John McCain hoje emitiu uma nota alegando que desistiu de continuar com a quimioterapia que está fazendo para combater o câncer alojado no seu cérebro. O Senador americano, com mais de 70 anos, tem pouquíssimo tempo de vida, mas sua família está toda reunida em torno dele para assegurar que ele tenha a melhor partida que um homem poderia ter. McCain é um homem que viveu de forma exemplar, e está morrendo de forma ainda mais nobre.

Neto e filho de generais do alto comando do exército americano, quando os EUA entrou na Guerra do Vietnam, McCain prontamente não pensou duas vezes antes de lutar em prol de seu país. Em contrapartida, Donald Trump, filho de um milionário, alegou ter um problema na perna para pedir dispensa da guerra. Anos mais tarde, quando perguntado qual era a perna com problema, Trump disse não se lembrar e mencionou que sobreviver ao HIV durante a juventude foi o seu “Vietnam pessoal”.

Na guerra McCain teve seu avião abatido atrás das linhas inimigas. Capturado, foi levado para uma prisão junto com outros prisioneiros americanos em Hanoi. Lá, sofreu torturas, porém nada disse aos vietnamitas. Em virtude dessas torturas, acabou carregando para sempre sequelas que o acompanharam pelo resto de sua vida, como a dificuldade de andar e de esticar os braços.

Ao saberem que McCain era filho de um general, os vietnamitas ofereceram sua soltura, porém McCain recusou ir sem seus outros companheiros. Essa decisão de companheirismo e bravura custou mais um ano de prisão, mas ao final ele e todos os outros americanos foram soltos.

De volta aos EUA, McCain, cheio de traumas psicológicos e tomado por dores, recebeu uma Medalha de Honra pelos seus feitos, dada pela mão do presidente.

Anos depois, quando o conservador senador republicano Barry Goldwater anunciou que sairia do Senado, McCain, o herói de guerra, decidiu disputar a eleição ao Senado pelo Arizona, e desde 1986 tem representado o Estado, recebendo o apelido de Maverick — “rebelde”-por sua coragem de defender o que achava certo mesmo contra a vontade de seu partido, não tendo medo de negociar com o partido opositor para compor legislações.

Em 2000, McCain disputou contra George W Bush as primárias do partido Republicano para disputar a presidência. Enquanto McCain simbolizava a ala mais moderada do partido, tanto em questões econômicas como sociais, Bush, o candidato do establishment abraçou a direita cristã. Na primária do Estado conservador da Carolina do Sul, McCain foi alvo de uma forte campanha de difamação por parte da campanha de Bush, que inclusive espalhou que sua filha adotiva negra na verdade seria uma filha que teria tido fora do casamento.

Derrotado na Carolina do Norte, McCain teve de esperar 8 anos para ter outra chance. Em 2008, dessa vez com um discurso bem mais conservador, conseguiu a nomeação do partido, porém, com o estouro da crise econômica durante o final do governo Bush, McCain não tinha muitas chances. Mesmo em desvantagem, recusou-se a endossar a campanha de difamação contra seu opositor Barack Obama, tendo escolhido não atacá-lo em virtude de sua religião, origem ou etnia. Ele perdeu a eleição, mas escolheu não perder sua honra.

McCain nunca foi um santo. Financiado pela indústria armamentista, sempre foi a voz mais belicosa a pedir por guerras no Senado Americano. Apoiou a Guerra do Iraque -o que se provou o maior erro da gestão Bush-, defendeu bombadear o Irã e fez lobby para armas os rebeldes na Guerra da Síria. Apesar disso, McCain desafiou seu partido para aprovar uma reforma eleitoral e foi o voto decisivo para impedir que a Obamacare fosse rejeitada, o que deixaria milhões de americanos sem cobertura em planos de saúde.

No campo moral, McCain, vítima de tortura, sempre se opôs a tortura, sempre defendeu os direitos humanos de refugiados de Guerra, e criticou Trump por seus comentários islamofóbicos. Trump, quando perguntado sobre as críticas de McCain, alfinetou o herói de guerra dizendo que gostava de soldados que não eram capturados, uma clara ofensa a todos os prisioneiros de guerra aos quais Trump fez questão de jamais se desculpar.

Mesmo após notificar o país que estava lutando contra o câncer, Trump continuou suas alfinetadas contra o senador, e alguns trumpistas inclusive demonstraram alegria ao saberem de sua doença. Por isso, é muito triste ver que a morte de McCain pode deixar o partido republicano no momento em que este se transforma a cada dia na imagem e semelhança de sua desavença. Entretanto, o tempo é o senhor do destino.

Gostaria que ele vivesse para ver o início do impeachment de seu inimigo, mas o tempo de vida dele é muito curto. Portanto, descanse em paz, McCain. O mundo é lugar pior sem você.

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