EUVÍ: Documentário O Riso dos Outros (crítica)



Hoje em dia vivemos na era do politicamente correto. Devido a isso a sociedade virou palco uma série de conflitos que no passado não existiam. O politicamente correto tem avançado em quase todos os setores da sociedade e nos últimos dias o humor tem sido o mais atingido por ele. O documentário O Riso dos Outros tem a função de tentar dissecar as raízes do humor e como ele está sendo afetado pelo politicamente correto.

O humor mora no exagero, na transgressão, no contrário, na exceção, na crítica, na crueldade e na inabitualidade. Ele por natureza é ofensivo. Muitas vezes as piadas se servem dos esteriótipos que quase sempre denigrem as minorias indefesas que existem na sociedade. Gordos, homossexuais, negros, minorias religiosas, mulheres e pobres geralmente são os principais alvos das piadas. O humor é alimentado pela ausência de compaixão e pelos preconceitos que moram na mente da maioria.

Existem vários tipos de humor. Há tipos de humor que são mais àcido e tipos de humor que são mais inteligentes. Os comediantes não se importam se estão ofendendo alguém. O que eles se importam é que o público ria de suas piadas. O humor tem a capacidade de perpetuar os preconceitos ou pode ainda ridicularizar alguns os mesmos. É possível dar uma declaração preconceituosa e ser preso e é possível dar a mesma numa piada e ser ovacionado.

rafinha bastos
Rafinha já causou problema por fazer piadas com estupro e com pedofilia.

As piadas preconceituosas são o tipo mais raso de humor. É o humor mais fácil, raso e baixo que existe. A piada preconceituosa se ancora nos valores preconceituosos solidificados na sociedade. Ela é mais fácil, pois os esteriótipos que compõe essas piadas já estão montados nas mentes das pessoas. O humor tenta expor aquilo que as pessoas realmente acham e que elas não podem afirmar.

As piadas tendem a chutar os “cachorros-mortos” da sociedade.Pessoas racistas riem de piadas racistas. Pessoas que não gostam de gordos riem de piadas de gordos. Porém nem todas as pessoas que riem das piadas de gordo odeiam gordos. Muitos gordos riem das piadas de gordo. Muitos gordos fazem piada de gordo. O que vale pro gordo vale para as demais minorias atacadas pelas piadas. Até o humor que é feito pelas próprias mulheres tende a reforçar os próprios preconceitos que existem contra elas.

Existem pessoas que conseguem fazer as pessoas rirem sem agredir aos outros, mas para isso elas tem de ser muito menos óbvios e muito mais geniais. Me lembro de certa vez ter visto uma entrevista com um comediante cristão muito religioso. Ele falava que a coisa mais difícil que existe era fazer as pessoas rirem sem ter que ofender a algum grupo ou se utilizar de algum preconceito.

stand up comediantes
A comédia stand up dos nossos dias quer apenas fazer as pessoas rirem, não importa como.

Toda a piada tem um alvo, então porque focar o alvo nas minorias? Porque ao focar nelas se consegue um riso mais fácil. Por que não focar as piadas naquilo que realmente merece ser criticado? Porque são poucos os inteligentes o suficiente para rir de uma piada inteligente e que não é montada em cima do preconceito. O humor tende a ser o refúgio para o preconceito. No humor  um homofóbico enrustido pode claramente gozar da cara dos homossexuais. No humor um machista pode expor toda a inferioridade que ele atribui às mulheres. Apenas no humor um preconceituoso tem a liberdade poética de criticar grupos que possuem uma proteção do senso comum, entre eles as minorias religiosas.

Na vida real as pessoas que não gostam de algumas religiões são obrigadas a terem o mínimo de respeito por elas para não serem rotulados como intolerantes. Até as religiões são alvo de piadas, apesar de haver uma proteção quase que sagrada em relação a alguns santos, deuses e entidades. Se até deus pode ser ridicularizado porque um grupo não pode ser também? Colocar a culpa nas piadas pelas mazelas que existem na nossa sociedade só pode ser uma piada de mau gosto.

Os defensores das piadas preconceituosas sempre se sustentam na liberdade de expressão. Para eles a liberdade de expressão os daria o direito de criticar tudo e todos sem que eles pudessem responder pelos seus atos. Levando em consideração algumas piadas que são feitas é até possível imaginar que muitos confundem a liberdade de expressão com a liberdade de ofensa. Deve haver um bom senso para saber discernir quando uma piada é uma crítica e quando ela realmente incita o ódio a um grupo de forma clara.

Apesar das piadas preconceituosas serem nocivas para a sociedade eu não acredito que elas devam ser proibidas porque isso seria uma agressão enorme à liberdade de expressão, uma vez que não existe um critério claro para a diferenciação entre a crítica e a incitação ao ódio. Se essas piadas fossem proibidas seria instalada uma verdadeira patrulha da censura que apenas faria que pessoas fossem punidas por fazerem as outras rirem.

A própria sociedade deve entender que o humor existe dentro dela e que o problema do Brasil não é que as piadas motivam o preconceito, mas é o preconceito que motiva as piadas. Punir alguém inocente apenas porque esse alguém faz as pessoas rirem pelos motivos errados é a forma mais certa de praticar uma injustiça. A melhor forma de combater as piadas intolerantes é simplesmente não rindo delas e não dando ibope para os seus propagadores.

Já escutei milhares de piadas que agrediam os grupos minoritários do qual faço parte. Não acho elas engraçadas e até fico triste por ser defenestrado numa piada mesmo eu sendo uma pessoa honesta, porém não acredito que as pessoas devam ser punidas por causa de uma piada. Existem formas muito mais inteligentes de combater o preconceito usando a educação e não colocando pessoas comuns atrás da grades.

jean wyllys piadas
Os politicamente corretos sempre atuam para proibir as opiniões que causariam o preconceito contra os grupos dos quais fazem parte. Por que deus pode ser criticado e alguns grupos não podem? Todos podem ser criticados em piadas, mas deve haver o mínimo de respeito nas piadas para coibir a apologia ao ódio contra alguns grupos.

Não é possível que se possa concordar com a ideia de que transformar comediantes em criminosos é a uma boa medida para combater o preconceito. Se for para punir o preconceito de quem faz essas piadas, nada é mais “justo” do que também punir o público que ri delas, pois é o público que as alimenta. Por que não culpar o público que financia o preconceito também? É óbvio que os comediantes só dão ao povo aquilo que eles querem ouvir.

Se as piadas fossem censuradas um branco poderia fazer uma piada racista e ser preso e um negro poderia fazer a mesma piada e ser engraçado. A criminalização do humor apenas criaria mais problemas para um mundo que prefere para sanar suas próprias mazelas aplicar todas as medidas possíveis antes de aplicar a medida certa. Será que o mundo em que vivemos é preconceituoso por causa das piadas ou as piadas que são preconceituosas por causa do mundo em que vivemos?

O documentário é excelente por abordar o assunto sem tomar apenas um lado nessa discussão. Todas as opiniões são apresentadas de forma justa e honesta. No final das contas é possível entender melhor a natureza do humor e suas raízes dentro da nossa sociedade, assim como suas consequências. A produção é tão boa que é capaz de agradar aos defensores de todas as opiniões sobre o humor, pois todos os lados têm a sua voz ouvida. A realidade é que o preconceito existe e as piadas não são as causas do preconceito, as piadas são causadas pelo preconceito. Tentar proibir piadas não vai criar um mundo sem preconceito, mas vai criar um mundo com menos risos.

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