#MeToo vs Efeito Pence: quando o feminismo prejudica as próprias mulheres


O ano de 2018 ficou marcado pelo surgimento do movimento #MeToo, que consistia em mulheres vindo a público para denunciar abusos e assédios sofridos anos antes. Graças a essa atmosfera crescente de denúncias, muitos homens poderosíssimos do mundo corporativo e do entretenimento caíram em desgraça, sendo muitos deles substituídos por mulheres.

O caso mais notório do movimento #MeToo foi o de Harvey Weinstein, um judeu bilionário, dono de uma produtora de cinema, que possuía um rastro de décadas assediando jovens atrizes em ascensão. Harvey, um doador do partido democrata, gozou de sua posição social e financeira elevadíssima para não só abusar de mulheres vulneráveis como silenciá-las.

Basicamente, todo o caso de assediador mantém um padrão que podemos observar quando avaliamos os casos de abusadores dentro da religião. Geralmente o abusador escolhe uma posição com prestígio social, pois um abusador sem uma posição social elevada não conseguirá manter sua prática em segredo por muito tempo. Pedófilos tendem a escolher abusar de crianças sem pais, ou com lares disfuncionais, já predadores sexuais preferem assediar mulheres com dificuldades financeiras ou emocionalmente frágeis.

No caso da igreja, os abusadores se escondem por trás da credibilidade da instituição na qual trabalham e fazem uso do discreto sistema de acobertamento que as religiões possuem, uma vez que não é do interesse da instituição que algo tão ruim venha a público, o abusador sempre conta com uma organização milenar que fará o que pode pra passar pano pra tudo. Muitas vezes, a única “punição” dada a abusadores é uma mera transferência.

Por causa da proteção social dada pelas organizações, posições de poder dentro de certas hierarquias tornam-se lugares perfeitos para que um predador possa ter vida longa. Com o passar do tempo, a tara doentia do “chefe” passa a ser naturalizada, tolerada e integrada na cultura do ambiente, e frases como “é assim que as coisas funcionam aqui” ficam mais comuns.

Muito disso ocorre porque, dentro da estrutura hierárquica do capitalismo atual, não existem muitas formas de avaliar o comportamento daqueles que possuem cargos de comando. Se um estagiário assedia uma gerente, essa pode denunciá-lo a uma série de superiores hierárquicos que tem poder de demití-lo sumariamente. Já se uma estagiária é assediada pelo gerente, principalmente se for um de boa performance, sua única escolha é reclamar com o RH, que pode ou duvidar do que ela diz, já que é a palavra dela contra a dele, ou pode levar a reclamação dela até o conselho da empresa, que muitas vezes conta com amigos do tal gerente ou homens igualmente abusadores. De qualquer forma, para uma estagiária que precisa do salário, denunciar um gerente é uma atitude sem repercussões positivas para sua carreira.

Entretanto, com o advento das redes sociais e da ascensão das pautas feministas, mais e mais mulheres indignadas com essa cultura de opressão acabaram entrando em contato com jornalistas nos EUA, que investigaram suas denúncias e fizeram aquilo que a polícia ou o RH do trabalho delas já deveria ter feito: expuseram os horrores que eram acobertados. Se as empresas não possuíam, até então, mecanismos internos eficientes de denúncia que evitassem que essas denúncias fossem disciplinadas internamente, aprenderam que uma hora ou outra isso se tornaria público, e seria muito pior para a empresa, posto que isso mancharia sua reputação.

Indevido processo legal

Como qualquer coisa na vida, o movimento #MeToo veio com coisas positivas e negativas. O primeiro ponto polêmico foi se a mera palavra de uma vítima seria o suficiente para destruir a vida e a carreira de um acusado. Para as feministas, sim. Bastaria a palavra da vítima, pois essa demanda “machista” por provas materiais de alguém que foi abusada por si só já seria um mecanismo de silenciamento das vítimas.

Por exemplo, se no colégio alguém num corredor vazio te dá um cuecão, não há prova alguma do que aconteceu. É a sua palavra contra a dele. Assumir que a sua palavra vale mais que a dele nessa situação cria um precedente para que ele possa te acusar do mesmo, sem prova alguma. Logo, confiar somente num testemunho é um caminho curto para falsas acusações. E acredite. Quanto maior o incentivo para que falsas acusações sejam feitas, mais acusações surgirão. Não por coincidência, uma falsa acusação pode vir de uma desavença pessoal, de uma ex, de alguém que disputa uma promoção no trabalho, etc.

Vejamos o caso do juiz indicado a Suprema Corte dos EUA, Brett Kavanaugh. Ele quase perdeu o cargo ao qual pleiteava graças a denúncia de duas mulheres, que ele, 35 anos antes, teria tentado estuprá-las numa festa. Ambas não se lembravam da data, local ou pessoas que estavam na tal festa. Depois de semanas de difamação, uma delas já foi desmascarada e a outra já está respondendo por falsa acusação de crime.

Contudo, são RARÍSSIMOS os casos em que quem acusa falsamente um homem comum de algo como isso é condenada. Um famoso caso é o do homem que foi acusado de estupro, sendo posteriormente estuprado na prisão, contraindo HIV, só pra depois ter sido inocentado. A mulher que o acusou falsamente sofreu qualquer repercussão legal? Não.

Aqui cabe um adendo. Para efeitos legais, o testemunho da vítima tem valor de prova se corroborado por elementos que o validem. Como por exemplo, se no testemunho há uma série de detalhes que não podem ser inventados, como características do corpo do acusado, total coerência na ordem de acontecimentos difíceis de serem recordados ou contradições no discurso do acusado. Fora isso, o testemunho oral de uma vítima ganha ainda mais força se juntado com o de mais vítimas, também com testemunhos críveis, pois um abusador raramente age uma única vez. Quase sempre ele deixa um rastro de abusos por todos os ambientes nos quais ele detém poder nos quais passa.

É em função disso que a mídia, ao se travestir de tribunal da inquisição feminista e não dar direito de defesa antecipado aos acusados, está sendo super injusta. Não se pode difamar uma pessoa apenas para criar polêmica ou vender tabloides. É por essa e por outras que, quando o assunto é a total destruição da carreira de alguém, que como qualquer pessoa, é inocente até que se prove o contrário, que se deve exigir o devido processo legal antes de e condenar alguém ao estigma perpétuo de estuprador.

Efeito Pence

Se para as leis, o testemunho ainda não é suficiente para te incriminar, para a opinião pública, muitas vezes esse não é o caso. Basta ser acusado para que a sua imagem pública seja irremediavelmente destruída. Por isso, em Wall Street, os alto executivos tem aderido ao Effeito Pence (Pence Effect).

Mike Pence é um político evangélico que, para se precaver de falsas acusações de assédio, simplesmente cortou ao máximo interações com o sexo feminino no trabalho, não almoçando com mulheres e JAMAIS ficando sozinho com elas. Por mais que esse comportamento pareça exagerado, para alguém com tantos inimigos, como Pence, ele é bastante racional. Ele não pode criar condições para que sua carreira de décadas de honestidade seja maculada por uma falsa acusação.

Outrossim, a própria atitude precavida de Pence já denota que ele não é um assediador, pois a última coisa que um assediador de mulheres no trabalho faria seria se afastar de todas as mulheres do seu trabalho. Por isso, não demorou muito até que a conduta de Pence passasse a ser emulada pelos altos executivos de Wall Street.

Como consequência, esse isolamento social das mulheres no ambiente corporativo está acabando por prejudicá-las, uma vez que acabam perdendo para os homens quando os fatores sociais são levados em consideração no quando de suas promoções. Numa época em que as demandas pela inclusão e representatividade feminina em postos de comando é algo importante, o Efeito Pence se apresenta como MAIS um fator social impedindo a ascensão feminina.

Por mais que o Efeito Pence seja algo exótico à primeira vista pelo prisma da sociologia ele é uma consequência natural ao #Metoo. Conforme a política de identidade fica fortalecida e legitimada, a interação entre as duas identidades ficará fortemente policiada, e conforme o tempo passe isso acabará por gerar segregação social entre essas duas identidades, principalmente se uma tem o poder de constranger a outra como preconceituosa, para assim reduzir conflitos.

segregação social em determinados ambientes ocorre porque o significado de abuso ou preconceito não é o mesmo para diferentes identidades, ou até a sensibilidade acerca de certos temas. Por exemplo, ao verem uma pessoa ser acusada de racismo, machismo ou homofobia por contar uma piada inofensiva no trabalho, é natural que brancos héteros passem a só opinarem ou se abrirem com outros brancos héteros, sendo apenas personagens politicamente corretos com os demais, por medo de falarem algo que um dia pode virar munição a ser usada contra eles mesmos.

Guerra fria social

Outro problema que o movimento #MeToo pode trazer é o de que homens honestos, ao serem percebidos por todas as mulheres como meros “estupradores em potencial” , passem a ver as mulheres como “falsas acusadores de assédio em potencial”. Essa predisposição a ver o diferente como inimigo em potencial mina as micro-relações e torna pequenas interações sociais algo perigoso e cheio de prevenções desnecessárias, o que pode vir a fazer um homem à noite deixar de pedir informação a uma mulher por medo do que ela possa vir a pensar.

Definição relativa de estupro

Uma outra ferida aberta dessa discussão é a própria definição do que seria estupro ou assédio. Há no feminismo moderno um aspecto muito parecido com o puritanismo religioso do século 17: uma imposição inquisitiva sobre o comportamento alheio.

Darei um exemplo. Anos atrás um podcast chamado Nerdcast sofreu uma onda de ataques feministas por ter falado que “decote era como o sol, não tem como não olhar”. Sim. Homens são biologicamente atraídos por mulheres, e sim, por mais que para as feministas isso seja um crime indesculpável, decotes atraem olhares. Então uma feminista resolveu equivaler “olhar para um decote” a estupro, o que não faz sentido algum, pois um é um ato de violência física e o outro, NO MÁXIMO, pode incomodar psicologicamente algumas pessoas.

Concordo que a mulher estar de decote não justifica que mexam com ela, e que mexer com uma mulher seja algo reprovável, ainda mais porque, no calor do Brasil, onde é comum homens andarem sem camisa pra se refrescarem, mulheres têm o direito de também usarem pouca roupa no Verão, entretanto, esse não era o mérito da discussão. O que estava sendo problematizado era se era lícito um homem olhar para um decote e se isso equivalia a um estupro. Na minha opinião, homens sempre olharão para mulheres, só devendo fazer isso de forma discreta para evitar constrangimentos. E não. Não se pode equivaler o estupro a olhar um decote, pois essa comparação absurda acaba fazendo algo horrendo como um estupro parecer igual a algo corriqueiro e magnético como olhar para o decote de uma mulher.

Ademais, ao dar brechas para que as feministas destruam a carreira de alguém por assédio, pode ser que alguém seja destruído sendo que nem assédio em sentido estrito fez, como foi o caso do excelente diretor James Gunn, de Os Guardiões da Galáxia, que foi demitido após terem desenterrado tuítes em que fazia piadinhas sem graça sobre estupro anos atrás. Acho compreensível que para feministas James Gunn e Harvey Weinstein sejam iguais, só não acho que pessoas normais possam achar que Gunn possa receber o mesmo escrutínio de Harvey, pois fazer uma piada com estupro é bem diferente de estuprar centenas de mulheres durante décadas.

Outro exemplo foi o do ator Aziz Ansari, que foi acusado de estupro e quase teve sua carreira liquidada pelo movimento #MeToo. Uma publicação deu voz e SIGILO à identidade de uma mulher que relatou que Ansari a convidou para ir a sua casa, e lá, quando começaram a se beijar e tocar ela pediu para ir embora e ele educadamente a deixou ir. Pronto. Ela achou que isso foi um tipo de estupro, um site resolveu publicar e centenas de publicações sérias republicaram. Isso foi suficiente para que ele aparecesse em várias reportagens ao lado de predadores sexuais como Harvey Weinstein e Kevin Spacey.

Conclusão

Ao dar poder para que feministas imponham seus valores distorcidos sobre você, elas uma hora ou outra distorcerão algo que você fez ou disse para te taxar de machista ou estuprador, assim se pondo como sensoras morais que avaliam o que pode e o que não pode ser dito ou feito. Usando abstrações como “cultura de estupro” elas podem equiparar qualquer coisa com estupro se isso as beneficiar ou poder prejudicar seus oponentes. E acreditem. Quando você entrega o controle da moralidade a um grupo identitário, o que você está entregando é a sua própria liberdade.

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