A campanha de Alckmin, a mais rica e experiente, possui 44% do tempo de TV. Apesar disso, ela não possui no horário eleitoral seu maior trunfo, já que quase todos desligam a TV, mas tem nas inserções durante a programação normal uma poderosa arma para entrar na casa de milhões de brasileiros noveleiros que ainda assistem TV.

Caso a eleição refletisse o que acontece na internet, com certeza Bolsonaro seria eleito no primeiro turno, porém o próprio acesso às redes sociais ainda não é universal no país, sendo que ele se presencia muito mais nas camadas mais ricas do Sul-Sudeste, onde Bolsonaro já vem liderando. Entretanto, nos rincões do país, internet de qualidade ainda é para poucos.

Além dos interioranos, o eleitorado mais idoso ainda resiste em se informar pela internet, consumindo muita TV e rádio. O perfil desse eleitorado da 3ª idade é o de senhoras aposentadas, que param pra assistir qualquer novela. Para esse perfil, o tema saúde é sempre o mais determinante para a escolha do voto. Como Alckmin tem um bom case melhorando a saúde no estado em que governou, e ele possui um enorme tempo de TV, é natural que ele veja nesse eleitorado a janela para o seu crescimento.

Hoje, foi lançado um comercial bastante interessante. Ao som de música clássica, uma bala de uma arma atinge objetos que simbolizam fome, desemprego e saúde. No último quadro, ele encontra a cabeça de uma criança negra. ‘Não é na bala que se resolve’, diz a legenda.

O alvo do candidato não poderia ser mais claro: Jair Bolsonaro. Mesmo sem ser nomeado, nas pesquisas qualitativas as pessoas apontaram que era ele quem estava sendo atacado.

O comercial foi desenhado claramente para as mulheres, que por motivos evolutivos, tem repúdio a armas, já que associam a resolução de conflitos através da violência como algo desvantajoso. Ademais, o comercial apela ao senso comum, posto que de fato não se resolve tais problemas com violência — o objetivo da peça é associar o discurso de Bolsonaro a soluções simples e violentas para problemas complexos.

Mas talvez a melhor sacada do comercial foi ter colocado uma criança na direção da bala, o que apela diretamente aos instintos maternos do eleitorado feminino. Pra fechar com chave de ouro, a criança é negra, o que apela para a compaixão das mulheres que sabem que uma mulher negra é o perfil social com maior desvantagem na nossa sociedade.

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