Casa de Papel, um seriado elegante e a crítica mesquinha do Dois Dedos de Teologia


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A última série que assisti foi a aclamada série espanhola Casa de Papel. Na série, um professor recruta um grupo de assaltantes, cada um especialista naquilo que faz, para assaltar a Casa da Moeda. O plano não é assaltar um banco, e sim imprimir o próprio dinheiro. Dessa forma, os assaltantes não estariam roubando ninguém e o crime deles seria minimamente prejudicial a sociedade, ou seja, até para fazer o mal o professor se esforça para fazê-lo da forma mais benevolente possível.

Um canal evangélico no youtube chamado Dois Dedos de Teologia fez um vídeo inteiro metendo o pau na série. Chegaram ao ponto de dizer que foi o pior seriado já feito, já que nele torcemos por vilões, por assaltantes, inclusive por um estuprador na visão dele. O principal ponto da crítica do vídeo é que ao roubar dinheiro da casa da moeda, imprimindo dinheiro, os personagens estariam contribuindo para o aumento da inflação e esta inflação prejudicaria principalmente os mais pobres. Logo, na série seríamos forçados a torcer por aqueles que, na prática – se existissem -, seriam os nossos inimigos.

Achei interessante a crítica desse canal, primeiro porque segue o costume evangélico de estar sempre na contramão da simpatia do público, o que apenas colabora para que aumente ainda mais a antipatia contra a religião; segundo porque ele não parece ter visto o episódio em que o próprio professor diz que aquilo que eles estão fazendo na ficção – imprimir dinheiro para benefício próprio – é o que o governo na realidade faz todos os anos, num volume muito maior, para beneficiar o sistema financeiro. Resumindo, se meia dúzia de personagens ficcionais imprimem dinheiro eles são os demônios encarnados, mas nunca vi vídeo dele com a mesma indignação quando isso acontece na vida real para aparar banqueiros. Dessa forma, o próprio seriado se manifesta criticando a mesma impressão de moeda que o canal diz que o seriado defende.

Se a crítica tem um ponto – e não tem – é quando aponta que a série nos faz torcer pelos vilões. Torcer pelos vilões não é algo novo na dramaturgia e simples fato de mostrar personagens cinzentos, com personalidade que não são apenas boas ou más, é um ponto positivo, já que espelha a realidade em que vivemos, onde ninguém é 100% bom ou mal. Todos nós apenas temos os nossos interesses e lutamos por eles dentro do que podemos.

A série é boa porque bem lá no fundo, todos nós queríamos ter todo aquele dinheiro que os personagens estão roubando. No fundo, sabemos que estamos inseridos num sistema econômico que trabalha não a nosso favor, e por isso quando vemos alguém lutando contra ele, sentimo-nos não só representados como também vingados.

Além disso a série faz um excelente trabalho de humanizar ao máximo os ladrões, que inclusive fazem de tudo para poupar a vida dos reféns. Numa cena, um personagem, tal como Cristo, sacrifica-se; noutro, um personagem faz de tudo para que uma mulher não aborte seu bebezinho. A relação de amizade, companheirismo e afeto é explicitada, ao passo que a polícia é vista como uns babacas. Aliás, são justamente as relações pessoais entre os personagens, o que o professor acertadamente proíbe, que faz o seriado valer a pena.

O personagem mais vilanizado da série é Arturo, o gerente do banco, o indivíduo que é privilegiado pelo sistema com uma função hierárquica de liderança. Arturo é egoísta, pensa primeiramente em si e submete outros a sua vontade, ou seja, possui todas as qualidades que são demandadas para que alguém esprema ao máximo de seus subordinados num ambiente capitalista selvagem.

Por fim, seriado nos faz refletir acerca do papel da lei, uma vez que nos dá a impressão que ela apenas serve ao sistema – capitalista – e que se a lei só é um instrumento em prol de uma elite, então ir contra a lei não seria nem moral nem imoral, apenas mostraria se você está de acordo com o sistema. E se você é a parte prejudicada por um sistema, por que você o defende ou o obedece?

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2 comentários em “Casa de Papel, um seriado elegante e a crítica mesquinha do Dois Dedos de Teologia

  1. Dila Carvalho 24/05/2018 — 18:12

    Não defendo a opinião do site criticando o filme, mas, dizer que os evangélicos vão na contramão de simpatia com o público, é uma honra. Para isso fomos chamados, para proclamar o que acreditamos, e, por isso seríamos odiados e perseguidos.

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  2. O problema não é o mundo nos odiar. O problema é que muitas vezes o mundo nos odeia não pelo que fazemos em favor de Cristo mas a despeito disso.

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