Bemvindos a Era de Trump


Olá amiguinhos!

Antes de qualquer coisa, ainda estou de ressaca. A derrota provocou um abalo muito forte na minha depressiva alma, mas nada que um bom coquetel de remedinhos não dê jeito.

Primeiro lugar, devo pedir perdão por ter errado MAIS UMA previsão. E mais, como acompanho diariamente os números no Real Clear Politics, creio que essa era uma previsão que eu não tinha o direito de errar. Mas ao menos posso me vangloriar em algo. De fato Hillary venceu no voto popular. Caso a eleição não tivesse aquelas regrinhas malucas Trump jamais seria eleito. Muitas pessoas apostavam que Trump venceria, o faziam baseado em achismo e no mais puro wishfull thinking. Os números sempre mostraram Hillary com uma vantagem confortável. E mesmo nos momentos mais desfavoráveis, com liderança no colégio eleitoral.

TODAS, TODAS, TODAS as pesquisas estavam erradas. A IBP e a LA Times eram as únicas que sempre mostraram Trump na frente. A LA times reconheceu que tinha uma falha metodológica –  e por isso nem entrava nas médias das emissoras – e a última IBP mostra Hillary na frente por um ponto.

O que aconteceu? Não sei, mas tenho boas suspeitas. Trump de fato é um candidato fraco se comparado com um republicano normal. Prova disso é que obteve 59 milhões de votos, enquanto que Romney, 4 anos antes, contra um popular presidente em reeleição, obteve 61 milhões. A vitória de Trump se deve ao fato de que, enquanto Obama teve 65 milhões de votos, Hillary só teve 59 milhões.

Eu me lembro que dias atrás escrevi algo que parecia bastante óbvio: Trump ia superar Romney entre os negros. Isso era previsível. O que não era previsível era que o número de negros iria cair dramaticamente, principalmente em estados-chave. Outro ponto relevante é que Trump, como previsto, destroçou Hillary entre o eleitorado masculino branco sem nível superior, por 3,5 pra 1.

Desde o início da apuração, percebi alguma coisa estranha acontecendo. Olhando para os condados em volta das grandes cidades, Trump se mantinha competitivo. Como já sabia de cor quais eram os “swing counties” dentro dos “swing states”, ao bater os olhos no início da apuração eu vi que a vaca iria pro brejo.

Trump de fato merece crédito. Chamou mexicanos de estupradores, falou palavrões, foi pego num video dizendo que agarrava mulheres pela vagina, foi pêgo no golpe da Trump University, recusou repudiar a Ku Kux Klan, retuitou uma mensagem antissemita de um neonazista, atacou a família e a religião de seu oponente nas primárias, disse ser a favor da prisão de mulheres que abortassem, disse ser a favor de deixar a Arabia Saudita, Japão e Coreia ter uma ogiva nuclear, elogiou o ditador cruel Vladimir Putin, zombou de um repórter por sua deficiência física, atacou um prisoneiro de guerra, disse que obrigaria militares a torturarem a família de terroristas, disse que nunca pediu perdão a Deus….

No final, ele venceu. Parabéns pra ele.

Mas quem perdeu? Só a Hillary? Acho que não. Vejamos:

Já estamos vivenciando as consequências da vitória de Trump. Assim como aconteceu com a eleição de Dilma, as bolsas dispencaram. Um claro sinal de como ele será bom para a economia. Trump significa Brexit ao quadrado. Ele significa uma nova onde de protecionismo, nacionalismo e isolacionismo para os EUA. Eu não sou daqueles que acham que Trump é um maluco que entrará em guerras e usará bombas atômicas. Muito pelo contrário. Acho que ele irá continuar o processo de enfraquecimento dos EUA no espaço político externo. Ele não começará nem entrará em guerras – e creio que isso pode ser não ser tão bom quanto parece.

Trump é imprevisível. No entanto, podemos esperar um Trump bem mais moderado e pragmático. Trump já tem 70 anos. Talvez nem queira se reeleger, e olhando as chances dele, creio que ele nem irá arriscar perder em 2020. É o que aposto.

Os próximos anos serão duros para a economia americana e as propostas de Trump não me parecem boas soluções. Se ele de fato aumentar as tarifas alfandegárias nos bens chineses o mundo mergulhará numa guerra tarifária. Se diminuir os impostos sem diminuir gastos a dívida irá explodir e ameaçar a estabilidade do dólar. Os próximos 4 anos podem ser muito ruins para os rednecks que acreditam em Trump.

A pior consequência dessa eleição é que ela se tornará um divisor de águas. Veremos mais candidatos politicamente incorretos e que apelam para demagogia e retórica preconceituosa. Ano que vem veremos mais eleições na Europa, onde eurocéticos protecionistas apoiados pelo eurasianismo de Putin irão tomar boa parte dos votos. Destaque para Marine Le Pen, do Front National. Veremos o partido de Lincoln e Reagan virar o partido de Trump e David Duke. Veremos o partido democrata resolver embarcar na mesma onda de radicalismo, o que pode incorrer na ruptura do tecido social.

Não me arrependo de ter torcido contra Trump. Eu acredito em princípios, e Trump, para ganhar essa eleição, fez uso de um discurso rasteiro e de ataques infames. Trump é tudo aquilo que eu odeio na esquerda, só que na “direita”, sequestrando o partido que durante toda a minha vida aprendi a gostar. Ontem o partido de Ronald Reagan acabou. Ele deu espaço a um novo partido. Um partido nacionalista, hostil a imigrantes ilegais e ao livre mercado. Muito diferente daquilo que Reagan pregava. Ele, que era a favor da imigração e contrário ao protecionismo, morreu pela segunda vez ontem. Se em 2004 morreu fisicamente, ontem morreu como representação do partido republicano.

O lema de Trump é fazer a América Grande de novo, mas quando ela deixou de ser grande? Ela não é grande? Talvez tenha deixado de ser no dia de ontem.

Uma vez #nevertrump, sempre never Trump.

 

2 comentários Adicione o seu

  1. Narciso disse:

    Cara o único que está agindo como a esquerda e você, cotando historias pela metade e esticando-as onde lhe é conveniente, esse terrorismozinho a la Nostradamus, só demonstra uma coisa, isso é puro buthurt, possibilidade de vitoria dele sempre ouve, agora se você se baseou em New York times e CNN é outra coisa

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    1. Só assisto Fox News, Rush Limbaugh, Glenn Beco, Ben Shapiro, Erick Erickson e Michael Savage. Quanto a acusação de esquerdista, se você acha que defender protecionismo é conservador então Trump é super conservador.

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