Pokémon incentiva a crueldade com os animais?


Hoje, revirando minhas tralhas, encontrei meu diário de 2009 -sim, eu tinha um diário. Numa das páginas, eu relatava estar lendo um livro evangélico chamado Em seus passos, o que faria Jesus.

A ético por trás do entretenimento

Nesse livro, numa determinada passagem, dois homens começam a debater se seria certo irem a uma luta de boxe. Por trás daquele divertimento escapista estavam homens ricos que pagavam para ver dois pobres, muitas vezes negros ou imigrantes, espancarem-se. A luta consistia em ver dois desesperados por dinheiro esmurrarem o rosto um do outro até que um deles simplesmente perdesse a consciência. Além disso, ambos ali ainda teriam que conviver com as sequelas desses repetidos traumas na cabeça na forma de Parkinson e outras doenças degenerativas.

Mas qual seria a maldade nisso se ambos os homens escolheram livremente estarem ali e assumiram os riscos para eles mesmos? Primeiro, eles não escolheram livremente nada. Se eles pudessem escolher, optariam por um trabalho digno, no qual pudessem preservar a dignidade humana deles. Segundo, a necessidade urgente por dinheiro no curto prazo os fazem não mensurar quaisquer males que porventura possam ficar sujeitos no longo prazo. Terceiro, eles só se sujeitam a esse tipo de “trabalho” porque há algo chamado DEMANDA.

Existe uma demanda no ser humano por violência, e para aplacar essa demanda nós assistimos pessoas e animais se matando, desde a época dos coliseus romanos. A demanda por algo degradante faz com que os membros mais vulneráveis da sociedade se sujeitem a posições desumanas apenas para suprir demandas doentias de outras pessoas, que, na prática, estão comercializando a dignidade humana e transformando o ser humano num mero produto, numa coisa. Era assim com o boxe nos anos 20. É assim na prostituição. É assim na pornografia.

Quanto maior a demanda, maior o número de pessoas que irão se submeter à prática. Por isso, ao irem ao show de boxe, os dois personagens estavam financiando aquilo, e consequentemente gerando sinal de demanda para que aquilo continuasse a fazer mais vítimas.

Mas ai poderiam pensar: “se nós não participarmos, alguém irá de qualquer jeito” ou “se o boxeador não ganhar dinheiro assim, irá morrer de fome”. Essas falácias podem ser refutadas se eles pensarem que se a demanda por violência fosse direcionada para a fome, geraria-se mais vagas para esses boxeadores no setor alimentício, e, de igual modo, se todos os traficantes do mundo parassem de traficar, o tráfico e suas consequências acabariam. É justamente porque todos não são éticos que práticas antiéticas se eternizam, mas mesmo assim, ao não colaborarmos com elas, além de preservarmos nossa moral podemos diminuir sua incidência.

Se aplicarmos esse mesmo princípio da conscientização para outras áreas da nossa vida, valeria a pena comprar uma camisa mais barata se sabemos que ela foi feita com trabalho escravo? Depende. Depende se nos importamos com trabalho escravo, se nós nos importamos com quem está sendo escravizado e se nós temos recurso para comprar um produto sem trabalho escravo. O mesmo raciocínio da produção da camisa pode ser também aplicado a produção de games.

Uma distopia cruel

No mundo do jogo pokémon, jovens de 10 anos de idade recebem um pokémon e vão rodar por várias cidades para capturar e treinar pokémons, com a finalidade de tornarem-se o maior mestre pokémon e “pegarem todos”.

Esse ano teremos o primeiro filme live action do pokémon. E infelizmente, não teremos uma visão mais realista sobre esse universo, de como ele funciona e de quem se beneficia com ele. Seria no mínimo constrangedor haver algum diálogo de alguém preocupado com os riscos de uma criança de 10 anos se perder ou ficar a mercê de perigos como sequestro, roubo ou pedofilia.

Contudo, o principal tema espinhoso no universo pokémon são os maus tratos aos pokémons, que são obrigados a lutar até desmaiarem em batalhas contra outros pokémons, apenas para satisfazer o desejo competitivo de seus insensíveis treinadores.

A lógica do universo pokémon espelha importantes aspectos da exploração animal. Pokémons, ao serem capturados, são retirados dos seus habitats naturais -o que por si só já seria uma agressão-, sendo enfraquecidos após ataques de outros pokémons e então confinados dentro de pokébolas, para só serem soltos novamente na hora de lutarem com outros pokémons, repetidas vezes, até a morte, ou até serem descartados quando seus treinadores não virem mais utilidade neles.

A relação entre pokémons e treinadores emula basicamente uma relação de escravidão, em que um nada mais é que a posse de outro e a vontade desse designa o que esse pode ou não fazer. Nesse mundo, os humanos se acham no direito de tirar o pokémon da família e comunidade dele para que ele o sirva, sem dar-lhe nada em troca por isso. Se isso não é uma exploração, não sei o que é. Pokémons são tratados como coisas, sem sentimentos, que podem ser usadas, feridas, descartadas e até manipuladas geneticamente para se adequar às finalidades competitivas dos humanos.

O desenho tenta naturalizar essa exploração, dizendo que o ambiente dentro das pokébolas é bom, e que os pokémons “gostam” de lutar contra outros pokémons estranhos que nada fizeram contra eles, simplesmente porque “essa é a natureza deles”. Pior que isso, na história, existe a tentativa de legitimar todo esse circo de horrores mostrando supostas relações afetivas entre pokémons e treinadores. Ora, se você gosta do seu cachorro, você o colocaria pra brigar numa rinha? Claro que não. Se os treinadores gostassem mesmo dos seus pokémons, os treinariam para atividades não-violentas.

Durante todas as dezenas de temporadas do anime, o que vê-se são apenas episódios em que o que é mostrado são lições de como os pokémons devem ser tratados com mais “compaixão”. Só isso. Não existe um debate entre os personagens sobre a ética daquilo que eles fazem, ou qualquer problematização da relação entre pokémons e humanos.

Em nenhum episódio é dado voz para grupos que realmente defendem a liberdade dos pokémons e advogam pela libertação de todos eles. E claro. Aposto que se mostrassem algum grupo de defesa dos direitos dos pokémons, com certeza o desenho os pintaria como vilões escrotos que querem separar o Ash do seu amado Pikachu.

Portanto, Pokémon é uma obra que, do ponto de vista pedagógico, estimula a exploração de um mundo, a competitividade, o gerenciamento e montagem de uma equipe, a interação com outros jogadores (tudo isso bom) e, infelizmente, a naturalização da exploração de seres vivos como meras armas de combate. O ponto é: queremos que nossos filhos sejam influenciados por esse tipo de coisa? Se concordamos que é antiético explorar o corpo de um pobre numa partida de boxe, de uma mulher na prostituição, de um cachorro numa rinha, o mesmo valeria para um pokémon numa batalha?

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