e sua consequência, uma pessoa pode usar a alcunha de racista para te imputar um crime, mesmo que você esteja tratando de uma questão — que na sua cabeça — não passa pelo prisma racial.

Gayzismo empático

No campo da sexualidade, o preconceito no Brasil é real e muitas vezes descarado. Não são nada raros os pais que expulsam e espancam os filhos pelo simples fato de serem afeminados. Conforme mais e mais membros importantes da sociedade sentem-se a vontade para sair do armário, mais as pessoas estão conseguindo sentir empatia com relação aos dramas da população LGBT. Pouco a pouco, a alcunha de homofóbico ganha o mesmo aspecto negativo da palavra racista.

Avaliando qualquer de movimento minoritário, quase sempre uma conquista de uma minoria não vem do seu enfrentamento contra a maioria “preconceituosa”, mas da conquista dessa maioria através da empatia. Dessa forma, quando vemos membros do movimento gay chamando a maioria dos brasileiros de homofóbicos (e não estou dizendo que não são), o que essas pessoas fazem é afastar ainda mais gente que precisam ter do seu lado, pois a luta dos LGBT´s por aceitação só será vencida no dia que todos os aceitarem de forma consciente, e não por imposição legal.

Não é chamando alguém de preconceituoso ou de homofóbico que a pessoa irá criar empatia ou fazer a outra refletir. Só irá confirmar o viés preconceituoso da pessoa de que gays são inimigos. De igual modo, quando vemos uma pessoa “lacrar” nas redes sociais, quando teoricamente humilha um preconceituoso num “debate”, o que vemos são pessoas massageando os próprios egos, por vezes sendo ignorantes com quem poderia ser convencido e agressivos com quem quer mostrar que gays são agressivos.

Salvem as baleias

Uma outra minoria que já ia passando batida por essa discussão são os animais. Nesse caso me refiro aos defensores dos animais, o veganos, já que os próprios animais não tem voz para se defenderem — digo, voz eles até tem, só não as usam para isso.

Os veganos possuem uma incrível capacidade de parecerem chatos. Isso acontece porque, como lutam pela libertação animal, para que isso de fato ocorra, não basta que eles, individualmente, parem de consumir produtos de origem animal, mas sim que todas as pessoas também parem, o que faz do veganismo uma ideologia que demanda seu proselitismo por parte de seus adeptos.

Ao se intrometerem na vida alheia, num aspecto tão pessoal como é a alimentação, que muitas vezes está associado com o prazer pessoal, a saciação da ansiedade, hábitos de família, busca pela saúde e estilo de vida, quase sempre o carnista vê no vegano um estranho com uma dieta inusitada que quer ensinar um outro adulto como ele deve viver.

É evidente que um vegano estranho não possui poder de influência ou poder social de barganha, mesmo com os melhores argumentos do mundo, para convencer alguém que ,educado desde criança para tanto, gosta de comer carne; porém, muito pelo contrário, fazendo isso, o vegano tem o poder de ganhar a antipatia da pessoa.

Religiões da Paz

O problema de qualquer religião é que seus argumentos teológicos fogem do estudo empírico, assim não podendo ser aceitos por qualquer pessoa, sendo então ideias que se fixam nas nossas cabeças por afinidade a uma cultura ou criação, mero sentimentalismo ou simples vontade de enxergar um sentido mais bonito no caos da nossa existência.

Nos EUA, dois movimentos de defesa grupos religiosos são muito presentes. Um é a Anti-Defamation League, que é um lobby poderosíssimo que combate qualquer um que ataque o povo judeu. Principalmente após o Holocausto, a ADL tem sido uma importante voz para denunciar e silenciar o discurso antissemita nos EUA. O outro é o movimento de defesa dos islâmicos.

No caso da ADL, está cada vez mais comum pessoas serem taxadas de antissemitas, não porque são críticas a qualquer aspecto da religião ou do povo judaico, e sim porque se opõe a atitudes do Estado de Israel que vilipendiariam os direitos humanos de palestinos. O mais engraçado é que muitas vezes essas críticas a Israel partem de próprios judeus. Como uma pessoa poderia ser antissemita se é judia? Se um judeu pode ser contra atitudes de Israel sem ser taxado de preconceituoso, um não judeu também poderia. Nesse caso vemos como a defesa de uma religião pode servir de fachada para a promoção de uma agenda política.

Antes de falar da “religião da paz”, cabe pontuar alguns aspectos questionáveis de algumas religiões, como o sacrifício de animais em religiões de matriz afro, que por algum motivo, os defensores dos animais não costumam denunciar. E claro, as tentativas de igrejas de colocar ensino religioso nas escolas e tentarem ditar a forma como as leis devem regular a vida das pessoas. Ao se basearem em mandamentos não aceitáveis para qualquer um, as religiões não podem demandar que seus princípios sejam seguidos por todos, mas apenas para aqueles que as seguem. Parece óbvio, não?

Agora, chegando ao Islã, essa é uma religião que é fruto de preconceito muito em virtude de atos de terrorismo causados por extremistas ao redor do mundo nas últimas décadas. É verdade que esses extremistas não falam em nome do Islã. O problema é que um muçulmano não pode dizer que é da “Religião da Paz” se não condena os atos de crueldade que extremistas cometem alegadamente em nome do Islã.

Ademais, criticar aspectos do Islã não necessariamente significa que você seja islamofóbico. Ser contrário a poligamia não significa ser islamofóbico. Só significa que você é contra a poligamia. Portanto, aqui percebemos como grupos podem taxar seus críticos de preconceituosos muitas vezes para assim defender aspectos retrógrados deles mesmos.

Extremismo religioso NUNCA é um problema se o fundamentos da religião são pacíficos. Infelizmente, nem todas as religiões tem fundamentos pacíficos.

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