Determinismo e Livre Arbítrio nos games


Pergunta enviada pelo https://curiouscat.me/ACIDBLACKNERD

Antes de mais nada, o que seria livre arbítrio? O que é estar determinado a algo? É possível ser livre e não ter arbítrio? Em contrapartida, é possível ter arbítrio e este não ser livre? Até hoje, não encontraram uma resposta cabal para resolver a questão do livre arbítrio, que é mais do que necessária não só para avaliarmos o sentido de nossas vidas e decisões, mas também para mensurarmos nossa culpa e responsabilidade de nossas ações.

Primeiramente, é preciso deixar claro que o conceito de Livre Arbítrio não se aplica a Deus, já que Deus, sendo onisciente, nos daria a ideia de ser predeterminado mas não seria porque se ele decidiu executar certa decisão não é porque esteja predeterminado, uma vez que Deus é onipotente e não precisa decidir de acordo com um destino desenhado por outro ser. Logo, ele está na verdade determinado a fazer o que faz. Pelo contrário, Deus poderia ser livre? Livre do que? Existe algum elemento externo que pode coagi-lo? Não, logo tais conceitos não se aplicam a Deus.

Para um amante dos jogos de RPG como eu, viver num livre arbítrio seria como jogar o jogo Chrono Trigger, um jogo em que o “criador” fez vários finais e cada um depende das suas decisões. As dezenas de finais alteram elementos significativos do jogo. Apesar de você não poder criar um final, pois todos os finais possíveis for predeterminados pelo criador, o jogador tem uma certa sensação de liberdade, de que pode conduzir o seu próprio destino dentre aqueles estabelecidos por Deus. Nesse jogo, as suas decisões importam, e toda essa dinâmica faz com que o personagem principal, Chrono, um arquétipo de Cristo, que morre e volta a vida, possa mudar o próprio destino, causando finais que variam desde os mais felizes até os mais apocalípticos.

Já no controverso mas por mim querido Final Fantasy VIII, o jogo se encaixaria mais no conceito de determinismo. Nele, você vive Squall, um jovem introspectivo e cheio de problemas emocionais mal resolvidos, que se vê envolvido numa aventura que no início até parece ser bastante coerente, mas depois de um confronto com um bruxa, em que é atravessado por uma estaca de gelo, o que faria com que qualquer um morresse, ele acorda sem nenhum ferimento, como se nada tivesse ocorrido, e a partir daí a história começa a ficar lúdica e totalmente exagerada, caminhando para um lado diferente do realismo mostrado até então, indo para um final clichê com direito a ficar com a mocinha e salvar o mundo no final.

O ponto é que não importa quais sejam as suas escolhas, nesse jogo só há um final. Toda a história, todas as suas decisões, tudo que você possa fazer é incapaz de sair do script do “criador da história”. Todas as suas escolhas são falsas escolhas, ilusões, já que não importa quais sejam, caminharão para o mesmo fim. Em todo o jogo você se cativa pelo mundo e pela aventura, passeia pelo mapa de carro, mas a liberdade é dosada. Você pode até curtir o jogo já que pode escolher como chegará ao final, mas o final mesmo está totalmente fora do seu controle. É como se ao controlar Squall o jogador apenas controlasse um robô com um script pré-formatado.

Essa ideia nos faz perceber como Squall é pequeno em relação a Chrono, já que enquanto este último tem livre escolhas que faz com que sua existência tenha um propósito, Squall vive falsas escolhas. Ele habita um mundo em que não pode escolher suas característica, não pode escolher seu contexto, tampouco sua personalidade. Não escolheu aquilo que faz o que é, apenas foi colocado numa situação e a partir daí é conduzido a toda uma cadeia de eventos já definidos pelo script. Ele apenas cumpre um papel já escrito, um destino imutável, sendo levado sem perceber a um caminho para ele imprevisível. Enquanto a graça de Chrono Trigger é poder escolher não só o seu destino mas também o do mundo em que você vive, a graça da existência de Squall é apenas contemplar seu destino, aproveitando sua vida como se fosse um sorvete que todos sabem que vai acabar mas que pode ser saboreado até seu previsível fim. Não importa quais decisões Squall se esforce pra fazer, elas já estão todas no script. Na prática, o livre arbítrio de Squall, que pensa ser capaz de fazer suas próprias escolhas, é uma mera fantasia.

O Livre-arbítrio é a doutrina que afirma que o Homem é autónomo e responsável pelas suas acções.
Santo Agostinho na sua obra De Libero Arbítreo defende o livre-arbítrio dizendo que o mal era fruto da liberdade humana. Deus dotou o Homem de livre-arbítrio com a intenção de que este viva plenamente o Bem. Caberia ao Homem agir de forma consciente e escolher entre o bem bem e o mal. O livre arbítrio possibilitaria o Homem ser um sujeito moral e a sua existência seria uma prova do amor de Deus por nós e da sua vontade de que nos relacionemos com ele livremente.

O Determinismo radical afirma que o livre-arbítrio é incompatível com a concepção de um mundo regido por leis causais. Todos os fenômenos do Universo poderiam ser explicados em função das causas. Nas mesmas circunstâncias, as mesmas causas produzem os mesmos efeitos. Daí que, todos os seres constituídos por matéria, incluindo o ser humano e tudo o que lhe diz respeito, estão sujeitos a este princípio de causalidade, ou seja, todo o nosso comportamento é constrangido e predizível.
Embora os cientistas não demonstrem que todos os acontecimentos, sem excepção, obedecem a regularidades causais, este facto não elimina a probabilidade, do Universo físico ser como nos propõem os deterministas. O determinismo é um postulado científico e  serve de fundamento à universalidade das leis.

O Indeterminismo afirma que alguns acontecimentos, como é o caso dos estados mentais, não têm causa, ou seja, ocorreriam aleatoriamente, isto é, as nossas acções não são determinadas.
Werner Heisenberg, um dos fundadores da mecânica quântica disse que é impossível prever o comportamento de um dado sistema de partículas, pois elas comportam-se de uma maneira num momento e de outra maneira no momento seguinte, sem que se possa encontrar a causa dessa mudança. Assim, podemos admitir que o indeterminismo que rege o mundo das microparticulas também se aplica à vontade humana.
Contudo, o princípio do indeterminismo não conseguiu abalar significativamente o determinismo, uma vez que continuou e continua a ser a teoria aceita pela comunidade científica.

O Compatibilismo é a doutrina que concilia o determinismo e livre-arbítrio.
Os defensores do compatibilismo defendem que, embora os nossos comportamentos sejam causados por forças físicas, químicas, biológicas e psicológicas, é considerado acção livre tudo aquilo «que não teria acontecido se eu não tivesse querido que acontecesse». A liberdade não supõe um acto sem causa mas apenas que temos controlo sobre alguns dos nossos comportamentos.
Para os deterministas as causas constrangem o comportamento, remetendo-os para um único futuro possível. Para os compatibilistas algumas das nossas acções são livres. São determinadas (influenciadas por causas) mas não são constrangidas. Podemos fazer sempre escolhas condicionadas.

Conclusão

A questão do livre arbítrio é fundamental para a filosofia, principalmente para as aplicações da moralidade. Pelo livre arbítrio, um jovem negro da periferia que nasceu numa favela e num lar desestruturado, que porventura cometa um assalto, cometeu o ato pelo seu livre arbítrio, já que poderia não ter feito aquilo e ter trabalhado honestamente, tal como o jovem branco de classe média que nasce num lar estruturado. Logo, seria apenas o livre arbítrio do negro que diferencia a ação do jovem negro da do jovem branco. E a própria existência de jovens negros que nascem em condições semelhantes e que são honestos seriam a prova cabal de que o jovem negro cometeu seu erro por pura e livre escolha.

Fica evidente no exemplo acima que os fatores pré-determinados que estiveram fora do controle da pessoa aumentaram fortemente as chances dele cometer o crime. E além disso, é possível que o jovem negro criminoso e o jovem negro honesto tenham também uma diferenciação pré-determinante, que pode passar desde traumas na infância a forma como o cérebro da pessoa funciona, que seria determinada pelos genes herdados pelos pais. Dessa forma, a ação do jovem negro não teria sido de livre escolha e esses fatores deveriam ser mensurados na hora do julgamento moral a que ele é submetido. E assim é para com todas as nossas ações fruto de causas as quais não controlamos.

Uma vez um cientista fez uma experiência. Ele pediu para pacientes escreverem num papel o exato momento em que decidiram apertar um botão. Ele averiguou que a mensagem no cérebro para apertar o botão saia segundos antes do momento em que a consciência das pessoas achava ter feito a decisão. Isso provaria que o que faz mesmo as nossas decisões seriam as camadas internas da nossa consciência, que nos enganam a fazermos acreditar que somos nós que fazemos nossas decisões.

Num outro experimento, um cientista chamado Walter Pennfield deu choques em regiões do cérebro capazes de fazer determinadas ações. Uma vez estimulados pelos choques, os pacientes mexiam os braços e as pernas, mas a sua consciência não era afetada. Eles sabiam que eram ações involuntárias. Isso provou que era possível influenciar o corpo através de estímulo no cérebro, mas não era possível influenciar a mente. Sua conclusão foi que existia algo fora do cérebro responsável pela consciência, ou seja, a mente não seria produto do cérebro. Uma prova disso é que existe uma parte do cérebro responsável por codificar a cor de um objeto e outra por codificar a forma, mas nenhuma para combinar essas duas coisas, o que nos levaria a conclusão que a nossa própria percepção da realidade não estaria apenas no cérebro.

A prova cabal de que a consciência não é produto do cérebro são as experiências de quase morte, em que mesmo sem funcionamento cerebral, as pessoas relatam estarem conscientes. Pessoalmente, duvido do conteúdo dessas experiências, mas o que importa é aqui é que elas se mantém conscientes. Mesmo o cérebro parando de funcionar e depois voltando, a identidade da pessoa na volta ainda é a mesma. Outra prova seria o caso das pessoas com anencefalia conscientes e racionais.

Por que estou falando de cérebro se estou falando de livre arbítrio? Porque estudos comprovaram que pessoas com derrame que fizeram tratamentos foram capazes de remapear áreas do cérebro para que atuassem como as que perderam no derrame. Se o cérebro é plástico, é possível que a mente a manipule, então nós poderíamos mudar o nosso próprio cérebro caso consigamos dominar as nossas camadas interiores de consciência, e ao fazemos isto poderíamos tomar controle sobre a variável principal do nosso processo decisório. Isso refutaria o determinismo fatalista e me leva a adotar uma posição compatibilista nessa questão.

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