Quem é Jordan Peterson, o intelectual da direita alternativa


Contexto

No passado, os homens brancos/cristãos/héteros pobres poderiam ser a base da pirâmide econômica mas eram o topo da pirâmide social. Um homem sabia que era empregado no trabalho, mas ao chegar em casa, ali ele era o chefe, o rei de uma pequena monarquia.

Bem, o mundo mudou. A religião já não molda nossa moral. O patriarcado e o casamento são instituições questionadas e a segurança de um relacionamento tradicional já não empolga como antes. Hoje, o homem branco mal consegue sair da casa dos pais quando fica adulto, e quando se casa, já não é rei de nada.

Isso pode ser explicado pela migração dos bons empregos da área industrial ( majoritariamente ocupada por homens) para a área de serviços ( onde a mulher divide espaço com o homem). Ao assumirem melhores empregos, as demandas feministas ganharam força. De igual modo, a economia, ao se deslocar do campo para os centros urbanos cosmopolitas acabou fortalecendo discursos de minorias.

Como se não fosse o suficiente, o politicamente correto ainda joga no homem branco o fardo de ser o vilão da história, tendo ele que se submeter a algumas agendas, do contrário será taxado de racista, machista ou homofóbico. Não é surpresa que muitos se sintam atacados por sua própria cultura, que enxerguem que na sociedade relativista e secular onde vivem uma total inversão de valores, que não não se sintam representados no espectro político vigente. Então, nessas circunstâncias, muitos desses brancos jovens “excluídos” formam grupos na internet -que por vezes beiram o racismo, o machismo e a homofobia — para atacar o politicamente correto, que de fato, não tem nada de bom para oferecer-lhes. Eles são chamados de direita alternativa.

O pronome Peterson

Nesse ambiente de ascensão do politicamente correto e defesa incondicional das minorias, surgiu uma lei no Canadá(C-16) que criminalizava o uso do pronome errado para se referia a transexuais. Explico. Se você disse um brucutu musculoso e dissesse: “o senhor pode me informar as horas?”, você poderia ser criminalizado pois o brucutu poderia ser trans mesmo tendo aparência feminina. Não entendeu? Eu sei. Não é pra entender. Era uma lei confusa. Feita para confundir mesmo.

Foi aí que entrou em cena o Professor Jordan Peterson, em oposição a essa estranha lei dos pronomes. Na discussão da lei, no final, a liberdade de expressão da maioria de se referir a um trans pelo pronome errado foi suplantada pelo direito dos indivíduos trans de não serem ofendidos pelo pronome errado. Apesar disso, ao entrar nesse debate espinhoso, Peterson caiu nas graças da direita alternativa, já que essa estava ávida para adotar qualquer figura de destaque que validasse sua luta contra o politicamente correto.

Peterson, o life coach

Espertalhão, Peterson soube identificar muito bem quem eram seus novos “fãs”, qual eram seus problemas e como ele poderia usá-los como escada para expandir ainda mais seu público. Primeiro os vídeos de Peterson criticando o “Marxismo Pós-Moderno” ganharam popularidade em sites de extrema-direita. Ele precisava expandir seu público, do contrário, ficaria estigmatizado como extremista e perderia sua relevância.

Daí ele resolveu sair dando palestras de auto-ajuda pelo país, nas quais dava conselhos muito úteis sobre a vida. No entanto, são conselhos meio que óbvios e que só são tratados como especiais por gente que carece de um amigo ou uma figura paterna que possa repassá-los. Nesse sentido, Peterson tenta ocupar um vácuo paterno nos seus seguidores, já que, como muitos deles possuem péssimos pais ou simplesmente nem os têm, conselhos óbvios como “tome responsabilidade por sua vida”, “a vida é sofrimento”, “a felicidade nunca excede o sofrimento, logo precisa-se de um sentido maior para a vida”, parecem pérolas preciosas.

Numa sociedade relativista onde nada tem sentido, Peterson apresenta um sentido. E esse é o principal mérito de sua obra. Não pelo sentido que ele oferece, mas por evidenciar a necessidade de ter um. Seu livro, 12 regras para a vida, best seller absoluto, nada mais é que uma versão de outros clássicos de auto-ajuda sob a perspectiva da psicologia, da filosofia, da análise junguiana e claro, para a alegria infinda dos conservadores, da bíblia. Visualizando no público religioso um público em especial, Peterson inclusive montou palestras nas quais expusera o Gênesis sob a ótica da psicologia.

Peterson, o guru da direita

Peterson é uma figura que a esquerda destesta. E há alguns motivos para tanto. Primeiro, porque ele detém conhecimento de fato, acadêmico numa área, a psicologia, na qual seus conselhos podem ser producentes para qualquer um, sendo assim um intelectual legítimo, difícil de ser demonizado ou refutado, já que ele tem propriedade sobre aquilo que diz.

Logo, para atacá-lo a esquerda só tem dois caminhos: ou tenta distorcer o que ele diz — o que não funciona, pois ele contra-argumenta muito bem — ou tenta pegá-lo por associação — tentando implicar que ele tem muitos seguidores na extrema-direita, o que cada vez menos cola, pois seu público cresce a cada dia e cada vez menos essa parcela é representativa.

Ademais, Peterson parece ser um intelectual que não entra em qualquer polêmica. Canadense, ele prefere não dar muito pitaco na política americana ou em debates fúteis do dia a dia, assim escapando de ficar queimado como alguns polemistas que defendem Trump e o partido Republicano a todo momento, mesmo quando estes erram. Suas críticas são certeiras ao politicamente correto, ao radicalismo ideológico das universidades e à extrema-esquerda. Em suma, Peterson escolheu o inimigo correto e o mais fácil de combater, pois numa época em que o establishment pensante de esquerda só defende absurdidades, basta falar o óbvio para ser considerado um gênio.

Peterson, o imperfeito

Se você achou que iria ler um texto repleto de elogios a alguém, sem nenhuma ponderação, você achou errado. Peterson também dá uma belas escorregadas. Um exemplo foi quando foi perguntado se cria na ressurreição física de Cristo. Como cristão, se negasse, perderia moral com sua fanbase cristã. Se dissesse crer, perderia moral com seus seguidores céticos que dão crédito a ele por ele sempre se ater à razão. Covardemente, ele não respondeu, mostrando que ele tinha apenas um lado, o dele mesmo.

Quando questionado sobre ateísmo, Peterson sempre reverbera algo negativo lincando a descrença em Deus numa crença num Estado autoritário. Por exemplo, certa vez disse que o proeminente ateu Christopher Dawkins dizia ser oprimido quando não estava sendo, no entanto, Peterson dizia que ele deveria ser. Por que ele deveria ser oprimido?

Falando de Deus, para Peterson, a definição de Deus seria aquilo que nós desconhecemos, ou seja, tudo aquilo que estaria fora do nosso alcance, o que é uma visão muito pobre uma vez que conforme o conhecimento humano aumenta, Deus diminui. Essa visão, no final das contas associa Deus com a ignorância.

Quando perguntado sobre assédio no ambiente de trabalho, Peterson disse incentivar mulheres a não se maquiarem pra não atrair assédio para si. Na cabeça dele, talvez ele imagine que as mulheres se maquiam para atrair os homens, e não para si mesma ou para não receberem a reprovação de outras mulheres. Além de deixar o ambiente de trabalho mais feio, a ideia de demandar que as mulheres andem desleixadas caso não queiram sofrer assédio, no fundo, não passa de uma atitude motivada pela culpabilização da vítima e que não passa pela conscientização dos verdadeiros culpados.

A própria lei federal C-16 que catapultou Peterson ao estrelato não é exatamente o que ele dizia ser. Uma lei parecida já estava vigente a 5 anos no estado em que Peterson morava a 5 anos e não houve um só caso de pessoa criminalizada por usar o pronome errado para com trans. Muitos alegam que Peterson apenas distorceu o sentido da lei para então poder bradar como defensor da liberdade de expressão e colocar como vilões os membros do movimento trans, que por serem autoritários estariam dispostos a atacar a liberdade de expressão das pessoas, pelo simples prazer de fazê-lo. Não surpreendentemente, após o debate sobre a lei, cresceu o número de comentários transfóbicos na internet.

Num bate-papo com uma feminista Peterson alegou que seria muito difícil discutir com uma mulher maluca(e não com um maluco?). Motivo? Porque com um homem, ele discutiria, e a partir de um ponto, tornaria-se físico, e com uma mulher essa opção não existiria. Ou seja, ele vê como desvantajoso o fato de não poder bater numa mulher e ela poder bater nele. Como se isso não fosse machista o suficiente, ele ainda diz que ninguém respeita um homem que não te agrediria de forma alguma. Primeiro, mesmo se discutirmos com um homem e a conversa não for produtiva, para pessoas adultas e civilizadas, a agressão nunca será uma opção. Segundo, nesse caso, ele confunde claramente o conceito de RESPEITO com o de MEDO.

Peterson também parece se opor a ideia de igualdade, alegando que todas as espécies — ele usa as lagostas como exemplo — possuem algum tipo de hierarquia social, e que, portanto, deveríamos aceitar as autoridades e instituições como elas estão. Realmente, todos os tipos de animais possuem algum tipo de hierarquia, abelhas operárias servem as abelhas-rainhas. Cavalos seguem sempre o cavalo-alfa do seu grupo e zebras não seguem ninguém. Por isso domesticamos o cavalo e não a zebra, já que podemos ocupar no cérebro dele o espaço de autoridade que ele reserva ao alfa. Sim, nós temos uma hierarquia natural na nossa espécie, mas isso não significa que o tipo de hierarquia que estamos praticando seja desejável ou até mesmo que desafiar essa nossa natureza hierárquica possa ser vantajoso em alguns casos. Essa defesa da hierarquia de Peterson pode muito bem ser encaixada numa falácia da natureza. Só porque é natural, não significa que seja bom.

Por fim, ele, ao usar o termo “marxismo pós-moderno” parece confundir os conceito de marxismo(luta de classes entre proletários e patrões) com o de pós-modernismo(desconstrução de relações de raça, gênero, etnia, etc). Existe uma enorme polêmica se existe o tal termo “marxismo cultural”, pois muitos creem que esse seja um conceito inventado para denegrir algumas ideias modernas com o rótulo de “marxismo” sem que nem ao menos sejam marxistas ou influenciadas por Marx. Só porque aquilo que você critica existe, não significa que a designação ou a narrativa por trás da ideia que critica aquilo sejam fidedignos.

Concluindo, Peterson é um intelectual de respeito, que fala sobre muitos assuntos da sua área -psicologia- com muita propriedade, e que a utiliza para conseguir arregimentar seguidores que hoje já lhe tornaram muito milionário. Há até quem diga que ele seja uma espécie de Olavo de Carvalho canadense com diploma, posto que ambos são odiados pela esquerda. No entanto, podemos ver que Peterson é um sujeito de bem, educado, honesto, equilibrado, que ao menos está ajudando jovens perdidos a se reencontrarem consigo mesmos. Bem diferente do astrólogo que diz que vacinas fazem mal e que fumar faz bem.

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