A exatos 4 anos eu estava na praia de Copacabana. Era um comício do Aécio e eu cheguei cedo. Eu, como antipetista fanático, não poderia perder aquela oportunidade. No meio do evento, porém, algo ocorreu que balançou meu coração. Eis que vi com meus próprios olhos Jair Messias Bolsonaro, o ícone do antipetismo e pude trocar poucas palavras com ele.

“Bolsonaro, eu quero votar mesmo é em você”, disse para aquele homem de olhos azuis vítreos e cabelos loiros escorridos.

Por mais que eu tenha nascido num lar evangélico e numa família de militares, minha educação foi bastante efetiva na minha doutrinação à esquerda, mas mesmo quando ainda era um infante, eu já não gostava do Lula, por algum motivo. Simplesmente não ia com a cara dele.

Mais velho, ao me deparar com a realidade da economia, escorreguei com força para a direita, abraçando com tudo os discursos de pseudo-filósofos como Olavo de Carvalho. Durante muito tempo, eu fui o chato de direita que falava de política na época em que ser de direita não estava na moda.

Hoje eu olho para trás e vejo que meu ódio ao PT me fez embarcar numa série de “viagens solitárias” as quais eu hoje me envergonho de ter feito. Eu me lembro da primeira vez que eu perdi uma amizade por causa do meu apoio ao Bolsonaro. Era uma pessoa que era muito importante e legal. Eu fiquei com raiva por ela ser tão intolerante a ponto de cortar contato comigo por esse motivo, porém hoje eu me ponho no lugar da pessoa e vejo com a figura do Bolsonaro pode atacar a sensibilidade de algumas pessoas.

Conforme o tempo foi passando, a minha idade adulta me fez ter dificuldades de ficar passando pano para todas as falas com conotação racistas, machistas e homofóbicas do meu então candidato. “Está fora do contexto”, “está editado” ou “MIMIMI” eram alguns dos meus argumentos para justificar o que hoje julgo como completamente injustificável. Eu, como alguém que já sofreu preconceito, percebi que seria muito hipócrita em relevar essas coisas, e simplesmente decidi não relevar mais.

Hoje eu acordei, e ao olhar as pesquisas, vi que quem lidera no primeiro turno geralmente vence no segundo, então tudo indica que Bolsonaro irá vencer a eleição, e que não precisará do meu voto. Creio que Bolsonaro gerará um grande otimismo nos primeiros meses, porém sua falta de habilidade política irá emperrar o Brasil na direção certa e pior, seu fracasso pode até alimentar a narrativa do PT.

O que me parece previsível é que haverá uma normalização do clima de polarização. A imprensa irá atacá-lo sem dó com matérias associando sua chegada ao poder com aumento da violência doméstica, disparidade salarial, casos de racismo, ataques homofóbicos, etc.

Pessoalmente, eu tenho firme confiança que a nossa democracia conseguirá suportar os próximos 4 anos, apesar do clamor por intervenção militar caso o Congresso e o Supremo vire as costas para o próximo presidente. Uma outra previsão fácil de fazer é que o Supremo queira legislar sobre drogas e aborto.

Bolsonaro é o presidente que eu queria, e depois passei a não querer mais, no entanto, será o presidente que eu terei. Por mais que creia que ele não terá apoio no congresso para passar as reformas que o Brasil tanto precisa, essa foi a escolha que o povo fez e talvez seja isso que mereça. Talvez seja preciso mais 4 anos de ingovernabilidade para que o eleitor passe a crer que negociar com o Congresso é condição senequanon para avançarmos.

No final das contas, eu olho pra mim a 4 anos e o que vejo pensava da mesma forma como os bolsominions pensam hoje. Quem sabe daqui a 4 anos muitos deles não pensem como penso hoje.

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