O triste fim do astrólogo Olavo de Carvalho


Olá amiguinhos!

Pra ser bastante sincero com vocês, leitores, escrevi esse post pensando na possibilidade de que o Olavo morresse sem que eu tivesse dado o devido espaço a ele nas minhas palavras. Como o ex-astrólogo fuma como uma chaminé – hábito este que ele insistentemente diz não fazer mal algum -, o mais prudente da minha parte seria correr para fazer este post enquanto ele ainda se encontra vivo.

Uma outra possibilidade não desprezível é a que eu venha a morrer antes dele, o que me privaria da oportunidade de assistir a repercussão estrondosa que sua morte provocaria. Fico imaginando as lágrimas descendo nos rostos de milhares de alunos do seu “curso online de filosofia”. Posso até prever as centenas de textos que serão publicados em homenagem ao “maior filósofo brasileiro de todos os tempos” no Facebook, as fotos que serão publicadas no Instagram e os milhares de vídeos feitos para ele no Youtube. É bem possível que seu obituário seja publicado em alguns jornais, mas não duvido nada que o fato passará batido pelo Jornal Nacional.


Olavo & eu

Conheci o Olavo em 2010 – já tarde. Na época ele fazia um programa chamado True Outspeak. Minha primeira impressão foi que ele era muito radical e caricato. Só assisti 10 minutos e fiquei logo entediado já que vi que o vídeo tinha mais de uma hora de duração. No mesmo dia, desci pra portaria do meu prédio e um cara puxou papo comigo. Disse-lhe que era de direita e ele me perguntou se eu era seguidor do Olavo de Carvalho. Disse não. Então subi pro apartamento e resolvi terminar de ver o vídeo que assistira antes. Apaixonei-me.

Foram dias e dias escutando todos os seus programas, lendo todos os seus textos, consumindo tudo o que eu pudesse do guru da Virgínia. Minha admiração tornou-se tanta que meu sonho era ir aos EUA conhecê-lo pessoalmente. Fiquei tão chato que meus amigos e familiares cansaram de me ver falando sobre alguma teoria da conspiração aprendida por meio dele. Até uma camisa personalizada com a estampa “Olavo tem razão” o bobalhão aqui mandou fazer.

Como nasci no meio evangélico, já estava familiarizado com o perfil de um chefe de seita, o que fez com que atentasse para aquilo no qual estava entrando. Por sorte, a lavagem cerebral pela qual me submeti não foi completa, ou seja, sempre me dei ao luxo de cometer o pecado de discordar do Olavismo em alguns pontos. E por meio de tais discordâncias fui me afastando cada vez mais até 2016, quando, ao ver que ele não defendia o impeachment, mas a queda de todo o estamento burocrático, percebi que ele já tinha trocado a realidade pelo ideal utópico e se desconectado daquilo que era possível para o Brasil. De lá pra cá, passei a concordar com aquilo que fazia sentido nele e rejeitar boa parte do ideário do ex-astrólogo.

Olavo em sua antiga profissão

A lógica do Olavismo

Tomando meu caso como referência, creio que muitas pessoas aderem ao Olavismo por alguns motivos recorrentes. Geralmente são jovens egressos da doutrinação esquerdista nas nossas péssimas instituições de ensino. Muitos são até mesmo cristãos à procura de alguém que reforce aquilo no que já acreditam e querem continuar acreditando. Daí aparece uma figura carismática, que parece ter toda a cultura que nos foi negada na academia, defendendo uma religião que a maioria dos filósofos defenestra. Ademais, Olavo oferece aos seus neófitos um vasto e valoroso conhecimento sobre toda uma miríade de assuntos, capaz de transformar qualquer aluno esforçado num promissor intelectual. O único problema é que, no meio de todo esse conhecimento válido e precioso, Olavo mistura também teorias da conspiração, uma visão inquisitiva da ciência, revisionismo histórico e toda sorte de “fatos alternativos”.

Vou dar um singelo exemplo. Ano passado, Olavo foi convidado para um debate na renomada Universidade de Harvard, mais famoso centro acadêmico do país mais poderoso do mundo. Era a chance que Olavo tinha de finalmente ser reconhecido pelo mesmo ambiente acadêmico que sempre virou-lhe as costas. Num célebre momento, no meio de tantas outras pérolas, o filósofo afirmou que 80% dos universitários brasileiros eram analfabetos funcionais. Talvez Olavo tenha se esquecido que não estava no seu curso online de filosofia, onde podia falar qualquer coisa que lhe saia da cabeça, sem que esteja lastreada em fatos. Mas não estava.

Olavo então foi confrontado por uma reles aluna que mostrou uma pesquisa do Instituto Paulo Montenegro, apontando que apenas 4% dos universitários não são alfabetizados funcionalmente, ou seja, o exato oposto do que ele disse. Olavo, provando possuir um ego enorme, típico de uma divindade do Olimpo, não retirou o que disse, tampouco pediu desculpas, já que reconhecer tal erro seria algo que uma pessoa que posa de sábia não deveria fazer na visão dele. O que houve na realidade foi que Olavo queria provar  seu ponto, que a universidade está cheia de analfabetos, não se importando se para isso precisaria distorcer fatos.

Esse episódio resume a mentalidade inquisitiva presente no Olavismo. Ele distorce alguns fatos, omite outros ainda mais importantes, apenas para provar o seu ponto inicial. Os dados que não corroboram o que pensa são desprezados, enquanto os que corroboram recebem atenção dobrada. Com essa linha de raciocínio não é de se assustar que teorias da conspiração e “fake news” sejam tão facilmente absorvidas, ao passo que o conhecimento científico seja costumeiramente desafiado pelo Olavismo, como, por exemplo, a negação do heliocentrismo.

Se, por exemplo, existem 1000 pesquisas feitas pelos mais respeitados cientistas a favor do aquecimento global e apenas uma feita por um cientista sem expressão contra, a conclusão é que as 1000 pesquisas são uma grande fraude, que todos os que nelas trabalharam são embusteiros a serviço de alguma conspiração global, e que o único falando a verdade é o pobrezinho do cientista que combate a teoria. O fato dele encaixar uma conspiração global para reforçar sua linha de raciocínio poderia fazer com que muitos alunos ficassem alertados para a loucura que estão tomando como verdade, mas, muito pelo contrário, o fascínio pelo misticismo e por teorias espalhafatosas parece ser o que atrai jovens inocentes ao culto olavista.

Além do notório delírio de grandeza do seu guru, que se auto-intitula filósofo e se acha o maior intelectual do Brasil, o Olavismo também se caracteriza pela defesa irracional que os fiéis demonstram quando seu mestre é devidamente exposto e refutado. Pra vocês terem ideia, um seguidor teve a pachorra de dizer que Olavo estava certo sobre os 80% de analfabetos funcionais nas universidades, distorcendo os dados da forma mais desonesta possível só pra limpar a barra do seu guru. Vale tudo pra defender o astrólogo. Afinal das contas, se ele estiver errado, uma vez que seja, os comunistas vão dominar o mundo, não é mesmo?

A lógica do Olavismo é a mesma de um vale-tudo. Vale palavrão, vale mentir, vale insulto, vale desonestidade intelectual, vale espalhar fake news, vale criar teorias estapafúrdias, vale até dar o cu pra vencer os esquerdistas. E se a academia é cheia de esquerdistas e Olavo tem razão e eles não, então vale falar que todo mundo lá é analfabeto. A verdade não importa. O que importa pra ele é vencer o inimigo, que diz ora ser os comunistas, ora os globalistas, ora os islâmicos, ora os fabianos, ora qualquer um que discorde dele. Como o Olavismo está sempre em guerra com a ideologia revolucionária, para vencê-la, vale-se até das táticas sujas dos revolucionários. O problema desse anticomunismo raivoso é que, apesar do esquerdismo ser ruim, nem tudo que é anti-esquerdista é necessariamente bom. Se um esquerdista diz que 1+1= dois, não existe nenhuma forma de discordar dessa afirmação sem ser desonesto.

 

Pra quem ainda não entendeu como funciona o Olavismo, explicarei de novo:

1- Olavo fuma.

2- Olavo gosta de fumar e não quer parar.

3- Olavo conhece meia duzia de velhinhos que fumam e tem saúde.

4- Olavo ignora todas as pesquisas e estudos científicos.

5- Olavo ignora os milhões de mortos por câncer que fumavam.

6- Olavo acha cômodo defender que a guerra ao tabagismo faz parte de um plano mundial com o fim de restringir a liberdade da população.

7- Olavo pega as estatísticas de mortos por câncer e faz uma ginástica para não correlacionar as mortes com os países que mais consomem tabaco.

8- Olavo conclui que o cigarro não faz mal a saúde.

9- Seus seguidores, completamente influenciados por todas essas baboseiras, querendo posar de politicamente incorretos ou simplesmente com vontade de imitarem seu guru, começam a prática.

10- Daqui a alguns anos centenas de seguidores serão diagnosticados com câncer. E provavelmente vão inventar uma outra conspiração globalista pra justificar a doença.

Esse é o Olavismo. Tira sua saúde, faz com que você terceirize seu cérebro para um astrólogo, enlouquece você furtivamente e te mata no final.


Olavismo em si

No Olavismo é muito mais fácil confirmar seus conceitos que revê-los. Nesse sentido, Olavo oferece aos seus alunos, aos quais a partir daqui me referirei carinhosamente como olavetes, um obscuro cardápio de literaturas que não conversam a academia, seja a brasileira ou qualquer outra. De tal forma, a olavete, ao entrar no Olavismo, adentra num universo paralelo maluco em que cada livro apresentado sempre confirmará as ideias do guru.

Passando o tempo, as olavetes adquirem uma certa intelectualidade – pois tem muita coisa boa pra ler – e ficam cada vez mais convencidas. Como o olavismo destoa muito da realidade, a saída para não encará-la muitas vezes é se cercar numa espécie de bolha de fatos alternativos junto com outras olavetes, onde uma vai sempre concordando com a outra, e onde elas podem passar horas estudando assuntos que nunca irão ajudá-las no mercado de trabalho. Aliás, o cursinho de filosofia que o Olavo vende pela internet, além de não ter fim, não oferece diploma porque obviamente não é reconhecido pelo MEC, o que faz com que seja um pouco dificil colocá-lo no currículo quando você procurar emprego. Quem sabe algum dia o Olavo ofereça um diploma de otário para os seus alunos?

Apesar de ser um ambiente ideologicamente homogêneo, brigas entre olavetes não são raras, principalmente devido a vaidade e loucura desse meio. Como a mistura entre purismo ideológico e fanatismo religioso está sempre presente, não raras as vezes vi uma olavete chamando outra de esquerdista, de fabiano ou de liberal. Vira e mexe há discussões infantis entre católicos e protestantes, sendo que estes últimos, apesar de tolerados, nunca escapam de uma boa corretiva por parte do mestre.

O fator religioso de Olavo, outrora membro de uma seita islâmica, manifesta-se notoriamente na adoção de um catolicismo tão anticomunista que Olavo já teve a coragem de “excomungar” o sumo pontífice de sua própria igreja, o Papa Francisco, simplesmente porque este teria apoiado a “fé revolucionaria”, seja lá o que isso significa. O Papa Francisco não é o primeiro religioso que Olavo se viu no direito de excomungar. Olavo começou sua carreira de excomungador do clero católico meses antes, quando excomungou o cardeal Odilo Scherer. Declarações desvairadas como essas poderiam macular a imagem de Olavo perante as olavetes católicas, porém, estas já estão suficientemente fanatizadas a ponto de não enxergarem contradição alguma em tais declarações.

Sem sombras de dúvidas, a maior contribuição de Olavo para o debate público brasileiro foi instituir o palavrão como argumento válido numa discussão. O “filósofo” faz uso de ofensas bastante rasteiras para um discípulo de Cristo. Seus seguidores cristãos, ao vê-lo xingando, ao invés de exortá-lo, vibram e aprovam toda vez que Olavo coloca seus inimigos “no seu devido lugar”.

 

Uma coisa que sempre me deixou perplexo foi o passado do Olavo – período, que, por motivos óbvios, ele não costuma falar muito. Ele é acusado de ter começado sua epopeia num hospício, tendo depois se envolvido numa tariqa islâmica maluca na qual os professores e alunos teriam algumas práticas indecentes. Aliás, muitos dizem que foi nessa tariqa que Olavo ganhou seu know-how como chefe de seita. Know-how este que temos visto ele colocar em prática nos últimos anos. Prova disso é que o astrólogo não aceita ser contrariado por alunos e trata egressos do seu movimento com muita agressividade.


Conclusão

Levando em consideração o tudo apontado acima, creio que o Olavismo jamais será predominante na intelectualidade brasileira, tampouco influenciará futuros governantes, estando fadado apenas a ser patrono de ideias que ficarão reservadas a extrema-direita do espectro político futuro. Suas principais posições tenderão a ser desprezadas pelos especialistas, sejam estes cientistas, diplomatas ou historiadores. No entanto, acredito que o movimento permanecerá vivo mesmo após a morte de seu guru, que continuará ocupando cérebros de escritores, políticos, jornalistas e religiosos de um nicho escanteado na extrema-direita. Mas é só. O Brasil, por bem ou por mal, não tem no seu DNA a paixão pelos extremismos – de direita ou de esquerda.

Logo, mesmo que saibamos que é inevitável que ele seja deificado pelas olavetes do futuro, a mensagem de Olavo não ocupará um lugar de destaque na nossa história. Até porque, pra ser levado a sério por esta, precisa-se ser uma pessoa séria, coisa que Olavo apenas fingiu ser. Se ele for lembrado, será apenas como alguém que que foi e lutou pelo politicamente incorreto. O problema é que, nessa vida, muito mais importante que ser politicamente incorreto é estar correto, e não há nada como o tempo para provar quem realmente tem a razão.

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2 comentários

  1. Acho q vc escreve muito influenciado pelo seu arrependimento. E tb acho q vc não tem frequentado universidades brasileiras ultimamente, para ver q não só o analfabetismo estrito, mas o rudimentar domínio da escrita é muitíssimo frequente na universidade brasileira. O uso de “80%” foi uma expressão de exagero para enfatizar, como é hábito dele. Mas uns bons 50% com tranquilidade há. E, convenhamos, ele se pretende intelectual, não exemplo de perfeição de conduta. Quem é isento de vícios q atire pedras. Ah. E poderia ler tb um pouco sobre Teologia da Libertação.

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