Abaixo o artigo do Reverendo da igreja anglicana Eduardo Cavani, em protesto contra a Marcha para Jesus sediada em Campo Grande na semana passada.

Campo Grande não merecia, na comemoração dos seus 114 anos de emancipação, o desprazer de assistir a tal “Marcha para Jesus” organizada por pastores-políticos e políticos-pastores reunindo cerca de 40 mil fanáticos para ouvir o “mais do mesmo” – as bobagens retrógradas de Silas Malafaia, Robson Rodovalho e outros.

O movimento evangélico hoje é um dos maiores perigos para a sociedade brasileira e o Estado Laico por seu potencial fundamentalista Malafaia, Feliciano, Rodovalho, Macedo, R.R. Soares e outros nomes menores que estão despontando (e outros que ainda despontarão) são a pior espécie de fanatismo religioso possível. A única diferença entre esse grupo e o fundamentalismo islâmico está nos referenciais religiosos nos quais se apóiam.

É certo que a grande maioria dos muçulmanos não é fundamentalista; mas os poucos que alcançam o poder cometem barbaridades em nome de sua fé. O fundamentalismo evangélico caminha pelo mesmo rumo. Alguém em são consciência e com um mínimo de instrução ou sensibilidade consegue acreditar neles e em seus discursos? Somente os analfabetos funcionais, que pouco lêem (aliás, sequer a Bíblia lêem, ou lêem com olhares medievais) os apóiam.

Não nos iludamos. Os evangélicos têm um projeto de tomada de poder na sociedade brasileira. Os evangélicos têm um projeto político muito perigoso para o Brasil. Utilizam as Escrituras Sagradas do modo como lhes convém, para interferir na Comissão de Direitos Humanos, para propor ou alterar leis e infringir descaradamente as cláusulas pétreas da Constituição Federal. Eles se infiltram nos partidos e conseguem ser eleitos para cargos no executivo e no legislativo.

Mas eles não têm fidelidade partidária nem princípios sociais claros. São mesquinhos e egoístas. Seus princípios são os da promiscuidade “igreja-estado”. A bancada evangélica é, comprovadamente, a mais inútil do Congresso Nacional.
No fundo, seu projeto é acabar com as manifestações religiosas com as quais não compartilham, sejam elas católico-romanas, espíritas, do candomblé, umbanda ou de qualquer outra religião que não a deles; desejam interferir na orientação sexual privada das pessoas “em nome de Deus”; fazem acusações levianas de que o movimento LGBT deseja acabar com as famílias; querem dominar o Ensino Religioso nas Escolas Públicas e, se conseguirem tomar o poder, não hesitarão em se infiltrar nas forças armadas utilizando o potencial bélico brasileiro para seus objetivos.

Sim, matarão se for preciso, invocando textos bíblicos, o “Deus guerreiro” do Antigo Testamento e seus exércitos sanguinários; sim, destruirão o “Cristo Redentor” e qualquer outro monumento de outra religião; sim, se tiverem pleno poder proibirão o carnaval, festas juninas, romarias marianas, terreiros de candomblé e exigirão conversão forçada a seu modelo de vida e à sua religião; o fundamentalismo que os inflama não terá qualquer restrição em proibir shows populares, biquínis nas praias e utilizarão armas químicas para fazer valer seus ideais. Viveremos um “talibã evangélico”, com homens com o mesmo olhar raivoso de malafaia, e gays internados em campos de concentração para que sejam “curados”.

Alguns dirão que estou exagerando. Porém, Malafaia disse ao microfone: “Nós declaramos que vamos tomar posse dos meios de comunicação, das redes de internet, do processo político, nós vamos fazer a diferença, vamos influenciar o Brasil com o evangelho de Jesus”.

Se permitimos que seu projeto vá à frante, preparem as burcas. Nosso futuro será sombrio.

(*) Reverendo Carlos Eduardo Calvani é da Igreja Anglicana no Brasil

Comento

Exagero

Qualquer fundamentalismo é perigoso, mas é inegável que o fundamentalismo evangélico existe e que ele é inofensivo se comparado com o islâmico. Isso porque não existe o conceito de Jihad na bíblia. Além disso, diferente dos islâmicos radicais, os crentes aceitam a laicidade do Estado (só que com uma percepção diferente). Portanto, atualmente evangélicos não são uma ameaça à democracia, pois não querem calar as vozes contrárias a eles, apenas querem inserir seus desejos(conflitantes com outros grupos) no jogo político.

Insignificantes

Se analisarmos o crescimento evangélico com pragmatismo verificaríamos que se eles alcançaram 20% da população, sua representatividade não se traduz na sociedade. Existem 20% de personagens crentes nas novelas e filmes nacionais? Existem 20% de representatividade evangélica nas artes, na cultura e na música? Não. Existem 20% de deputados evangélicos na câmara? Não chegam nem perto (76 na Câmara e só 3 no Senado) .

Avanço na política

O crescimento dos evangélicos na política deve ser observado sem preconceito. Sempre houveram protestantes e sempre estiveram sub-representados.

O que estamos vivendo é um crescimento do poder político de líderes religiosos (como Silas Malafaia e Marco Feliciano), que aparecem como resposta ao avanço da agenda de esquerda caracterizada pela PL 122, Estatuto da Diversidade Sexual, PNDH-3, Kit Gay e etc. Sem essas medidas absurdas que estão em trâmite no Congresso religiosos não teriam alimento para alarmar seus fiéis. Eles não seriam nada. Não teriam o que falar. Em outras palavras, o crescimento do “fundamentalismo evangélico” não é motivado pelo crescimento evangélico, mas pelo avanço de uma agenda totalmente destoante com a realidade desse grupo.

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