É contra as cotas? Quem você pensa que é?


Aos 18 anos, Valéria saiu do Rio e foi para São Paulo. Negra e pobre era das mulheres a mais velha no meio de cinco crianças. Negro e alcoólatra, seu pai não lhe facilitara a vida. Mestiça e sem instrução, sua mãe pouco podia fazer. Logo, para ela, longe de casa era melhor que perto de casa. Valéria trabalhou numa farmácia, no que em São Paulo se chama quebrada. Boa funcionária que era, recebeu convite do dono da farmácia para trabalhar numa zona nobre da cidade, Higienópolis. Aceitou o convite e passou a ganhar mais. nunca vira tanto dinheiro, mesmo que ainda fosse pouco. Mandava todo mês para sua mãe boa quantia em dinheiro. A família agradeceu e agradece. Frente a seu esforço, a coloração de sua pele foi secundária. Valéria é a minha mãe.

Da direita pra esquerda: Elisa, Andréa, Denise, Valéria, Dilcéia e Celso. Ou: minhas tias, minha mãe, minha avó e meu tio. Todos vivos e vencedores, sem cotas.  


De volta ao Rio, minha mãe se dedicou e estudou, sendo aprovada num concurso público que pela primeira vez abrira para mulheres. De lá pra cá, se casou, teve dois filhos, se separou e hoje se coloca, por mais impressionante que seja, no tal 3% de brasileiros privilegiados. Absolutamente tudo fruto do seu esforço e mérito. 

Se na vida minha irmã e eu fracassarmos não terá sido culpa de nossa mãe. Menos ainda de nossa cor ou raça, como preferem alguns. Minha mãe, minha irmã e eu não somos a regra e nem podemos ser tomados como padrão dos negros, pardos e mestiços do Brasil. Mas contamos uma história, não contamos? 

Pois bem, o que faz de mim merecedor de vaga na universidade ou de cargo público mais do que um branco com as mesmas condições que eu com menos condições? Nada. Não há resposta que seja satisfatória a esta pergunta que não caia na malandragem ou se perca no racialismo dos dias de hoje. Incapazes de resolvermos problemas sociais seculares, declaramos black is beautiful e dá-lhe cotas para tudo. Se é para se dar bem na vida, agora todos declaram ter um pé na África – ver matéria


Eleitoreiramente o governo aplica a seu bel prazer políticas afirmativas que jogarão ao longo dos anos os brancos pobres ou da baixa classe média no limbo da sociedade. Ao descalabro que foi a escravidão o estado brasileiro responde com revanchismo rasteiro, com a chancela de quem deveria patrocinar a integração racial. ONGs malandramente clamam falar pelas minorias raciais como se fossemos grupo homogêneo e uníssono. Não somos. Pior: nem minoria somos, dada nossa miscigenação. Mas e daí? Aguardem até o dia que teremos cotas para os brancos excluídos. Quem viver, verá! 

Aguardem até o dia que teremos cotas para os brancos excluídos. Quem viver, verá! 


Posso ser menos reticente a cotas sociais na admissão universitária pública e particular. Embora o ensino seja uma porcaria da USP a Gama Filho, posso dar meu braço a torcer e aderir a política de inclusão de pobres, independente de cor ou raça. Quanto a cotas para entrada no funcionarismo público, além de atestar que se trata de escarnio ridículo, afirmo – quem sabe faça texto sobre isso – que na verdade precisamos demitir funcionários públicos e não contratar mais deles. Precisamos é de iniciativa privada nesse país, precisamos de menos burocracia e mais incentivos. Como disse, assunto para um próximo texto. 

Mas do que você sabe, seu filhinho de papai (estou mais para filhinho de mamãe)?
Quem você pensa que é para sair por ai criticando quem faz alguma coisa se você não faz nada?, é o que me dizem. O que você sabe sobre o racismo e a dificuldade ser negro nesse país, berra o branquelo amigo povo (branquelo pode e não é racismo, viu). 
Bom, eu sou eu. Resposta vaga, sei. Não tenho outra a oferecer. Talvez tenha. Jamais quis ser “alguém” para poder algo. Jamais precisei ser “alguém” para dizer o que penso. E ao dizer, escolho o modo que achar melhor. Se ofensivo, paciência. Se errado, sinto muito. Mudar para agradar a patrulha? Não vou. E não vou por ser um preto metido a besta, contrário a cotas para qualquer coisa que não precisa ser salvo nem por brancos com sentido tardio (e doentio) de culpa, nem por ninguém. Tenho uma resposta melhor agora: sou o filho da dona Valéria. 

Exato


E digo não as cotas! 

Fonte: http://dadireitapraesquerda.blogspot.com.br/2013/11/das-cotas-ou-quem-voce-pensa-que-e.html?spref=fb

Anúncios

9 thoughts on “É contra as cotas? Quem você pensa que é?

  1. Jânder Cruz 14/11/2013 — 10:05

    Perfeito.

    Curtir

  2. carlospropagandas 14/11/2013 — 12:11

    Acho esse negocio de cotas um absurdo sou branco(mais ou menos rs rs)pois o que deve estar em jogo é seu desempenho nas provas e não se branco ou negro(nunca gostei dessa palavra pois não acho que preto seja cor de lápis assim como branco não é cor de leite então porque não usar a primeira em vez de negro que para mim soa muito pior?o que acham?

    Curtir

  3. Paulo Cesar 16/11/2013 — 13:34

    O grande problema é que o sistema de cotas raciais para ingresso no concurso público é muito injusto, pois privilegia o afrodescendente rico ou remediado em desfavor do branco pobre ou miserável.

    Isso quer dizer que o filho negro do capitão do exército terá privilégios outorgados pelo Estado em face do filho branco da faxineira.

    Só sei que meus amigos negros não estão nada satisfeitos com esta política paternalista do Estado em relação às suas capacidades intelectuais, consideram uma desfeita e uma afronta essa política de cotas raciais.

    Curtir

  4. Wesley Sá dos Anjos 21/11/2013 — 23:16

    vou filosofar um pouco…acho que seria mais lógico dá uma cadeira que está sobrando para quem está do lado de fora, doque tirar a mesma de alguém que chegou antes para dá seu lugar pra quem que acabou de entrar…

    Curtir

  5. Heya! I just wished to ask if people have just about any trouble using hackers? My final blog wordpress has been hacked and also I ended up losing a few months of hard work due to be able to no back. Do you’ve any solutions to prevent cyberpunks?

    Curtir

  6. A politica de cota tenta reparar um injustiça de séculos contra os negros e somente contra eles.Cota pra branco baixa renda e outra história.

    Curtir

  7. pedro garcia 04/05/2015 — 18:53

    sou contra por um simples motivo:já vi muito negro,com nivel intelectual altissimo.e se vocês forem pra região amazônica,lá com certeza,vocês acharão indios ou descendentes,também com o mesmo nivel acima citado.quem deveria ter essas oportunidades,seriam os presos,de ótimo comportamento e quem ganha até 2 salários mínimos.estes sim,tem poucas ou nenhuma oportunidade

    Curtir

  8. eu tb sou contra. agora so pq a pessoa e branca e msm sendo pobre ela nao tem os msm direitos. nao da para aceitar isso

    Curtir

  9. Olá, por conta de seus textos, pesquisei mais sobre o assunto e pude entender mais o contexto em que vivo.
    Obrigada.

    Curtir

Comente com polidez!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto:
search previous next tag category expand menu location phone mail time cart zoom edit close