Resenha: Fogo e Fúria, o livro que Trump quis censurar


Uma mulher que chegou ao topo apenas pela sua aparência e pela sua extrema tolerância num casamento sem carinho, uma filha competente na tarefa de tratar suas relações familiares como um negócio, um genro que é alçado a um posto de máxima responsabilidade sem a menor experiência, um estrategista agressivo que é capaz de fazer qualquer coisa pra avançar uma agenda nacionalista, e um presidente egocêntrico e infantil que parece nunca saber o que está fazendo. Esses são alguns dos personagens do maior best seller do ano, Fire and Fury, que desnuda de forma pornográfica os primeiros nove meses da presidência mais polêmica de todos os tempos.

Trump e Melania, sua esposa

O autor, Michael Wolff, teve acesso às entranhas da Casa Branca graças a sua elogiosa biografia anterior, sobre Rupert Murdoch, dono do canal Fox News, maior bastião da direita americana na mídia. Sua forma de contar seu período na Casa Branca não segue qualquer cronologia. O ritmo frenético e confuso da narrativa emula perfeitamente o ambiente caótico o qual está descrevendo. Tendo entrevistado várias pessoas de dentro da administração, Wolff não esconde as contradições entre os diferentes relatos, mas dá ênfase às versões que acha mais plausíveis. Diferente do que qualquer um poderia imaginar, o livro é muito menos opinativo do que se poderia esperar, e até o estilo de contar as histórias de forma anedótica, muitas vezes retratam o vocabulário e expressões que os personagens usam na realidade, o que dá a entender que muito do que foi escrito é apenas uma transliteração de conversas dadas pelo telefone por pessoas ressentidas com sua participação no governo.

Wolff é um autor que gosta de colorir seus capítulos com detalhes que faz tudo parecer caricato, tal como uma Casa Branca que emula um hospício no qual os loucos tomaram o controle. O que me dá a impressão que o livro fala de fatos reais, mas não os relata literalmente. A impressão que se tem é a de um filme de terror em que o vilão é Steve Bannon, o estrategista nacionalista, editor do portal Breitbart e principal responsável pela eleição de Trump. Por incrível que pareça, Bannon foi o personagem que mais colaborou com o livro, e foi com seus próprios relatos que Wolff pintou um vilão maquiavélico para seu drama.

Jared, Ivanka, Bannon e Priebus na inauguração

O livro começa a contar a epopeia de Trump quando este estava perdendo por 10 pontos para Hillary Clinton e ninguém acreditava que tinha chances. Seu antigo chefe de campanha foi retirado do cargo após ter agredido uma repórter conservadora – e depois de ter brigas no meio da rua com Hope Hicks, linda secretária de Trump, com quem ele tinha um caso. Após sua saída, o mais que corrupto Paul Manafort foi chamado da Ucrânia para ver se dava um jeito na campanha. Não conseguiu. Foi aí que um milionário chamado Mercer, fez a Trump uma proposta que ele não poderia recusar.

Mercer ofereceu milhões em doações caso Steve Bannon tomasse o controle da campanha. Trump aceitou sem pestanejar. Bannon, editor do maior site de extrema-direita dos EUA, era um nacionalista convicto. Ele queria acabar com a imigração, dar um enfoque mais esquerdista na economia e ir contra todas as pautas do politicamente correto. Em suma, Bannon era uma encarnação de um populista de direita europeu. A ideia de Bannon é que a maioria da população americana se sentia bastante sacaneada pela manada de imigrantes mudando a cultura do país e tirando seus empregos. Então, para vencer, teriam que se desvincilhar das ideias – segundo ele – elitistas do partido e abraçar os preconceitos do cidadão comum. Bannon também tinha uma visão sui generes na política externa. Isolacionista, queria diminuir o papel dos EUA como polícia do mundo, mas sempre via a China e os islâmicos como uma ameaça tal como os nazistas eram nos anos 30.

Bannon fez o que parecia impossível. Elegeu Trump. Segundo o livro, ao saber de sua vitória, Trump ficou surpreso como um fantasma, enquanto lágrimas – não de alegria – rolavam do rosto de sua esposa de plástico, Melania. Toda a equipe da campanha parecia estar em choque. Todos estavam se preparando para tentar capitalizar com a derrota. Uma vez derrotados, os trumpistas iriam culpar a falta de apoio do establishment e clamar o protagonismo no partido, já o establishment torcia para que a derrota os livrasse dos populistas. Para todos, perder era ganhar.

Christie parado igual um abajour atrás de Trump

Nos dias seguintes a eleição, uma correria se instaurou na Trump Tower, quartel general de Trump. Havia pressa e debates para discutir quais seriam os nomes que fariam parte da administração. Muitos nomes qualificados, ligados ao establishment republicano e temendo o caos que seria trabalhar com Trump, recusaram convites. Trump então resolveu escolher pessoas pelo critério que mais lhe importava: lealdade. Chris Christie, governador que o apoiou nos momentos mais difíceis acabou sendo limado por ter no passado condenado o pai do genro de Trump num caso de corrupção. A ordem de cortar o escalpo de Christie partiu de Ivanka, que convenceu o pai de que manter Christie por perto seria ruim para família. E assim foi feito. Nesse caso, família primeiro, lealdade depois.

Como Trump não parece saber delegar funções, escolheu seu genro Jared Kushner e sua filha Ivanka para ocuparem postos de destaque. Na cúpula, estes dividiriam o ouvido do presidente com Bannon e com Reince Priebus, representante do establishment republicano. Jared e Ivanka, historicamente democratas, destoavam de Reince – republicano – e de Bannon – nacionalista -, tendo este último o objetivo principal de tirar o casal do caminho para avançar sua agenda influenciando o presidente.

A primeira ação de Trump na presidência foi, através dos conselhos de Bannon,  barrar a entrada de pessoas de países islâmicos nos EUA. A ordem foi feita numa sexta, justamente para causar confusão. O plano de Bannon era que ao radicalizar as ações, Trump faria com que os democratas radicalizassem a oposição contra ele, e como a população americana é conservadora, prefeririram o radicalismo conservador ao progressista. Porém, a primavera de Bannon no salão oval duraria pouco. Dias depois, a Síria foi acusada de usar armas químicas contra sua própria população. Bannon achava que não era problema dos EUA e que eles deveriam evitar qualquer conflito, já Ivanka defendia uma resposta militar. Trump, após ouvir milhares de opiniões desencontradas, decidiu agir militarmente. Desmoralizado, Bannon passou a vazar informações de dentro da Casa Branca à imprensa para tentar minar os “globalistas” Jared e Ivanka. Em outro episódio, Ivanka se opôs a saída dos EUA do acordo de Paris, mas dessa vez Trump ficou com Bannon e saiu do acordo.

Enquanto isso, Reince Priebus, só se importava em passar a agenda do establishment – fim do obamacare e cortar impostos -, mas via que o ambiente caótico na Casa Branca era demasiado nocivo para ele. Pensara primeiro em ficar 1 ano para colocar no currículo, mas após seis meses pediu demissão. Aliás, nenhuma outra administração teve tantas demissões em poucos meses, o que explica o porquê de tantos vazamentos de histórias, já que o que não faltava eram ex-funcionários ressentidos pra contar o seu lado do ocorrido.

Steve Miller, ao lado de outro propagandista famoso

Algumas figuras inexpressivas, que em qualquer outro momento jamais pisariam na Casa Branca, não passam batidos no relato de Wolff, como é o caso de Steve Miller, um jovem de aparência maquiavélica, decrepta e sem talento, que entrou na campanha através de Bannon, e cuja única qualidade era concordar com tudo que este acreditava. Para ser sincero, Miller era até mais radical que Bannon. Também na ala nacionalista estava Gorka, que possuía opiniões igualmente nocivas e fez questão de ir a inauguração com uma cruz parecida com as que os nazistas usavam.

Hope Hicks e seu ex-amante Corey Lewandowski

Boa parte do livro mostra Trump como um rei isolado no seu quarto e adulado por um monte de puxa-sacos. Um de seus principais problemas é sua aversão a leitura dos memorandos, que para serem lidos, passaram a ser resumidos numa só página e sempre com figuras, e ainda assim nem sempre são lidos. Se Trump despreza memorandos, ele dá bastante atenção a TV. Passa suas noites trancado no quarto – ele e sua esposa ficam em quartos separados -, comendo hambúrgueres e assistindo três tvs de plasma, cada uma num canal diferente, para saber se estão falando dele. Ao ver qualquer menção a seu nome, Trump aumenta o som e tuíta uma resposta muitas vezes em tempo real. Se existe algo que Trump não gosta, é receber críticas. Portanto, sua secretária Hope Hicks todos os dias lhe dá um briefing com as notícias boas mais relevantes. Hicks, uma jovem insegura e com medo do gênio forte do patrão, sabe que não pode contrariá-lo em hipótese alguma e já aprendeu como responder sempre que a todo momento Trump pede sua opinião acerca de um tema difícil.

Uma passagem interessante é que numa determinada conversa, Rupert Murdoch alerta Trump para que este não entre em conflito com o FBI ou o serviço secreto, conselho este que é sumariamente desobedecido. O que se segue é uma onda de retaliações por parte de órgãos de inteligência -só pra mostrar quem é que manda- através de vazamentos de informações a imprensa sobre o escândalo da Rússia. Por sinal, o livro fala pouco sobre o escândalo acerca da interferência russa nas eleições. A impressão dada é que não houve acordo entre a equipe de Trump e os russos, uma vez que ninguém cria numa vitória eleitoral. O que o livro dá a entender é que Don Jr., Paul Manafort e o general Michael Flynn tinham intenções de agir em acomunamento com os russos, mas isto nunca foi pra frente. Logo, a investigação sobre esse caso apenas levará a crimes de lavagem de dinheiro que Trump teria feito com oligarcas russos por intermédio do Deustche Bank.

O último capítulo que me chamou atenção foi a resposta de Trump a tragédia de Charlottesville, onde nazistas, membros da Ku Kux Klan, supremacistas brancos e outros membros da ALT RIGHT entraram em confronto com esquerdistas, causando a morte de uma pessoa. A imagem de suásticas ao lado de bonés com a estampa “Make America Great Again”, slogan de Trump, foi uma lembrança daquilo que Trump trouxe a luz com sua retórica combativa e nacionalista. Ele acordou e legitimou pessoas que até antes de sua eleição não encontravam uma voz na política americana. No protesto, racistas como David Duke e Richard Spencer tentaram capitalizar em cima do Trumpismo para ganhar mais notoriedade na mídia, louca para mostrar racistas e associá-los com o presidente. Por fim, Trump foi defenestrado ao dizer que havia pessoas do bem “em ambos os lados do conflito”, esquecendo-se que num lado haviam nazistas. A repercussão dessa gafe foi péssima e vários nomes na administração quiseram entregar seus postos.

Concluindo, a leitura das duzentas páginas em inglês é uma experiência deliciosa, capaz de dar boas risadas a qualquer pessoa que conclui que, com Trump na presidência, nada está sob controle. Trump trouxe a polêmica e a confusão a um meio até então dominado pela chatice, e se merece crédito por algo, é por ter gerado material para o desenvolvimento desse divertido livro, que tem como único defeito não ter um final digno da história que está contando. Cabe agora torcermos para que haja uma continuação, e que o livro vire série da Netflix. Quanto ao final dessa história, pode ter certeza que não será feliz.

 

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