Por que o cachorro do Carrefour é o totem da empatia seletiva


Dias atrás um cachorro que perambulava por um supermercado foi golpeado pelos seguranças do local, ficou sangrando até que o Controle de Zoonoses chegasse. Ao chegarem, eles trataram o animal com brutalidade e o levaram para suas instalações, onde o pobre cachorro não resistiu os ferimentos e foi cremado como manda o protocolo.

Tudo isso seria mais um acontecimento corriqueiro caso não fosse registrado por câmeras e amplamente divulgado nas redes sociais, onde muitos internautas, sedentos por justiça, estão promovendo um boicote ao Carrefour, que por sua vez, tentou tirar o dele da reta, alegando que é contra maus tratos a animais e que a equipe de seguranças do supermercado era terceirizada. Quem tem um pingo de inteligência sabe que no final das contas, a corda irá quebrar pro mais fraco, que é o segurança que espancou o animal, ao passo que a direção do supermercado, que muito provavelmente ordenou ou legitimou a agressão, ficará impune.

Na vida, muitas vezes, a nossa própria presença física já é o suficiente para causar um enorme desconforto aos demais. Experimente você ir a um shopping de rico estando mal vestido para ver como será expulso pelos seguranças – como já ocorreu comigo. Veja como funcionou a restauração das ruas em volta da cracolândia em SP. O prefeito só mobilizou a força policial para expulsar os cracudos, não para ajudar aos pobres coitados, mas visando a especulação imobiliária da região e a atração de empresas. O fato é que dentro do sistema, seres humanos não só são inúteis quando não podem consumir ou gerar lucro, eles também são passíveis de descarte. Se isso vale para pessoas, imagine para animais.

No caso em questão, o único motivo pelo qual a morte desse cachorro gerou tanta revolta foi porque era um cachorro. Se fosse um ser humano marginalizado ou um animal peçonhento provavelmente todo mundo nem daria bola. O motivo? Por que nós possuímos uma empatia seletiva. E o que falarei aqui é uma verdade inconveniente. Pessoas sentem mais empatia de bebês do que de velhos, mais de velhos que de adultos, mais de conterrâneos que de estrangeiros, mais de pessoas bonitas que de pessoas feias, mais de pessoas da mesma religião que de pessoas de religões diferentes, mais de pessoas com os mesmo hábitos que daquelas que possuem hábitos diversos, e por aí vai.

A empatia seletiva é o que faz com que pessoas chorem pela morte da Marielle Franco enquanto outras não estejam nem aí é até façam piadas. De igual modo, muita gente se emocionou quando o Bolsonaro foi esfaqueado e outras caçoaram.

Além desses fatores, há também diferentes níveis de sensibilidade. Há pessoas que estão nem ai pras crianças mortas de fome na África e para campanhas como “salvem as baleias”. No entanto, essas pessoas se virem um mendigo precisando de ajuda, ajudam. Outras pessoas, não só não ajudam mendigos como não ajudam nem gente da própria família. E também há aqueles que só pensam em si e só ajudam alguém se isso puder ser benéfico de alguma forma.

É por isso que tem gente escandalizada com a morte do cachorro que irá hoje mesmo comprar um pedaço de bife que matou um animal de forma muito mais cruel, e ainda por cima enriquecendo o empresário milionário que abateu os bois. Isso parece hipócrita, porém eu, como vegano, vejo que não é. Nosso cérebro foi programado para discriminar uma série de coisas e uma delas são os animais.

No caso do cachorro, por ser um animal criado pelo homem através de milênios de adaptação e convivência, ele é o único animal que libera um hormônio materno quando o vemos, e assim somos predispostos a querer protegê-los. Em contrapartida, somos naturalmente acessos a ratos e baratas devido aos séculos em que a exposição deles nos trouxe doenças. O problema é: não é porque somos condicionados a algo que essa ação será racional. Há circunstâncias em que salvar um cachorro pode ser ruim e que cuidar de um rato pode ser necessário. O ponto é sabermos separarmos a razão da emoção e decidirmos o que é melhor para nós mesmos e para a sociedade a nossa volta.

Então temos que relativizar a morte do cachorro e nos importamos mais com a morte de todos os seres vivos de forma igual? Ou teríamos que nos importar mesmo só com quem nosso cérebro está predisposto a se importar? Eu não sei. Mas talvez a melhor saída não seja tratar amebas como seres humanos e seres humanos pior que cachorros.

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