Anatomia da Nova Direita Brasileira


Olá amiguinhos!

Se você viajou para algum lugar distante ou ficou hibernando muito tempo dentro de uma caverna, talvez você não tenha percebido, mas nos últimos anos temos vista a ascensão de uma Nova Direita. Sim, nova direita. Creio que seja útil diferenciar essa direita da antiga direita, caracterizadas pelos velhos dogmas da bipolaridade da Guerra Fria.

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A nova direita se divide em duas partes, a conservadora, que se exemplifica pelo apoio à Bolsonaro, e a liberal, que hoje seria simbolizada pelo MBL. Nesse texto, para não complicar muito, estamos excluindo da equação essa parte liberal – só pra simplificar.

Antes de mais nada, é preciso entender que essa ascensão só está ocorrendo porque a velha direita brasileira praticamente entrou em colapso devido a alguns episódios fatídicos. O primeiro deles foi o longo e degastante período em que os militares ficaram no comando do país, não só saindo desmoralizados perante boa parte da população, como também nesse longo período permitirão que a esquerda tomasse conta das universidades, das redações de jornais, dos canais de TV. Em suma, os militares, que entraram em 1964 prometendo ficar alguns meses e convocar novas eleições, ficaram 21 anos, e seu maior legado foi entregar todos os meios de ação políticos nas mãos dos mesmos esquerdistas que diziam combater.

Durante todo o período da Nova República, o Brasil foi governado praticamente pelo Sociais democratas tucanos e pelos petistas. Graças a forte oposição do PT pela esquerda, o PSDB, um partido estuarialmente esquerdista, viu-se obrigado a defender pautas “direitistas” para governar, como foi o caso das privatizações, que não fizeram por ideologia, mas por necessidade. Assim, formou-se a polaridade PT-PSDB que conhecemos até os dias de hoje, polaridade essa que exclui do debate a velha direita e os apologistas do Regime Militar.

Porém os anos se passaram, e o desgaste com os partidos do establishment político brasileiro fez renascer a já falecida direita que andava adormecida até então. O desgaste econômico e moral do país, somado a percepção de que as políticas para as minorias estavam excluindo a vontade da maioria, fez com que milhões de brasileiros saíssem do armário com direitistas assumidos. No entanto, para a infelicidade do PSDB, esses milhões, que sempre votaram no partido simplesmente para evitar o PT, agora articulariam uma candidatura própria e com seu próprio ideário.

De início, as vozes lúcidas do direitismo brasileiro, como Reinaldo Azevedo e Carlos Andreazza, simpatizantes dos tucanos, tentaram exorcizar e denunciar o crescimento dessa nova direita que os canibalizariam. Em poucos anos, suas ideias provavelmente encontraram um público cada vez menor na direita e – vejam só – pode ser que um dia sejam rotulados como esquerdistas.

Mas afinal, o que aconteceu para que a direita tucana entrasse em extinção? Os motivos são vários, mas os principais é que o PSDB nunca defendeu as privatizações que fez, sempre tentando parecer uma versão limpinha e mais eficiente do que o PT se apresentava. Essa falta de identidade pouco a pouco foi criando uma demanda no eleitorado brasileiro por uma terceira via. O outro ponto que não deve ser desprezado foi o crescimento cancerígeno de seitas evangélicas que, pegando carona nos anos de crescimento econômico petistas, quiseram traduzir o aumento de fiéis e de recursos que obtiveram em poder político. Sua agenda conservadora, de congelar todo e qualquer avanço social para gays e impedir a todo custo qualquer flexibilização da criminalização do aborto e das drogas fez com que na época de eleições, forçassem os candidatos a adotar suas visões em troca do voto de seus – nem sempre pobres – fiéis.

Foi nesse cenário de decadência do governo petista em virtude da crise econômica e de toda a sua corrupção, assim como descrédito na oposição, que figuras sombrias como Olavo de Carvalho começaram a ganhar o coração dos jovens apresentando “um outro lado”. Dos EUA, o ex-astrólogo e fugitivo do hospício formou uma pequena porém barulhenta massa de pessoas doutrinadas para combater a esquerda sem medo de parecerem retrógrados ou mal educados.

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Uma outra voz que ganhou notoriedade foi a do então deputado do baixo clero Jair Bolsonaro, que ao repetir mantras simplistas do senso comum como “bandido bom é bandido morto” e fazer uso de uma retórica contrária à minoria homossexual, acabou por arrebatar o coração de milhares de pessoas que pensavam exatamente como ele e que finalmente viam um político ter a “coragem” de dizer o que eles tinham vontade de dizer e não podiam. Dessa forma, qualquer um presumiria que o crescimento de Bolsonaro não foi gestado apesar das besteiras que proferiu, mas por causa delas. Sem ter jamais dito suas frases chamativas, como por exemplo, o episódio do CQC em que disse algo que foi entendido como racista, Bolsonaro jamais teria ganhado a visibilidade que ganhou.

Desprezo por qualquer intelectualidade universitária, nacionalismo ufanista, negação e revisionismo histórico, desprezo pela democracia, saudosismo monárquico, “cristianismo” tribal, visão seletiva da realidade, insistência na crença de que George Soros queira instaurar o comunismo no Mundo, consumo de literaturas e fatos “alternativos”, aversão aos tratados assinados sobre Direitos Humanos. Some a esses ingredientes uma forte paranoia sobre “globalismo”, “invasão islâmica” e outras demais teorias da conspiração e pronto. Temos a nossa Nova Direita.

A Nova Direita vende ideias bastante confortáveis. Vide algumas abaixo:

Exemplo 1: Negros

“Não precisamos de nenhuma política pública sobre negros, aliás, os negros deveriam agradecer aos brancos por termos concedidos a eles a lei áurea, do contrário eles seriam escravizados até hoje na África”.

“Africanos no passado já escravizaram brancos, logo, estaríamos quites”.

“Não sou racista. Eu tenho vários amigos negros.”

“Não existe racismo no Brasil.”

“A escravidão aqui não era racial como nos EUA. Aqui até os negros tinham escravos.”

“Zumbi tinha escravos.”

Exemplo 2: Gays

“Gays querem se casar? Pra quê? Gays são todos promíscuos. Sejam felizes como quiserem e não nos encham o saco com essa história de demandar algum direito.”

“Eu não sou homofóbico. Eu tenho um amigo gay e ele não fica falando dessas coisas de querer casar. Ele entende que casamento é entre homem e mulher.”

“Não existe homofobia no Brasil.”

“Todos os ditos casos de mortes de homossexuais são crimes passionais entre eles mesmos.”

“No Brasil tem 60 mil assassinatos por ano e vocês estão preocupados com a morte de 600 homossexuais? Estatisticamente é inclusive mais seguro ser gay.”

“No Islã é pior. Cale a boca e aceite.”

Exemplo 3: Crimes

“A criminalidade é fruto da esquerda.”

“Tá com pena? Leva pra casa.”

“Deveríamos aplicar a tortura contra esses marginais.”

“Aumentar as penas diminui a criminalidade.”

“Bandido bom é bandido morto.”

“Todo cidadão de bem deve ter o direito de andar armado pra que possamos nos “defender” desses marginais, só assim conseguiremos erradicar a violência.”

Exemplo 4: Economia

“O Brasil está sendo roubado, basta colocar alguém de bem que a corrupção diminui e o Brasil sai do buraco.”

“O negócio é a meritocracia. Todos temos chances iguais de termos sucesso. Basta se esforçar.”

Exemplo 5: História

“A Idade Média foi o ápice da civilização.”

“As Cruzadas foram uma obra de Deus.”

“Na inquisição ninguém morreu, o que era queimado na fogueira era um boneco que simbolizava o condenado.”

“Nazismo é de esquerda.”

“O comunismo só fingiu que foi derrotado pra se infiltrar no Ocidente.”

Em suma, a Nova Direita advoga soluções simples para resolver problemas altamente complexos, quase sempre com respostas convenientes e que sempre os ausentam de qualquer culpa.

O modo de pensar dessa galera é maniqueísta. Eles veem o mundo numa luta entre nós e eles, sendo estes eles (comunistas, globalistas, islâmicos) qualquer tipo de grupo sem afinidade alguma entre si senão pelo fato de ser oporem a visão deles. Por esse motivo, eles tendem a desprezar qualquer informação vinda de alguma mídia que não esteja filtrada dentro do ideário deles. Por exemplo, se você apresenta um vídeo da CNN, eles automaticamente não acreditam, já que a CNN seria comunista, o mesmo valendo para a Globo, Folha e agora até mesmo a Veja. A grande mídia é tudo fake news. As notícias verdadeiras são só aquelas que corroboram aquilo que eles já acreditam.

Por último, termino esse famigerado texto fazendo uma fácil previsão. Essa nova direita veio pra ficar. É até bom se acostumar com ela. Eles vão assombrar nosso sistema político até que um dia consigam chegar ao poder na figura de alguém como Bolsonaro. E é claro. Se o governo Bolsonaro fracassar, num futuro longínquo eles, sem nenhuma vergonha e com a maior arrogância possível, irão alegar que o Bolsonaro na verdade era de esquerda.

 

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