EUVÍ: We Were Here, um documentário sobre o impacto da AIDS na cidade de São Francisco



Acabei de assistir o documentário We Were Here(nós estávamos aqui). O documentário conta a emocionante história dos sobreviventes da epidemia de AIDS que atacou a comunidade gay de São Francisco nos anos 80. A produção é excelente, mas por se tratar de um documentário sobre AIDS, existem muitas imagens fortíssimas que tem a função de reportar a realidade do sofrimento dos infectados.

A partir dos anos 60 a sociedade americana viveu uma revolução sexual motivada pelo crescimento do movimento hippie e pela criação da pílula anticoncepcional. A contracultura avançou de tal forma que o sexo livre deixou de ser um sonho delirante da juventude para se tornar uma realidade. É bom deixar claro que nos anos 60 não havia o HIV e com o advento da pílula anticoncepcional as pessoas enfim poderiam fazer sexo com quem quisessem sem ter que se preocuparem com uma gravidez ou com uma doença perigosa.

A costa oeste dos Estados Unidos se tornou um refúgio para muitos dos hippies dos anos 60 e a Califórnia se tornou o sonho para todos os liberais que estivessem desejando morar longe do moralismo e da repressão sexual que havia na época. Dessa forma a cidade de São Franciso se tornou um dos refúgios para aqueles que estivessem em busca de liberdade. Se o São Francisco da história ficou conhecido pela sua retidão moral, a cidade de São Francisco em pouco tempo ficou conhecida como um paraíso gay para onde todos os homossexuais reprimidos deveriam ir.

A maioria das pessoas gays que iam para a cidade eram homossexuais sem família e por isso eles tinham uma profunda carência emocianal que eles preenchiam com a integração na comunidade gay. A comunidade gay de São Francisco era muito unida e muitos a consideravam como uma família.

As pessoas que iam para São Francisco nos anos 70 fugiam da repressão da sociedade. Lá os homossexuais poderiam ser gays 24 horas por dia sem se preocupar com os preconceitos das pessoas. São Francisco era o lugar onde aqueles que sempre foram reprimidos pela sociedade poderiam ser finalmente aceitos. A cidade simbolizava toda a liberdade sexual que muitos sempre almejaram.

Os anos 70 também trouxe o culto ao corpo e a mania das discotecas. Era comum ver a cidade repleta de homossexuais musculosos nas discotecas da Rua Castro. Naquela época as músicas das discotecas também eram acompanhadas por muito álcool e drogas que faziam a alegria de seus frequentadores. Todo esse contexto de diversão sem limites se tornou o sonho para a juventude gay da América. Infelizmente a diversão sem limites traria consequências também ilimitadas.

A noção que havia na comunidade gay de São Francisco era que sexo era bom, sexo gay era muito bom e que muito sexo gay era ainda melhor. Muitos homossexuais tinham o hábito de fazerem sexo nas próprias discotecas. Muitas discotecas se tornaram verdadeiros pontos de orgias regadas a drogas. Muitos gays traziam um parceiro diferente para a casa todos as noites. Casais gays tinham relacionamentos abertos. O prazer não tinha limites, mas mal sabiam os gays de São Francisco que o limite para o prazer deles já estava a caminho.

Em 1979 um dos líderes da comunidade gay chamado Harvey Milk foi brutalmente assassinado. A comunidade se mobilizou para protesta sua morte. Num dos discursos uma palestrante comemorou que os anos 80 estavam finalmente chegando e com eles chegaria uma nova inesquecível era de liberdade e aceitação na sociedade. Infelizmente os anos 80 de fato se tornaram inesquecíveis para a comunidade gay.

Num dia do ano de 1981 apareceu um cartaz na Rua Castro com três fotos de uma pessoa muito doente com várias manchas roxas pelo corpo. No cartaz havia um aviso dizendo que a comunidade deveria tomar cuidado, pois alguma coisa estava acontecendo. Naquele momento a AIDS já havia chegado na cidade, muitos inclusive já a portavam e a transmitiam nas discotecas, porém a doença ainda não havia se manifestado nas pessoas.

No início algumas pessoas começaram a morrer de repente. Num dia as pessoas estavam bem e alguns dias depois a pessoa estava morta. Começaram a surgir casos de tipos de câncer que só eram comuns em idosos. Como a imunidade das pessoas estava baixa as muitos infectados começaram a morrer de doenças simples que se desenvolviam de forma mortal.

A AIDS chegou em São Francisco em 1976. Em 1979 10% dos gays da cidade já estavam infectados. Em 1981 as pessoas começaram a morrer e a AIDS começou a ser notada.Em 1981 20% dos gays da cidade já estavam infectados. Quando os testes começaram a ser feitos descobriram que cerca de 50% dos gays da cidade era portadores do HIV. A AIDS foi classificada primeiro como o Câncer Gay pelo fato dela ter maior incidência nos homossexuais sexualmente ativos do sexo masculino.

As pessoas não sabiam como ela era transmitida, mas em pouco tempo descobriram que ela era passada através do sexo. Muitas medidas do governo tentaram impedir o avanço da epidemia fechando as discotecas, mas a contaminação não parou. Depois o governo ainda tentaria forçar as pessoas a fazerem exames e serem compulsóriamente internadas, mas a comunidade gay se posicionou contrária a essas medidas nos referendos que foram apresentados.

Em pouco tempo começou a surgir um debate dentro da comunidade gay. Muitos começaram a perguntar se eles realmente deveriam ter liberdade sexual agora que a AIDS estava disseminada. Começaram a surgir grupos de homossexuais que alertavam para o uso da camisinha. Os preservativos já existiam desde os anos 70, mas eles não eram muito usado pelos homossexuais, pois ele era visto apenas como anticoncepcional.

Em meados dos anos 80 as mortes estavam acontecendo com muita frequência e os infectados estavam lotando os hospitais. Como muitos dos homossexuais haviam ido para a cidade sem a família, muitos não tinha quem os tratasse quando eles ficassem doentes. Foram criados dentro da comunidade gay então grupos de pessoas para cozinhar para os doentes não morrerem de fome e para levá-los para o médico. A comunidade gay passou a ser vista como um grupo ainda mais marginalizado e eles não tiveram outra opção a não ser se unir para lutar contra o mal que os estava dizimando.

Nos hospitais as situações contadas no documentário são as mais interessantes. É contada a história de uma mãe que cuidou de um filho soro-positivo até ele morrer. Depois que o seu primeiro filho morreu um segundo filho dela foi diagnosticado e internado. Ela acabou perdendo dois filhos para o HIV. Mais tarde um terceiro filho também teria sido diagnosticado e essa mãe cuidou de seu terceiro filho até o momento de sua morte. A pobre mulher viu a AIDS roubar dela aquilo que ela mais amava, que eram os seus filhos.

Geralmente os doentes eram sempre acompanhados pelos seus parceiros saudáveis. O filme conta também a história de um homem que acompanhava seu parceiro. Depois que o seu parceiro morreu ele foi internado e acompanhado pelo seu novo parceiro e assim sucessivamente. Muitos doentes recebiam as visitas de seus pais e apenas nesse momento é que eles descobriam que seus filhos eram gays. Muitos pais não aceitavam muito bem o fato de descobrirem que tinham um filho gay e que em breve iria morrer.

Conforme o passar dos anos novas drogas foram descobertas e as pessoas pararam de morrer nos mesmos números de antes. O filme termina alertando que ainda hoje pessoas são infectadas e ainda morrem em consequência do HIV, mas a sobrevida das pessoas hoje foi aumentada o suficiente para que os infectados possam ter uma vida normal. We Were Here é uma produção corajosa que conta uma história sem mocinhos e vilões. No filme o personagem principal é o vírus, a vida dos sobreviventes é o cenário e a trilha sonora são os depoimentos de quem escapou da morte.

Hoje os sobreviventes do HIV em São Francisco são a prova viva do sofrimento que a humanidade sofreu nas últimas décadas desde a chegada da AIDS. Nenhum grupo foi tão estigmatizados e vitimizado desde a descoberta da doença. Infelizmente o documentário não conseguiu ter um final mais feliz, pois os sobreviventes contam apenas a história do início do impacto da doença na sociedade, não o fim dela.

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