Por que o Blackfacing não é racista


O Brasil é um país pobre. Muito pobre. Tão pobre que a nossa pobreza não se limita a área financeira ou cultural, mas ela consegue também chegar até a área ideológica.

Não por acaso, estamos acostumados a termos palavras totalmente estrangeiradas e ligadas a um outro contexto, que não o nosso, para tentar explicar a nossa realidade. Um exemplo é a palavra empoderar, que está cada dia mais sendo jogada nos nossos ouvidos por esquerdistas. Ela chegou aqui porque nos EUA os movimentos de minorias usavam a palavra EMPOWER. Nesse caso, e em vários outros, não só resolveram utilizar a versão aportuguesada de uma expressão gringa, como também a replicar todos os argumentos e as narrativas dos movimentos americanos.

O problema é que a luta dos negros, gays e mulheres americanos — que é legítima- não necessariamente é igual a daqui. Por exemplo, nos EUA o racismo se dá de forma MUITO mais descarada nos estados sulistas. Pra começar, a religião lá, protestante, sempre segregou negros e brancos, diferente daqui. A miscigenação era considerada crime em alguns estados até meio século atrás lá. Houve uma guerra de secessão só pra libertar os escravos, depois houve o período de Reconstrução do Sul, em que os brancos se sentiram humilhados, e ressentidos, criaram a Ku Kux Klan, que no início era uma milícia civil para proteger os brancos — como é mostrado no filme E o Vento Levou- e mais tarde tornou-se um grupo terrorista completamente assassino.

Já nos anos 60, a luta pelos Direitos Civis dos negros — como o direito de votar, que os negros daqui já gozavam a muito tempo — ,assim como o combate a segregação racial -aqui existia uma segregação social não institucionalizada – fizeram o EUA sofrer grandes protestos e a população negra ganhar consciência política. E porque o negro brasileiro não fez o mesmo? Talvez seja porque, apesar de sofrer racismo, ele poderia votar e entrar e sair da maioria dos lugares, até casar com quem quisesse.

Por isso o mesmo discurso que parece legítimo na boca de um Malcolm X, que teve seu pai morto pela KKK por casar com uma mulher branca, parece tão artificial e fake na boca de um youtuber brasileiro que posa de defensor dos negros. Quando Martin Luther King falava que o branco era opressor, ele estava falando de algo visível, palpável. Aquele branco opressor tinha uma agenda política clara que visava declaradamente subjugar os negros para a supremacia da raça branca. Já o youtuber do movimento negro chama de opressor qualquer branco pelo simples fato de ser branco, ou de cometer o pecado de ter algo a mais que ele. Em suma, luta contra inimigos imaginários, que, como não existem, são mais fáceis de serem vencidos.

O brasileiro, talvez por ser bastante misturado, abomina o racismo. Digo, o brasileiro comum, e falo do racismo de verdade, aquele que se consiste em crer que brancos seriam melhores e que ser negro seria algo depreciativo. Já para a esquerda, o Brasil é um país racista, talvez o mais racista do mundo, já que a definição de racismo deles não é a mesma que a das “pessoas normais”, mas sim a definição de “racismo estrutural”, na qual qualquer ato perpetrado em favor da “estrutura econômica, social e cultural” que prejudica mais os negros — ou aqueles que eles consideram negros- seria racismo.

Por exemplo, se você é a favor da prisão de traficantes , a esquerda te considera racista, já que a maioria dos encarcerados por tráfico são negros -nesse caso eles sempre consideram pardos como negros-, ou seja, se você defende um sistema carcerário que prende predominantemente negros, então você é racista. De igual modo, se você é contra o aborto, mesmo sabendo que a maioria das mulheres que morrem em clínicas clandestinas são negras, então você é racista por defender esse “genocídio de mulheres negras”. Poderia ficar linhas e linhas dando mais exemplos mas pararei por aqui.

Mas se o racismo real existe, e a maioria concorda que deve ser combatido, o ideal não seria focar nele primeiro? Não sei, mas o que eu creio é que esse tema deve ser debatido por toda a sociedade, para evitar o que aconteceu com a política de cotas raciais, que, por não terem sido explicadas de forma didática e debatidas, geraram uma percepção de que seriam injustas e um mero privilégio, o que acabou fomentando o discurso racista, a despeito de terem conseguido elevar socialmente alguns negros, que agora podem sofrer preconceito por serem “cotistas” — o próprio presidente eleito já disse que não entraria num avião dirigido por um cotista.

O problema é que muitos na esquerda não querem esse debate. Graças ao maravilhoso conceito do “lugar de fala” — um mero desqualificador ad hominem -deslegitimam a opinião de qualquer branco sobre racismo, pois o lugar deles seria apenas de escutar enquanto os negros falam entre eles mesmos. Não é surpresa que alguns brancos não queiram escutar e sim reclamar disso.

De certa forma, como o racismo é muito mais condenável que o machismo e a homofobia, existe um poder implícito que todo o negro possui de acusar um branco de racismo, de forma justificada ou não. Como nenhum branco gostaria de ser acusado de tal ato, que mesmo que sem provas que o levassem a sanções penais, já poderia macular sua reputação, então é comum que brancos evitem falar sobre questões raciais, principalmente perto de negros, mais principalmente ainda perto de membros do movimento negro. Assim, sem diálogo, todos os preconceitos do mundo permanecem escondidos, porém sempre vivos.

No caso do Blackfacing — termo americano para designar pessoa que se pinta de negra-, fica claro que NOS ESTADOS UNIDOS ele tem um significado racista porque no século passado um artista chamado Jim Crow fazia shows de “comédia” de blackface ridicularizando negros, que ganharam grande notoriedade. Com isso, o blackfacing lá sempre esteve associado a um ataque aos negros,o que fez que, no consciente coletivo, o ato fosse entendido como inerentemente racista mesmo se sua intenção não viesse a ridicularizar ninguém. Um outro ponto é que, como os negros eram excluídos do show business, um branco com blackfacing era um negro a menos trabalhando. Mais outro motivo para não gostarem.

No Brasil, não existiu nenhum Jim Crow, tampouco a criação dessa consciência coletiva, mas como nós importamos as narrativas prontas, agora se pintar de preto, por qualquer motivo que seja, já está sendo considerado racista, mesmo que seja pra se fantasiar de elementos da nossa cultura como o saci-pererê. Não preciso evidenciar como isso é idiota, mas saliento que essa é uma batalha perdida, já que a esquerda, como de costume, conseguirá estigmatizar mais essa atitude como sendo um pecado ao politicamente correto, e usando alguns casos para destruir a reputação de alguns desavisados.

Por fim, minha posição é simples. Na dúvida, não faça, pois você jamais saberá se ao fazer tal coisa alguma pessoa poderá se sentir genuinamente ofendida, e como devemos respeitar os sentimentos alheios, melhor arrumar dor de cabeça fazendo outras coisas mais úteis que pintando a cara. Mas se você quiser mesmo se pintar de alguma cor, recomendo que você se pinte de verde, mas seja ligeiro. Quem sabe no futuro as famílias do Hulk e do Blanka não se organizam para impedir esse “absurdo”.

Anúncios

Comente com polidez!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s