E lá se vai o Bush Pai


Em 1980, Bush, que representava a ala moderada e elitista do country club do partido, decidiu disputar a nomeação do partido republicano. Seu principal oponente era o conservador puro sangue Ronald Reagan, que já havia sido derrotado nas primárias de 72 e 76. Reagan era um republicano diferente. Ele era radicalmente ligado a direita religiosa, e adotava um discurso econômico liberal muito mais radical que seus partidários. Bush simbolizava o passado do partido, o partido de grupos oligárquicos pragmáticos. Já Reagan era um ideólogo.

A década de 60 remodelou o cenário político americano. Com a promulgação dos direitos civis, os dixiecrats (democratas conservadores do sul, quase todos batistas e racistas) acabaram perdendo espaço e no seu lugar surgiu um partido republicano focado em temas como combate às drogas(que na época eram associadas a negros e latinos), redução nos gastos sociais(o que prejudicaria mais mães solteiras negras), combate ao crime (o que encarceraria mais negros), defesa do casamento tradicional(o que conquistaria os evangélicos). Reagan, um ex-democrata, soube surfar essa onda. Venceu as primárias de 1980 e escolheu Bush como seu vice, no intento de unir o partido — o que não acontecera em 1976.

Nas primárias, Bush disse que o plano econômico de Reagan, de cortar impostos dos ricos para gerar investimento e empregos aos mais pobres, não passava de vudu. E de fato era. Como presidente, Reagan reduziu impostos e aumentou o déficit do país, comprovando mais uma vez que a tal Curva de Laffer (teoria que diz que redução de impostos geraria aumento na arrecadação) seria apenas um mito usado para reduzir os impostos dos milionários que financiam campanhas.

Reagan aumentou os gastos militares, o que forçou a União Soviética, já debilitada, a fazer o mesmo. Isso acabou colocando a economia dos soviéticos numa espiral negativa. Foi um tiro de misericórdia. Os EUA caminhavam para vencer a Guerra Fria sem dar um só tiro.

Em 1988, Reagan, já estava com fortíssimos sinais de Alzheimer — informação contestável . Coube a Bush disputar as primárias do partido de novo. Dessa vez, o seu principal oponente seria o senador do Kansas Bob Dole, outro herói de Guerra.

Bush, um ser sem carisma algum, foi agraciado com um presente dos deuses. Se seu aspecto sem graça e apático não faziam dele um candidato forte, entretanto, ele possuía na manga um trunfo poderoso. Seu nome era Lee Atwater. Atwater era um estrategista de campanha capaz de fazer qualquer coisa — qualquer coisa MESMO- para conseguir vencer uma eleição. Sua falta de escrúpulos era tamanha que ele não escondia que a sua “Southern Strategy” — estratégia sulista-, que seria focar a campanha em temas sensíveis racialmente para invocar o voto dos brancos racistas e ressentidos do sul.

Após uma série de ataques covardes a Dole, Atwater conseguiu assegurar a nomeação de Bush, que naquele ano enfrentaria o popular governador de Massachussets, Mike Dukakis, nas eleições gerais. Numa de suas artimanhas, conseguiu veicular na mídia uma fake news de que a esposa de Dukakis um dia teria queimado uma bandeira americana. Ataques como esse fizeram com que Dukakis, que estava a 10 pontos de vantagem, caísse nas pesquisas. Mas a cereja do bolo estava ainda a caminho.

Graças a Atwater, que tinha casinhos com várias jornalistas, um crime em que um negro matou e estuprou um casal de brancos ganhou notoriedade nacional. A ideia seria colar no inconsciente coletivo a ideia do que aconteceria caso Dukakis fosse eleito, já que ele aprovou “saidinhas” de presos enquanto governador. A joia da coroa veio num comercial, chamado de Revolving Door. Nele, vários criminosos, entram numa prisão por uma porta giratória, saindo em seguida, fazendo uma alusão a política de saidinhas de Dukakis. De todos os presos no comercial, o único que olha para a câmera é o negro, denotando que era dele que as pessoas deveriam ter medo. O comercial, EVIDENTEMENTE RACISTA, funcionou. Bush foi eleito.

Bush e Atwater na festa da vitória

Uma vez eleito, Bush, que tinha como mote de campanha “No New Taxes” — Sem mais impostos- para conter os sucessivos déficits da gestão Reagan, acabou se vendo forçado a aumentar impostos. A ala radical do partido, saudosa de Reagan, sentiu-se traída e assim Bush ganhou um adversário na primárias de 1992, Pat Buchnan.

Na economia, Bush não teve sorte. O ciclo de crescimento dos anos 80 cedeu. Na política externa, ao invés de pular comemorando em cima do Muro de Berlin, Bush preferiu ser pragmático em relação a Queda da União Soviética.

Em 1991, Saddam Hussein, então ditador do Iraque, invade o Kuwait, aproveitando-se do maior exército da região e de todo o equipamento americano que recebeu na guerra contra o Irã -1979–1989. Bush, numa coalizão de países, ordena a libertação do Kuwait, o que é primeiramente recebido com forte oposição interna, já que o país tinha o trauma da Guerra do Vietnam. Apesar disso, a ação militar foi rápida e bem-sucedida, fazendo com que a popularidade de Bush chegasse a 90%. Estranhamente, Bush, após libertar o Kuwait, preferiu não invadir o Iraque para derrubar Saddam. Atitude que na época foi muito questionada mas que hoje se mostrou altamente elogiável.

Na eleição de 1992, todos os grandes nomes democratas resolveram não disputar as primárias devido a alta popularidade de Bush após a Guerra do Golfo. Isso abriu caminho para que um jovem governador do Arkansas, Bill Clinton, conseguisse ganhar a nomeação democrata, mesmo com a divulgação de áudios de suas conversas com sua amante vazados.

Destruir a reputação de Clinton seria até fácil, mas como “Karma is a bitch”, Lee Atwater, a mente por trás da primeira eleição de Bush, acabou não podendo participar da eleição de 1992, pois foi acomedido de um horroroso câncer no cérebro que o deixou desfigurado e o matou dolorosamente em 1991.

Se pelo lado democrata havia o charmoso Clinton, pela direita, surgiu um milionário chamado Ross Perot. Perot advocava contra o Nafta, o acordo de livre comércio defendido por Bush, e também queria, aos moldes de Reagan, uma reforma tributária para diminuir ainda mais os impostos para bilionários como ele — um ideário que só chegaria ao poder em 2016 com Donald Trump.

A existência de Perot na disputa tirou votos conservadores que iriam para Bush e que acabaram fazendo muita falta, e assim pavimentaram o caminho para a vitória de Clinton, com apenas 40% dos votos. Dessa forma vergonhosa, Bush sairia da Casa Branca, mas seu sobrenome para lá voltaria menos de 10 anos depois.

Bush era o retrato de uma ala do partido que hoje perde espaço para o populismo de Trump e para radicalismo ideológico do Tea Party. Por mais que tenha sempre se oposto a retórica racista e demagógica, sem as artimanhas de Atwater, jamais a um sujeito como ele teria sido alçado ao poder. E se há algo que podemos aprender com isso é que os fins não justificam os meios, já que os mesmos métodos ordinários usados por Atwater para dar a vitória a Bush em 1988 foram depois usados para escantear os Bushs do poder e fazer o partido republicano ser tomado pela mais pura escrotidão. Sendo assim, é sempre preferível perder com honra que ganhar sem ela, pois quem perde a honra por um negócio, mais tarde, perde a honra e o negócio.

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