Qual é a posição de Jesus sobre o divórcio?


Olá amiguinhos!

Esses dias eu estava assistindo um vídeo do Augustus Nicodemos no Youtube quando deixei lá um comentário malvado. Pouco tempo depois uma pessoa respondeu meu comentário, pedindo para que eu conversasse com ele no whatsapp. Como bom cristão, fiquei a madrugada inteira conversando sobre religião com aquele jovem evangélico, e por incrível que pareça, ele foi muito amável e a partir de certo ponto parou de me contestar e deu a parecer que concordava com tudo que eu estava dizendo. Bem, acho muito difícil ele concordar com o que lhe disse e ao mesmo tempo continuar acreditando numa versão fundamentalista da bíblia, tão comum entre os evangélicos.

Um dos pontos do nosso debate se deu acerca do divórcio. Eu lhe perguntei se ele achava que uma pessoa que se divorciava cometia pecado, já que a bíblia só permitia o divórcio em caso de adultério. E depois lhe fiz a seguinte pergunta: Se só se pode divorciar em caso de adultério, como fica o caso da mulher que é espancada pelo marido? Se ela se divorciar irá cometer pecado e ficar sem tomar a comunhão? Ele não conseguiu responder.

Então eu citei os seguintes versículos:

“Se um homem casar-se com uma mulher e depois não a quiser mais por encontrar nela algo que ele reprova, dará certidão de divórcio à mulher e a mandará embora. Se, depois de sair da casa, ela se tornar mulher de outro homem, e este não gostar mais dela, lhe dará certidão de divórcio, e a mandará embora. Ou se o segundo marido morrer, o primeiro, que se divorciou dela, não poderá casar-se com ela de novo, visto que ela foi contaminada. Seria detestável para o Senhor. Não tragam pecado sobre a terra que o Senhor, o seu Deus, dá a vocês por herança. 
Deuteronômio 24:1-4

“Foi dito: ‘Aquele que se divorciar de sua mulher deverá dar-lhe certidão de divórcio’. Mas eu digo que todo aquele que se divorciar de sua mulher, exceto por imoralidade sexual, faz que ela se torne adúltera, e quem se casar com a mulher divorciada estará cometendo adultério. 
Mateus 5:31-32

O casamento deve ser honrado por todos; o leito conjugal, conservado puro; pois Deus julgará os imorais e os adúlteros. 
Hebreus 13:4

Alguns fariseus aproximaram-se dele para pô-lo à prova. E perguntaram-lhe: “É permitido ao homem divorciar-se de sua mulher por qualquer motivo?” Ele respondeu: “Vocês não leram que, no princípio, o Criador ‘os fez homem e mulher’ e disse: ‘Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois se tornarão uma só carne’? Assim, eles já não são dois, mas sim uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, ninguém separe”. Perguntaram eles: “Então, por que Moisés mandou dar uma certidão de divórcio à mulher e mandá-la embora?” Jesus respondeu: “Moisés permitiu que vocês se divorciassem de suas mulheres por causa da dureza de coração de vocês. Mas não foi assim desde o princípio. Eu digo que todo aquele que se divorciar de sua mulher, exceto por imoralidade sexual, e se casar com outra mulher, estará cometendo adultério”. 
Mateus 19:3-9

Quanto aos assuntos sobre os quais vocês escreveram, é bom que o homem não toque em mulher, mas, por causa da imoralidade, cada um deve ter sua esposa e cada mulher o seu próprio marido. O marido deve cumprir os seus deveres conjugais para com a sua mulher, e da mesma forma a mulher para com o seu marido. A mulher não tem autoridade sobre o seu próprio corpo, mas sim o marido. Da mesma forma, o marido não tem autoridade sobre o seu próprio corpo, mas sim a mulher. Não se recusem um ao outro, exceto por mútuo consentimento e durante certo tempo, para se dedicarem à oração. Depois, unam-se de novo, para que Satanás não os tente por não terem domínio próprio. Digo isso como concessão, e não como mandamento. Gostaria que todos os homens fossem como eu; mas cada um tem o seu próprio dom da parte de Deus; um de um modo, outro de outro. Digo, porém, aos solteiros e às viúvas: É bom que permaneçam como eu. Mas, se não conseguem controlar-se, devem casar-se, pois é melhor casar-se do que ficar ardendo de desejo. Aos casados dou este mandamento, não eu, mas o Senhor: Que a esposa não se separe do seu marido. Mas, se o fizer, que permaneça sem se casar ou, então, reconcilie-se com o seu marido. E o marido não se divorcie da sua mulher. Aos outros, eu mesmo digo isto, não o Senhor: Se um irmão tem mulher descrente e ela se dispõe a viver com ele, não se divorcie dela. E, se uma mulher tem marido descrente e ele se dispõe a viver com ela, não se divorcie dele. Pois o marido descrente é santificado por meio da mulher, e a mulher descrente é santificada por meio do marido. Se assim não fosse, seus filhos seriam impuros, mas agora são santos. 
1 Coríntios 7:1-14

Primeiramente, para entender o que Jesus disse é preciso entender o contexto em que ele estava inserido. Nas sociedades daquela época, a mulher era vista como uma propriedade do homem, tanto é que todas as ordenanças sobre o casamento são direcionadas aos homens. O que acontecia é que muitos homens acabavam repudiando suas mulheres, expulsando-as de casa e devolvendo aos pais. Nesse caso, a mulher ainda estaria casada com ele e não poderia se casar novamente. Em outro caso, o homem dava a carta de divórcio a mulher, que permitia que a mulher pudesse se casar de novo. O problema é que o homem que tinha pago o dote pelo casamento não liberava a mulher, querendo que outro viesse e para se casar com a sua repudiada, que lhe restituísse o seu investimento.

Não é preciso pensar muito pra ver como isso era injusto para as mulheres. Jesus, que andava no meio de prostitutas, deveria ter ouvido diversas histórias de mulheres que, após serem repudiadas, foram obrigadas a ter que se prostituir para sobreviver. Por isso a posição de Jesus foi uma tentativa de conciliar a lei mosaica com uma visão mais justa para o lado mais fraco da questão, que era as mulheres.

Nos dias de Jesus havia um intenso debate sobre divórcio que se dava pelas duas escolas rabínicas da época. Para Hileel, o homem poderia repudiar a mulher por qualquer motivo, já para Shamai era preciso ter uma justificativa. Jesus, quando perguntado acerca do tema, fica mais perto de Shamai ao estipular um critério claro e definitivo para que o homem repudiasse sua mulher. É evidente que Cristo, ao dizer que o homem não pode repudiar sua mulher, exceto em caso de adultério, ele não está falando no caso de adultério do homem mas da mulher. Com a posição de Cristo, o homem já não poderia largar a mulher por qualquer razão, e assim as mulheres estariam protegidas, ao menos que violassem o juramento feito no quando do casamento.

O que acontece é que a instituição do casamento atual pouco ou nada se parece com o casamento da época de Cristo. O casamento judaico era um contrato feito pelos pais dos noivos e logo depois, dependendo do nível social das famílias, o casamento durava dias. Já o casamento cristão, é um ritual que foi formado gradualmente. Já no Velho Testamento, Isaque apenas viu Rebeca e a trouxe para a tenda, aonde consumou o casamento. Daí, todas as relações seriam uniões, mas existiriam boas e péssimas uniões.

Enquanto a posição de Jesus naquele contexto protegia as mulheres essa mesma posição aplicada ao nosso contexto pode oprimi-las a aguentar situações insustentáveis. O que Jesus queria era proteger o lado mais fraco, e esse é o princípio que deveria nortear a relação com o divórcio. Alguns pastores fazem uma gambiarra teológica para alegar que o marido que espanca a mulher estaria classificado como “abandono”, e logo a mulher poderia se divorciar. É evidente que espancar a esposa é muito pior que a abandonar. Portanto essa equiparação não faz o menor sentido e só serve para dar a ilusão que a visão fundamentalista evangélica pode dar uma solução sensata para a questão do divórcio, quando na verdade não pode.

No caso da igreja católica, ao menos flexibilizou a questão do divórcio quando possibilitou que as partes pudessem apelar a um tribunal eclesiástico para que seu casamento pudesse ser anulado. Dentre os motivos da anulação, poderia a mulher alegar que o marido escondeu um segredo importantíssimo que acabou com a união deles, ou que o cônjuge mentiu sobre quem era, etc.

O problema é que ainda assim, as igrejas ainda não encampam a possibilidade do divórcio pela falta de amor. Sem amor, uma união vitalícia com uma pessoa torna-se uma missão insuportável. Se já é difícil manter um casamento com que nós amamos, imagine com quem não amamos. As pessoas religiosas assim ficam amarradas e literalmente escravizadas pela decisão que fizeram anos antes, quando ainda sentia algo que hoje não sentem mais, quando eram pessoas que hoje já não são mais, quando viam o cônjuge como hoje já não veem mais.

Avaliando bem a questão, o divórcio quando o amor acaba ou quando há incompatibilidade total de gênios pode ser sim a melhor saída para quem já fez de tudo para restaurar a sua relação. Infelizmente existem situações imprevisíveis que nos fazem termos que reavaliar nossas decisões do passado. Se imaginarmos um contrato feito por duas pessoas em que não existe nenhuma cláusula de saída, não demorará muito até que um dos lados abuse do trato e o outro se veja no direito de sair dele. De igual modo, ao casarmos, o certo seria que estipulássemos bem quais são os pontos pelos quais o nosso relacionamento está alicerçado, e assim quais seriam as atitudes que não poderiam ser perpetradas. Cada casamento teria as suas próprias regras e seus próprios alicerces, já que cada casal é diferente do outro.

O grande problema do divórcio é quando adicionamos a questão a figura dos filhos. Estatisticamente, o divórcio dos pais pode prejudicar uma criança pro resto da vida. E o número de crianças que são abusadas por padrastos aumenta conforme o divórcio aumenta. Daí o porquê de que, quando há outras vidas em jogo, já não é cabível que o casal pense apenas nas suas próprias felicidades.

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