Análise do debate entre Olavo de Carvalho e Paulo Roberto Almeira acerca do Globalismo


Olá amiguinhos!

Dias atrás o Brasil Paralelo publicou um interessantíssimo debate sobre um tema que vem ganhando cada vez mais notoriedade nos últimos anos: o famigerado globalismo. Dentre os debatedores, estavam Olavo de Carvalho, simplesmente o pai da direita existente no Brasil, e Paulo Roberto Almeida, doutor em Ciências Sociais.

A mais agradável surpresa do debate foi o fato de Olavo não fazer uso de seus recorrentes palavrões, os quais ele conseguiu elevar na direita brasileira como “argumento válido” contra a esquerda. Porém no caso específico, seu oponente estava longe de ser um esquerdista, e muito pelo contrário, demonstrou um pensamento coerente, sensato e pragmático, ao contrário do ideólogo da Virgínia, que defendeu suas costumeiras teorias da conspiração insistentemente.

O que se viu no debate foi um embate entre um especialista, que vive debruçado sobre o tema diariamente a décadas, tratando do assunto de forma seca e sem paixões, e um intelectual, que se propõe a entender de todos os assuntos possíveis para tentar enxergar a realidade atual de forma mais ampla. Dessa forma, um dos dois estaria errado, pois ou a questão pode ser melhor entendida se analisada sozinha ou se preenchida com outras n variáveis.

O debate sobre o globalismo, apesar de super elevado, só não foi mais produtivo porque o termo globalismo significava duas coisas diferentes para cada um dos participantes, sendo que quando cada um voltava ao tema, na verdade, apesar de usarem o mesmo nome, falavam de construções completamente diferentes.

Para o doutor, a globalização seria um processo natural e inevitável fruto da evolução econômica, que em meio a diversos benefícios, acarreta na perda de soberania de países na medida em que a conexão entre eles exige regulamentações e acordos internacionais. Já o globalismo seria mais um “ismo” da área política, usado como termo difamatório por nacionalistas. Por isso não há que se falar em globalismo. Não existe nenhum político dizendo: “eu sou globalista”. O que há é um processo que sempre aconteceu e que vem se acelerando mais fortemente nos últimos anos,  e por isso o usam como bode expiatório. Quanto a ONU, UNESCO, OCDE e afins, elas não se constituem num governo global já que tem poderes limitados e a própria existência de um seria impossível. Pelo contrário, tais instituições cumprem um papel positivo ao negociar conflitos, julgar disputas comerciais e efetuar ajuda humanitária.

Para Olavo, “globalismo” seria um movimento fantasmagórico que quer destruir as soberanias mundiais para instaurar uma agenda maligna e um governo mundial, ou seja, seria o típico clichê vilanesco por parte de uma elite para “dominar o mundo”.

Quem já é mais velho sabe que essa história arquetípica já foi contada várias vezes no decorrer da história. Geralmente só o que muda é a dita elite malvada. Os alemães no século passado achavam que tudo fazia parte de uma conspiração judaica para a dominação mundial, só que após a Segunda Guerra, ficou um pouco feio colocar a culpa de todas as mazelas do mundo num povo indefeso que tinha acabado de ser carbonizado em câmaras de gás. Era preciso escolher um novo inimigo para continuar a mesma narrativa fantasiosa e maniqueísta. Desde então, os vilões deixaram de ser os judeus pra serem os maçons, os Illuminati, os Bilderbergs, etc.

Na versão Olavette, existiriam 3 blocos com aspiração global no mundo (mais a frente veremos que só poderia existir um). Haveria o bloco russo-chinês, formado pela cúpula do ex-bloco sino-soviético, com a intenção de dominação através do socialismo. Também existiria o califado islâmico, com o interesse de dominar o globo com a religião islâmica. Por último, o globalismo ocidental, simbolizado pela ONU, que se caracterizaria pela influência metacapitalista Bilderberg e a promoção de uma agenda gramcista contra os valores judaico-cristãos.

 

Califado Islâmico

O projeto do Califado global é o mais inviável. Primeiro por que seria impossível converter o mundo inteiro a uma religião só através do convencimento, segundo por que o próprio Islã não tem condições de impor sua religião ao mundo inteiro pela força. Para o Islã dominar o mundo, primeiro ele teria que ser unificado, porém não existe união entre xiitas e islâmicos. Muito pelo contrário, tais grupos vivem num infinito duelo de forças no Oriente Médio, sem que um lado pareça capaz de subjugar o outro tão cedo.

Além do fato dos islâmicos estarem muito mais ocupados matando eles mesmos pra se ocuparem conosco, os países islâmicos, apesar de numerosos em população, juntos, não corresponderiam a um perigo real a ordem global. Tais países possuem zero bombas atômicas, pouquíssimos porta-aviões e as suas tecnologias de guerra, ou é comprada do EUA, ou da Rússia, ou da Europa.

Se serve de consolo, o Islã é o projeto com a menor pressa, não importando pra eles se terão de esperar milênios até atingirem seus objetivos. E mesmo que não seja possível tomar o mundo pela força, há a esperança de conseguirem fazê-lo através das taxas de natalidade. De fato, se as tendências continuarem, o Islã irá conquistar a Europa, África e a Ásia nos próximos séculos, mas quem imagina esse cenário islamizado despreza a possibilidade de baixa de natalidade entre muçulmanos, o que já vem ocorrendo. Também não imaginam que a própria religião pode se subdividir mais ainda, tanto em setores mais radicais como mais moderados.

Portanto, a expansão islâmica no máximo nos causará mais atentados terroristas rotineiros e incômodos, mas não há razão ainda para temermos um apocalipse islâmico.

Bloco Russo-chinês

Pra início de conversa, essa ideia parte do princípio que os militares da Rússia e China iriam se aliar por um objetivo comum. Se analisarmos a guerra do Paquistão, em que em plena Guerra Fria a Rússia apoiou a Índia e a China o Paquistão, veremos que existem divergências de interesse entre os dois países, que muito além de lutarem para “defender o socialismo”, lutam mesmo pelos mercados das empresas de seus países. Por mais que Olavo passe a impressão de que o comunismo esteja “mais vivo do que nunca”, na prática, a ideologia só resiste ainda na Coreia do Norte. Os demais países ex-soviéticos hoje encontram-se envolvidos pela globalização. O que nos leva a pergunta: Que interesse teria a China, que cresce exportando produtos baratos pra EUA e Europa, de entrar numa guerra com EUA e Europa?

Já a ameaça do socialismo não parece tão sedutora como antigamente. Partidos socialistas dogmáticos como Partido Comunista Brasileiro, Partido Comunista do Brasil, Partido Socialista disso ou daquilo, perdem força no próprio campo da esquerda para partidos mais progressistas, com ênfase em temas morais, tais como casamento gay, aborto, ideologia de gênero, etc.

Sabemos que a economia russa está de quatro, o país vive com medo de sanções econômicas da ONU e Putin tem que rebolar pra lidar com separatistas islâmicos no Daguestão e na Chechênia. Logo, seria louco crermos que o país possui recursos infinitos para colocar agentes da KGB em tudo o que é canto. Pior ainda, seria crermos que tal “bloco” teria alguma influência em manipular a ação dos outros “blocos”.

Mesmo com inferioridade militar em relação aos EUA, Rússia e China possuem bombas atômicas, e se juntas, poderiam, na melhor da hipóteses, causar um estrago enorme no âmbito militar – mas ninguém entra num conflito se acha que não irá vencê-lo.

Globalismo Ocidental

 

De fato, o único desses grupos que no momento, através da ONU, teria condições de implantar um governo mundial. Agindo para os interesses de uma elite do tipo Bilderberg, tal governo seria justificado pela União Global em prol de algo que só pode ser feito em conjunto de todos, como é o caso do combate ao aquecimento global. Nesse caso, já que todos os países estão implicados, a ONU estabeleceria normativas aos países, que pagariam multas ou seriam retalhados militarmente em caso de recusa. Dessa mesma forma, a ONU pode ferir a soberania de países impondo medidas econômicas ou forçando mudanças sociais, que na maioria das vezes são contrárias ao que é defendido pelas religiões.

Na cabeça de Olavo, esses 3 “blocos” ora agem juntos, ora lutam um contra o outro. Por exemplo, o globalismo ocidental quer imigração livre pra encher a Europa de islâmicos, assim ajudando o califado islâmico. Contudo, o globalismo ocidental quer destruir valores religiosos e isso seria contrário aos interesses do Califado. Essa incongruência já seria o suficiente para descartar a existência desses dois blocos, mas Olavo vai além.

Para ele, tanto o globalismo ocidental como Islã ou são influenciados ou são uma mutação do socialismo, ou seja, Olavo é capaz de enxergar que o socialismo, derrotado na queda do Muro de Berlin, na verdade só se fez de derrotado pra enganar nós bobos -mas não a ele, é claro -, e na verdade, não só está mais vivo do que nunca como se espalhou e está agindo em todos os lugares. Num inimigo imperceptível a todos, ele enxerga como onipresente; num inimigo derrotado, enxerga como super poderoso. Portanto, a visão dos três globalismos não passa de uma teoria umbigocêntrica de alguém que fez uma caricatura da realidade, e depois descartou a realidade pra viver dentro da caricatura.

Que fique claro. Eu preferiria o capitalismo.
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Um comentário

  1. Achei o Paulo Roberto bem técnico e pragmatico, como se falasse sobre uma sociedade composta de robôs. Em suas defesas ele desconsidera totalmente os interesses por trás das ações políticas das naçoes, ignora a ideologia contida em cada uma delas que movem suas ações e fecha os olhos para a guerra de discurso contida em todos os espectros politicos. Cara na moral, precisa sair um pouco do escritório e dar uma volta na rua, analisar o mundo de dentro de um escritorio, contabilmente, torna sua visão seca, pragmática e fora da realidade! O cara nega até interesses comunistas ou conservadores nas iniciativas políticas, meu, tudo hoje é movido ideologicamente. Esse cara tem um olhar raso e específista do mundo. Até esse blog possui uma inclinação ideológica que influência na crítica quanto mais no mundo.

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