EUVÍ: Rio Babilônia (crítica & resenha)


A sempre linda Cristiane Torlone.

Rio Babilônia(1982, dirigido por Neville de Almeida) é sem sombra de dúvidas o melhor filme que o cinema nacional produziu na era da pornochanchada.  Muitos acreditam que o filme não passa de um amontoado de cenas pornográficas que fazem uma ode à sacanagem, porém essas pessoas se esquecem que existe uma história intrigante entre uma e outra cena imoral.

A história é riquíssima em personagens caricatos pouco explorados e existe uma fortíssima crítica social embutida no filme, que é despercebida devido o pesado recheio pornográfico que há durante todo o filme. O vocabulário dos personagens é tão rasteiro e permeados por palavrões que deixaria qualquer filme atual baseado na obra de Shakeaspeare.

Primeiro, para entender Rio Babilônia é preciso ter vivido o Rio babilônico de festas, drogas e orgias. O filme é um 3×4 de um Rio mergulhado numa latente subcultura da cocaina e promiscuidade em franca emergência nos anos 80. O Rio oitentista era um retrato da abertura política, mas a verdadeira abertura que a sociedade carioca estava expirementando era a abertura sexual.

O filme evidencia a desigualdade e faz uma ousada crítica social num período em que a ditadura ainda estava de pé.

Rio Babilônia faz alusão ao pevertido e inepto império babilônico. Babilônia em muitas línguas do oriente significa lugar para a confusão. No Rio babilônico não há  regras, não há moral, não há limites, não há censuras, não há ética, não há princípios e não há valores. O Rio babilônico era um palco perfeito para todo o tipo de perversão dos bons costumes da época. O sexo quase explícito mostrado no filme é adocicado pelas marcas registradas do Rio de Janeiro, ou seja, pelo sol intenso, pelo suor, pela cocaína, pela cerveja e pelas bundas.

Com o advento das discotecas e com a chegada de drogas ainda mais pesadas, o cenário estava armado para a criação de uma cidade amoral num contexto pré-AIDS. Como o HIV não estava difundido não havia o hábito de usar preservativos como existe hoje. Logo, o sexo livre e a sacanagem não precisavam de um pretexto ou de uma motivação para acontecer dentro das altas rodas da juventude carioca, que podia estar reprimida politicamente, porém estava gozando de uma enorme liberdade quando o assunto era o sexo proibido. É bom levar em consideração que na época a camisinha de látex ainda não tinha chegado no mercado e que a camisinha de borracha era bastante desconfortável. Em função disso, o sexo livre do Rio babilônico também se tornou um sexo sem proteção.

Uma obra de arte de Neville de Almeida.

Os personagens de Rio Babilônia têm a alma e o perfil da malandragem brasileira. No filme, toda a sacanagem é mostrada de uma forma bizarra e até meio sinistra. Tudo parece estar fora do seu verdadeiro lugar. Parece que a intenção da produção é chocar o máximo possível os telespectadores com o maior número possível de coisas que possam causar estranheza. A primeira coisa bizarra do filme é o próprio protagonista interpretado por Joel Barcellos, que mesmo sendo um cara horroroso faz papel de galã comedor no filme.

Joel Barcellos vive Marciano, um profissional de uma agência de turismo, encarregado de assessorar os visitantes que chegam ao Rio. O filme começa quando Marciano retorna ao Brasil para recepcionar um cliente e se depara com um Rio de Janeiro “novo”, marcado pelas belezas naturais e que teima em esconder as suas mazelas. Marciano até pelo nome demonstra que é um personagem vindo de fora e que vai tentar se aproveitar do lugar em que acabou de chegar. É pelo olhar de Marciano, um brasileiro comum, que a grande aventura vai ser vista passando pelo submundo do sexo promíscuo e das festas sem lei impetradas por pessoas da alta sociedade carioca.

Um dos clientes de Marciano é o Dr. Liberato (Jardel Filho), recém-chegado ao Brasil após muitos anos no exterior. O Dr. Liberato é o símbolo da corrupção impregnada na elite brasileira. Dr. Liberato é um nome que mostra como o personagem está liberado para fazer qualquer coisa para conseguir o que quer, até mesmo matar se for preciso. Liberato é a máscara dos poderosos brasileiros que sempre conseguem roubar a todos e sair impunes no final, parecendo que são mais inocentes do que aqueles que enganam.

Rio Babilônia é uma peça que define a cultura brasileira.

Christiane Torloni é Vera Moreira, a “intrépida repórter que pratica o famigerado jornalismo investigativo” e investiga a denúncia de contrabando de ouro praticado pelas fazendas do Dr.Liberato. O ouro talvez tenha sido introduzido na história graças a descoberta das jazidas de ouro de Serra Pelada, que fizeram com que o ouro retornasse ao imaginario popular com força. O ouro simboliza mais do que tudo a riqueza e a ostentação.

A história no início parece que vai abordar o tráfico de ouro e a investigação ligando o Dr. Liberato, Marciano e a jornalista Vera Moreira numa trama policial cheia de intrigas e de suspense. No entanto, essa situação bizarra e infundada parece que só serve de pretexto para várias cenas gratuitas de sexo quase explícito que permeiam todo o filme. O nu do filme faz uma analogia fiel à sociedade da época. O filme estava desnudando através da história  o que estava escondido no cotidiano daqueles dias.

A história mostra Marciano e Vera, mesmo estando de lados opostos naquela situação, se unindo e fazendo amor em nome da paixão, mostrando como os opostos se atraem e como o amor pode surgir nas mais estranhas situações. Infelizmente, Vera vai “longe demais” na sua investigação e acaba sendo pêga pelos jagunços do Dr. Liberato. A partir daí Marciano continua a sua vida de experimentação nas festas da alta roda da sociedade carioca.

Numa marcante cena, o filme mostra dois homens, sendo um deles Marciano, sensualizando com uma mulher(Denise Dumont) numa piscina. É bom levar em consideração que Marciano consegue seduzir nessa cena os dois integrantes do casal, demonstrando uma intensa crítica à própria fidelidade monogâmica. A cena desnuda a realidade com o nu de seus atores e mostra como a nossa sociedade estava mergulhada numa fonte de lascívia sem fim. A piscina é um rio- de janeiro- onde toda a devassidão toma forma.

Em determinado momento, chega uma atriz “estrangeira” e ela se encanta com o belo e cheio de negritude sambista interpretado por Antônio Pitanga. O filme expõe a malandragem do sambista em conseguir conquistar a atriz sem ao menos falar uma palavra do idioma inglês. Nessa cena o diretor deve ter tido a intenção de mostrar como o jeitinho brasileiro é capaz de transpor as barreiras linguísticas e culturais para então, dar vantagem a quem o emprega.

Há uma situação icônica no filme onde várias mulheres são leiladas para homens numa casa de prostituição. Essa cena mostra como a sexualidade das pessoas perdeu o valor e passou a ter um valor financeiro maior do que o valor sentimental. O filme nessa cena expõe como as mulheres se tornaram objetos sexuais a partir da revolução sexual. A intimidade passou a ser definida de acordo com o volume de pedaços de papel que têm poder de compra. Os princípios se foram e só sobraram a amoralidade e a vontade de sentir prazer. Os personagens não demonstram nenhum tipo de conflito existencial ou põe a mão na consciência para avaliar o que estão fazendo. Eles apenas comem, dormem e transam, ou seja, são o retrato de uma geração materialista.

O filme usa a beleza das belas mulheres para esconder a sua verdadeira mensagem.

Dona Zica, viúva de Cartola, faz uma pequena, mas notável participação como a mãe de um traficante, a quem recorre Marciano para comprar mil dólares em cocaína – vulgo “brilho” ou “realce” – pedidos pela atriz internacional. Nessa cena o diretor passa como o crime estava impregnado na cultura carioca, não poupando nem a mãe do traficante da terrível função de traficar entorpecentes. O diretor mostra como aquele é tão grotesco que até as famílias são obrigadas a se prostrarem ao crime para conseguir sobreviver.

No Final, o filme descamba numa festa muito louca onde até a nudez frontal de um travesti é mostrada sem constragimento dos demais personagens, evidenciando como a elite festeira da época de fato fez do Rio uma grande babilônia, ou seja, uma terra da confusão, onde até mesmo um homem poderia passar por mulher sem causar estranheza dos personagens. O filme pode parecer uma ode à devassidão, mas o que Neville quer mostrar é uma repulsa ao bom gosto da época.

Neville quebra todas as regras possíveis do políticamente correto e o faz para chocar os telespectadores da realidade que acontecia e que todos se recusavam a olhar. Neville não só quebra as regras na história, mas também quebras as regras para os próprios conceitos artísticos que regiam a direção dos filmes brasileiros da época. A história escrita por Neville não faz o menor sentido na tela do cinema, mas infelizmente ele só estava expondo uma realidade que também não fazia o menor sentido na vida real, onde poderosos e abastados ostentavam uma vida de luxúria enquanto a maioria do povo amargava uma vida de miséria.

Rio Babilônia é um filme ousado, grotesco, estranho, bizarro, irônico, sem sentido, desigual, corajoso, irreal, apelativo, gratuito,cínico, forte, desnecessário e radical. Quando vejo esse filme é até possível sentir o cheiro da podridão moral que estava inerente àquela sociedade. No entanto, o filme é acima de tudo brilhante, por jogar luz numa realidade que é escondida da maioria da população.

No filme, o diretor mostrou as raízes da desigualdade e da corrupção que existem no Brasil por trás de toda a sacanagem. Rio Babilônia não evidencia que as mazelas morais do brasileiro são causadas pela sacanagem. O que o filme evidencia é que a sacanagem é causada pelas mazelas morais que estão impregnadas na cultura brasileira. A trilha sonora não é nada convencional, mas o tema musical do filme é o que há de melhor na produção.

Passados 30 anos desde sua estreia, a fita começa a passar por um revisionismo histórico e muitos a exaltam como obra máxima do cinema nacional, mas acredito que o filme é um clássico, porém não passa de um clássico ruim. Não acredito que o filme seja bom, pois não acho que ele tenha sido produzido com a intenção de ser um bom filme. Acredito que ele foi feito com o intuito de ser ruim e por isso ele até hoje é lembrado por suas bizarrices. Se o filme foi considerado ruim naquela época – e continua sendo considerado ruim hoje – é porque ele é o retrato de uma época que de boa não tinha absolutamente nada.

Rio Babilônia OuOuOu…Rio Babilônia OuOuOu…Rio Babilônia OuOuOu…

Um comentário

  1. Rio Babilônia é um desses filmes incompreendidos, que precisam ser revistos deixando todo o preconceito de lado! Muito ousado para a época, foi massacrado pelo preconceito cego e, na maioria das vezes hipócrita, de uma crítica a serviço do “rei”. O fato é que Rio Babilônia ainda é um filme atualíssimo. Neville de Almeida merece ser reconhecido como um grande cineasta e ferrenho crítico de uma sociedade podre e decadente.

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